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Diego Vieira

Psicólogo Clínico Comportamental
Especializando em Neuropsicologia  


Publicado em 14/05/2018 às 12:36

SER MÃE, pode causar depressão

Júlia mora numa região periférica da sua cidade, desistiu dos estudos quando estava no primeiro ano do ensino médio para aventurar-se com seu terceiro namorado viajando para outra cidade sem avisar aos pais, passou dois meses namorando este rapaz que parecia finalmente ter encontrado o amor de sua vida. Muito apegado a ela, eles planejavam uma vida a dois. Mesmo implicando com os pais, Júlia passava a maior parte do tempo em atividades pouco produtivas como ficar no celular usando as redes sociais e vestir-se para ir a festas com o namorado, que passava o dia inteiro trabalhando.

Sempre foi uma menina que não tinha responsabilidade com horário, estudos muito menos com trabalho. Aos 16 anos perdeu seus pais num acidente automobilístico e vivenciou um estado de luto profundo que culminou no uso contínuo de medicamentos antidepressivos por um período de um ano. Aos 20 anos, conseguiu um emprego de doméstica mas não durou suas semanas no emprego, visto que chegava sempre atrasada e saia do trabalho muito tempo antes do horário combinado com seu patrão.

Aos 21 anos engravidou. As pessoas a parabenizavam pelo feito e torciam para que aquela criança viesse a adoçar a vida da jovem mãe. Júlia também acreditava nisso e torcia pelo nascimento do bebê. Ao nascer, a criança trouxe bastante alegria para aqueles pais e toda a comunidade em que moravam deram presentes. Duas semanas após o nascimento do bebê Júlia vivenciava uma tristeza que não sabia o motivo, tinha pensamentos negativos em relaçao a maternidade e este estado foi se intensificando ao longo dos dias até que aos dois meses do pós-parto chorava escondida e rejeitava seu filho. Perdeu o apetite e o desejo sexual. Pensava em suicídio e se achava incapaz de ser mãe. Júlia vivenciava um processo conhecido como depressão pós-parto.

O caso relatado de Júlia não difere de muitos outros comumente vivenciado por mães pelo mundo. A depressão pós-parto é uma realidade caracterizada por casos de transtorno depressivo maior no período puerperal, ou seja após o nascimento do bebê. De acordo com o DSM-V, dá-se nas primeiras quatro semanas após o nascimento do bebê. Segundo o CID-10 aparece nas seis primeiras semanas, não havendo um período limite para a sua investigação. (CAMPOS e RODRIGUES, 2015, p. 485).

Tornar-se mãe se configura como um processo comportamental complexo que envolve questões biológicas, psicológicas e sociais. Dessa forma estamos falando de filogênese, ontogênese e sociogênese, pilares da filosofia behaviorista e da ciência análise do comportamento. Aspectos subjetivos e papéis sociais são colocados à mesa, uma vez que ser mãe denota particularidades típicas de cada situação. Desta forma, não é simplesmente o parentesco biológico que determina o comportamento materno tido como ideal, entretanto mães que não correspondem às expectativas sociais podem desenvolver um padrão comportamental característico de esquiva com o objetivo de esconder ou controlar respostas que reflitam esses sentimentos publicamente, o que pode ocasionar a manutenção de outros comportamentos problemáticos.

Os fatores de risco listados nos manuais diagnósticos tradicionais implicam em contingências aversivas para o sujeito. O que são contigências aversivas? São ambientes não prazerosos para o mesmo. Por exemplo uma pessoa pode estar em contingência aversiva ao perder um emprego, ao terminar um relacionamento, ao ser vítima de assalto ou até mesmo ao esquecer as chaves de casa na casa de um amigo, são inúmeros os exemplos, mas sempre estarão ligados ao ambiente da pessoa.

[...] a afirmativa recorrente na obra de Skinner, de que as causas do comportamento estão no ambiente, deve ser entendida de acordo com uma noção muito ampla de ambiente, que não inclui apenas a configuração de eventos que antecede o comportamento, como em certas versões da Psicologia estímulo-resposta, mas todo um tecido de relações entre comportamento e ambiente interagindo, por sua vez, com sua herança genética. Os eventos privados tem, é claro, também uma parte bastante importante nesta história individual (ROSE, 1982, p. 3).


Uma mulher que vive sob condições de desamparo, desde a perda de seus pais e isenta de responsabilidades em sua vida, desde o descompromisso com os estudos e com o casamento, bem como com o trabalho, vivendo sob condições de prazer momentâneo e pouco envolvida com uma vida onde as coisas são conquistadas com esforço, estará propensa a um padrão comportamental típico da depressão pós-parto. Entretanto, precisamos antes compreender a depressão, para depois compreendermos a depressão pós-parto, que na verdade será apenas a contingência em que o comportamento depressivo apareceu. Uma pessoa que emite comportamentos que fazem parte de um padrão depressivo, o qual chamamos de “desamparo aprendido”, é uma pessoa que vive sob contingências aversivas em seu ambiente, ou seja, o mesmo tem baixo repertório comportamental para lidar com eventos desagradáveis.

A classificação dos manuais por si só não nos dá base para intervenção num caso de depressão, mas sim a função do comportamento do sujeito, a isso damos o nome de tríplice contingência. Um evento aversivo como a chegada de um bebê funciona como estímulo que causa o comportamento de rejeição, por exemplo, que consequentemente é reforçado positivamente por isenção de responsabilidades. O processo é mais complexo mais no básico funciona mais ou menos dessa forma. O que causa o comportamento do sujeito é tão importante quanto quais as consequencias que ele tem com este comportamento.

Outros aspectos ainda merecem ser destacados. A tristeza pós-parto é um processo natural até as duas primeiras semanas, pois é um período em que os hormônios, que antes bombardeavam esta mãe, são diminuídos drasticamente causando mudança no humor. No entanto, se a tristeza persiste por mais de 4 semanas, um caso de depressão pós-parto pode estar sendo identificada, mas como todo comportamento deve ser compreendido na relação do sujeito com o ambiente, faz-se pertinente uma análise funcional feita por um psicólogo analista do comportamento.

É importante considerar ainda que CAMPOS e RODRIGUES (2015, p. 484) “A psicose pós-parto é um quadro mais grave e pouco frequente na população, acometendo uma em cada 1.000 mães. Na maioria das vezes tem comorbidade com o transtorno bipolar”. Além disso, os autores indicam que, além da dificuldade e incapacitações características do transtorno, alterações de humor expressas no período após a gravidez podem colaborar para o surgimento de relações de contingencias aversivas; decorrentes das crenças sobre o que é adequado socialmente para o papel de mãe acompanhado pelo estigma dos transtornos mentais.

Em suma, uma pessoa que emite padrões de comportamento típico da depressão pós-parto, está envolvida num ambiente de pouca estimulação reforçadora. O comportamento humano é multideterminado, por isso não deve ser avaliado considerando apenas o estímulo discriminativo “bebê”, mas todo um complexo de variáveis que direta ou indiretamente estão relacionadas ao comportamento emitido. A história de vida do sujeito oferece dados indispensáveis para uma análise funcional que terá como objetivo, identificar as variáveis envolvidas na emissão do comportamento e oferecer dados para a modificação do mesmo. Busque um psicólogo analista do comportamento para avaliação e tratamento.

Diego Marcos Vieira da Silva
Psicólogo comportamental (CRP15/4764), especializando em neuropsicologia, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental.

REFERÊNCIAS:
BRUM, Evanisa Helena Maio de; OLIVEIRA, Débora Silva de. Depressão pós-parto: divergência conceituais – depressão pós-parto. 2012. Disponível em: <file:///C:/Users/Diego/Downloads/17-1-61-1-10-20120821.pdf> Acesso em 03 de set. 2017
CAMPOS, Bárbara Camila de; RODRIGUES, Olga Maria Piazentin Rolim; Depressão pós-parto materna: crenças, práticas de cuidado e estimulação de bebês no primeiro ano de vida. Porto Alegre, v. 46, n. 4, pp. 483-492, out.-dez. 2015. Disponivel em: < http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psico/v46n4/09.pdf> acesso em 3 de set. 2017
Carvalhares, M. & Benício, M. (2002). Capacidade materna de cuidar e desnutricäo infantil. Revista de Saúde Pública, 36 (2), 188-197.
DE ROSE, J. C. Consciência e propósito no behaviorismo radical. Campinas - SP: ITCR, 1982. Disponível em: <http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/outros/Consciencia_e_Proposito_Behaviorismo Radical_JulioC.pdf>. Acesso em: 10 de julho de 2015.
MALDONADO, Maria Tereza. Psicologia da gravidez. 12. ed. Rio de Janeiro: VOZES 1983. apud (KNIEBIEHLER E FOUQUET; CAPLAN; HOWELLS; RUBINSTEIN; ROBINSON E STEWART; BADINTER). 


Publicado em 08/05/2018 às 08:30

MOTIVAÇÃO PARA A VIDA

Pretendo iniciar este texto primeiramente falando sobre a preguiça, a qual se refere a um padrão de comportamento típico de pessoas pouco interessadas em agir em seu ambiente, por vários motivos, um deles pela facilidade com que tem acesso aos bens com o mínimo de esforço energético possível. Essas pessoas até (poucas vezes) tentam se comprometer com algo, entretanto “O desgaste de manter compromissos ocorre porque à medida que aparecem desconfortos/aversivos ao longo do trajeto e não encontramos reforços tão facilmente, tendemos a abandonar o objetivo traçado” (ALVES, 2014). Estas pessoas mantém um padrão fixo de resposta de desistência frente aos desafios e mais que isso: apenas ao discriminar que atingir determinado objetivo requer de sua parte um desgaste energético tendem a estacionar e pouco fazer em prol de si mesmo. Vale resaltar que preguiça está associada a procrastinação frente a determinadas demandas a qual somos expostos. Uma criança com preguiça de estudar, dificilmente terá preguiça de ir ao parque de diversões, por exemplo. Não podemos dissociar, com isso, preguiça e motivação. São comportamentos que andam de mãos dadas, um contribuindo para o atraso, outro para o sucesso.

Para visualizarmos a preguiça como impedimento para agir, é válido considerar o entendimento a respeito de motivação. Uma pessoa que emite um padrão de comportamento de economia de energia, é a mesma pessoa que sente-se desmotivada para emitir outros comportamentos no ambiente. Conforme CHAUD (2013) “Não existem reforçadores em absoluto: um estímulo qualquer só será reforçador a partir de operações momentâneas que estabelecem aquela função, em especial, estados de privação. E sem reforçador, não há motivação. ”. Então se quisermos que determinada pessoa emita determinados comportamentos precisamos manejar as condições pelas quais está envolvida afim de alcançarmos o objetivo alvo. Mas o que é motivação?

O termo motivação é frequentemente utilizado por meio do senso comum para designar fenômenos internos que surgem como processo que impulsiona o indivíduo a realizar determinadas ações com definições aparentadas as de impulso, energia, força, motivo e vontade de maneira mentalista e meramente interpretaviva, pois a motivação identificada como um estado interno que causa uma ação está sujeita as mesmas críticas e limitações que sofre a utilização de outros eventos internos como causas, descritas por Skinner. Skinner trata motivação em termos de operações de privação/saciação e estimulação aversiva, enfatizando-as como variáveis ambientais controladoras do comportamento, já que configuram-se como eventos que estabelecem ou modulam o valor de um determinado estímulo como reforçador. Na linguagem comportamental, motivação é chamada de “operações ambientais que alteram a efetividade de algo como reforçador”. Então é comum que estejamos motivados para determinados comportamentos, outros não, da mesma forma que a preguiça. O comportamento de preguiça e/ou motivação aparecerão apenas frente a determinadas situações as quais o sujeito busca evitar, pela aversividade do dispêndio energético.

Os primeiros cientistas a falar no conceito operações estabelecedoras foram Keller e Schoenfeld (1950/1996), o qual estava relacionado ao conceito de impulso(drive), no sentido de podermos executar certas operações sobre o organismo, como por exemplo a privação de alimento ou água, assim essas operações tinham efeito sobre o comportamento que indicavam mudanças momentâneas do evento como reforçador e da mudança de frequência no comportamento que se tinha seguido por este evento reforçador. Esse evento reforçador pode ser positivo ou negativo. Será positivo quando o comportamento aumenta visando receber algo, será negativo quando o comportamento aumentar evitando aversivos. Mais tarde, Michael analisa o conceito de drive utilizado pelos cientistas e passa a compreender que o mesmo estava muito associado a ideias mentalistas, então passou a utilizar o termo operação estabelecedora (OE). Na área de comportamento verbal, o conceito de operações estabelecedoras vem sendo largamente usado no treinamento de mandos, operante verbal reforçado por uma consequência característica e sob controle funcional de condições relevantes de privação ou estimulação aversiva, portanto o mando especifica seu reforçamento. A própria definição de mando proposta por Skinner foi revista após a publicação do artigo de Michael (1988) para incluir o termo operação estabelecedora como principal variável de controle.

Mas sigamos falando sobre a (des) motivação das pessoas para alcançarem seus objetivos. Em análise do comportamento, compreende-se que todo comportamento só se mantém se estiver sendo reforçado, ou seja, todo comportamento que emitimos visa reforçadores (obter ganhos) ou se livrar de aversivos (coisas desagradáveis como ser mal visto no grupo). Talvez seja complicado à priori compreender que os princípios que regem o comportamento humano perpassam esses dois objetivos mas vejamos um exemplo: Um rapaz recentemente ingressou em seu primeiro emprego, entretanto tem faltado bastante com seus horários pois acorda atrasado e mal dá tempo de escovar os dentes para se dirigir ao trabalho. Este rapaz está com dificuldade em manter seu compromisso, pois se sente pouco motivado para tal. No caso exposto é possível analisar de duas maneiras a manutenção desse comportamento. Primeiro, ir ao trabalho é algo aversivo e sofrido principalmente quando o rapaz tem histórico de ter passado boa parte de sua vida jogando videogame enquanto seus pais arduamente trabalhavam para sustentar a família, então esse histórico favorece o descompromisso do rapaz sempre que estiver em situação em que terá que responsabilizar-se por gerir seus bens pois sempre teve pessoas que fizeram isso por ele. Segundo, ficar em casa é bastante reforçador pois o mesmo pode passar boa parte de seu tempo jogando videogame e comendo besteiras desfrutando do prazer dos reforçadores imediatos.

Se motivação está associada a operações ambientais que alteram o valor de algo como reforçador, para que o rapaz tenha o trabalho como algo reforçador, é necessário que primeiro ele perceba os ganhos que terá com isso. Nós só nos sentiremos motivados para algo quando percebemos que há ganhos a ser conquistado. Privar este rapaz das coisas que ele tem com facilidade através dos pais por exemplo, poderia ser uma boa iniciativa para que ele compreenda que deve se esforçar para obter reforçadores que garantam sua sobrevivência. Na vida, muitas vezes passamos por momentos em que nos sentimos desmotivados para agir no ambiente simplesmente por discriminarmos o gasto de energia necessário para alcançarmos o objetivo final. Acho que começarmos a compreender que precisamos ser mais ativos na obtenção de nossos bens seja um bom começo para mudarmos nossa percepção romântica dela e enxergarmos que de fato nós só conquistamos nossos objetivos com muito esforço e dedicação e isso requer dispêndio energético sim. O reforçamento explica como se dá os problemas motivacionais, às vezes o comportamento deixa de acontecer por conta de não ter tido o reforço necessário para a ocorrência do mesmo, o valor reforçador de uma consequência depende diretamente da operação estabelecedora. A privação de alimento é um exemplo de operação estabelecedora que durante certo tempo aumenta a efetividade de alimento como uma forma de reforço.

Se quisermos modificar o comportamento do outro, precisamos primeiro analisar qual seria o reforçador para que o mesmo se sinta motivado e se quisermos modificar a nós mesmos precisamos encontrar reforçadores que nos motivem a agir em prol de algo, mesmo estando em um ambiente onde pouco somos valorizados e os ganhos serão a longo prazo. Qualquer um de nós podemos ser cientistas do comportamento, desde que compreendamos que toda ação do organismo deverá ser analisada no ambiente ao qual ele está inserido. A escolha é clara: ou não fazemos nada e permitimos que um futuro miserável e provavelmente catastrófico nos alcance, ou usamos nosso conhecimento sobre o comportamento humano para criar um ambiente social no qual poderemos viver vidas produtivas e criativas, e fazemos isso sem pôr em risco as chances de que aqueles que se seguirão a nós serão capazes de fazer o mesmo (Skinner).

Diego Marcos Vieira da Silva
Psicólogo comportamental (CRP15/4764), formado pela Universidade Federal de Alagoas, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental

Referências:
SKINNER, B. F. Ciência e comportamentohumano. Tradução:JoãoCarlos Todorov, Rodolfo Azzi. - 1 Ia ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ALVES, Gérson. Pessoas que reclamam, mas nada fazem. 2012.
CHAUD, Nicolau. A função da preguiça. 2013. Disponível em: < http://www.comportese.com/2013/03/a-funcao-da-preguica>
Luciana; Moreira , Marcio Borges ; Hanna , Elenice S. O capítulo de motivação.Ótica da análise do comportamento.(Orgs): Maria Martha Costa Hubner,Márcio Moreira Borges;editores da série Edwiges Ferreira de Mattos Silavares,Francisco Baptista Assumpção Junior,LéiaPriszkulnik. Rio deJaneiro:Guanabara Koogan,2012.