Blogs


Diego Vieira

Psicólogo Clínico Comportamental
Especializando em Neuropsicologia  


Publicado em 14/07/2018 às 07:30

QUANDO A TIMIDEZ ATRAPALHA

Joana, 20 anos, recém graduada em Direito sonha com a carreira de advogada, mas sente fortes tremores e palpitações quando pensa na possibilidade de lidar com pessoas desconhecidas e/ou defender seu ponto de vista em público. Sua vida acadêmica foi de muita ausência em sala de aula, poucos amigos e isolamento social. Joana considera-se tímida e não consegue lidar com isso, visto que acredita ser um traço de sua personalidade. Essa história lhe parece comum?

Por muito tempo acreditou-se que a timidez poderia ser classificada como uma doença em que seus “enfermos’ sofrem com ansiedade extrema em ambientes sociais, apresentam baixa autoestima, tem comportamentos de introversão, conversam sem olhar nos olhos das pessoas, acreditam ser o centro das atenções e que as pessoas a sua volta estão lhe avaliando o tempo todo para levantar críticas ao seu respeito e julgar se seus comportamentos são positivos ou não. Tais características foram sendo avaliadas e no DSM-III passou a ser considerada como uma fobia social. Neste sentido, vários autores discutiram este comportamento sob vários aspectos e defenderam a interpretação de que ela seria uma subcategoria da fobia social. Hoje, a Associação Americana de Psiquiatria na 5º edição do Manual Diagnóstico e Estatísticos dos Transtornos Mentais, traz alguns critérios como definidores da fobia social. Elencados até a letra “J” resumem-se em situações (generalizada ou específica) de evitação em que causam sofrimento psicológico, com sintomas fisiológicos, cognitivos e comportamentais que podem levar o indivíduo a um ataque de pânico.

Mas por que sou tímido? Para responder a esta pergunta precisamos definir a timidez em termos comportamentais para assim, analisar as causas deste comportamento. A timidez deve ser entendida como uma classe de comportamentos que caracterizam determinado padrão no repertório do indivíduo. Para ser mais claro, não existe pessoas que “SÃO” tímidas. Timidez não é algo que a pessoa “possua”, mas sim comportamentos que a pessoa emite em determinadas situações. Estes comportamentos são aprendidos durante o desenvolvimento do indivíduo por evitação de exposição, seguido de ganhos (reforço negativo e positivo) por comportar-se de forma tímida. Por ser algo que adquirimos no nosso desenvolvimento, as causas do comportamento devem ser analisadas no(s) ambiente(s) de formação do sujeito. Dessa maneira, desde nossas apresentações no colégio até a participação em grupos de amigos contribuirão para o fortalecimento deste comportamento. Conforme o behaviorismo radical de Skinner (1969), a pessoa tímida tem um repertório comportamental deficitário. Ou seja, o acúmulo de situações evitativas, o isolamento, e a falta de exposição a situações importantes tem sido a causa deste repertório.

No caso de Joana, pode-se considerar que durante sua formação evitou estar em lugares ou com pessoas que lhe causavam desconforto simplesmente por não saber lidar com estas situações. A medida em que evitamos nos expor vamos contribuindo para um repertório comportamental pobre e fortalecendo o aparecimento de sintomas fisiológicos todas as vezes que estivermos em situações semelhantes. Para solucionar este problema, faz-se necessário que o indivíduo esteja exposto em situações que antes evitava por mais que cause desconforto, pois nosso cérebro vai se adaptando a estas situações, buscando amenizar as sensações físicas e fortalecendo outros circuitos neuronais a fim de fortalecer um novo repertório comportamental. Os treinamentos podem ser feitos no cotidiano, até mesmo conversando com a atendente de uma loja, visto que ela é paga para conversar com os clientes então não se corre o risco de não ser correspondido. Comece a conversar mais com as pessoas, começando pelo seu vizinho, os familiares; cumprimente as pessoas, faça saudações. Tente olhar nos olhos delas quando estiver conversando. Saia com amigos, busque interagir socialmente. Esteja em grupos que sejam produtivos. Busque resolver seus problemas ao invés de pedir para os outros facilitarem para você. Os profissionais de psicologia são capacitados para junto ao indivíduo desenvolver essas habilidades de enfrentamento a situações desconfortáveis e aquisição de um repertório mais enriquecido em habilidades e dinamismo.

Diego Marcos Vieira da Silva
Psicólogo comportamental CRP 15/4764

Skinner, B.F. (2003). Ciência e comportamento humano. Tradução organizada por J.C.Todorov & Azzi 11ª edição. São Paulo: Martins Fontes Editora. (trabalho original publicado em 1953)
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. 992p.
MAGALHÃES, Rui Tavares. Da timidez à fobia social. 2010. Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/18589/1/Da%20Timidez%20%C3%A0%20Fobia%20Social%20-%20Rui%20Magalh%C3%A3es.pdf
 


Publicado em 24/06/2018 às 22:20

Gerenciando suas emoções, você é bom nisso?

Quero iniciar este texto questionando ao leitor: alguma vez você precisou “ser forte” para não agir de acordo com as emoções? Quantas vezes ouvimos as pessoas dizerem que não conseguem fazer algo por causa de suas emoções? Acho que a situação mais comum pela qual presenciamos, é quando alguém fala, por exemplo, que “a raiva que sentiu foi tanta que se comportou de certa forma”, atribuindo ao sentimento de raiva a causa de seu comportamento. O sistema límbico está intimamente relacionado às emoções e pode ser compreendido, conforme os três níveis de seleção. A psicologia explica este fenômeno e, mais que isso, comprova em seus experimentos como situações ambientais são capazes de provocar sensações internas as quais nomeamos conforme os outros possam compreendê-las. Nós controlamos nossas emoções ou somos controlados por elas?
Inicialmente, sentimento e emoção são tidos como diferentes entre si. Enquanto o primeiro está mais ligado a sensações internas e necessárias à sobrevivência, a segunda está relacionada a ação do indivíduo quando se está sentindo algo. A ciência análise do comportamento, fundamentada na filosofia do behaviorismo radical, ainda tem sido alvo de incompreensão em boa parte das interpretações a ela referidas. Isso se deve a J.B. Watson que foi precursor do behaviorismo metodológico e segundo ele, apenas eventos observáveis poderiam ser estudados, ignorando, dessa forma, toda emissão de comportamento que fosse introspectivo, pois não era passível de observação para estudos cientÍficos. Mais a frente, B.F. Skinner, lança o behaviorismo radical, afirmando a importância do estudo científico desses comportamentos, os quais não devem ser ignorados pela ciência psicológica pois, “a maneira como as pessoas se sentem é, frequentemente, tão importante quanto o que elas fazem” (SKINNER, 1991). Com isso, é válido compreendermos o que são os sentimentos para esta ciência e que posição ocupam na “causalidade” do comportamento humano. Conforme a análise do comportamento, sentimentos nada mais são do que sensações fisiológicas sentidas pelo organismo frente a determinado evento ambiental, é uma ação sensorial como ver, ouvir, tocar, etc. A comunidade verbal é responsável por atribuir nomes a essas sensações, onde muitas vezes, não são compatíveis com o que de fato está sendo sentido. Uma criança que cai da bicicleta, por exemplo, pode ser estímulo para que aqueles que presenciam o evento, digam “nossa, deve ter doído”. A criança que ouve esta frase, sendo contingente ao evento de cair, passa agora a compreender que cair é o mesmo que sentir dor; quando muitas vezes a sensação nem é sentida. Filogeneticamente, sentir dor é consequenciado com afago e preocupação das pessoas a sua volta, por esta razão temos um forte motivo para que a sensação de “dor” seja sentida.
“Falar sobre as reações fisiológicas para outra pessoa, geralmente visa a consecução de uma determinada consequência. Quando diante de uma situação eu falo para uma pessoa que sinto medo, eu não estou simplesmente descrevendo meu conjunto de reações fisiológicas. Eu só falarei que tenho medo caso tenha aprendido que existe algum tipo de retorno satisfatório em apresentar este comportamento verbal. Isso é tão verdadeiro que as pessoas são capazes de manipular as outras apresentando comportamentos verbais que não estão correlacionados com suas reações fisiológicas”. (ALVES, 2012)
Semelhante ao exemplo acima, passamos agora a analisar o sentimento de tristeza. Este sentimento, o qual chamaremos de comportamento pois sentimento é comportamento, é condição importantíssima para que as pessoas se aproximem de quem emite este comportamento, e mais que isso lhe deem atenção e lhe prive de responsabilidades. Ressalto que as sensações pelas quais sentimos terão um valor maior a depender do ambiente de formação do sujeito. Os sentimentos têm sua importância filogenética, ontogenética e sociogenética pois garantiram a sobrevivência de nossa espécie. As emoções são inerentes à condição humana, pois fomos capazes de desenvolver estruturas cerebrais mais complexas ao longo da evolução. O paleopálio, conhecido também como cérebro intermediário formado pelas estruturas do sistema límbico, desenvolveu-se como uma camada acima do cérebro primitivo, sendo mais tarde, coberto pelo neopálio, ou cérebro superior (racional). Ao sistema límbico, atribui-se o papel das emoções. É nessa região que nosso sistema nervoso central desenvolve funções afetivas como aquelas onde fêmeas cuidam de sua prole, bem como os mamíferos passam a desenvolverem empatia pelos outros animais. Segundo Barreto e Silva (2010), “as emoções mais primitivas e bem estudadas pelos neurofisiologistas, com a finalidade de estabelecer suas relações com o funcionamento cerebral, são a sensação de recompensa (prazer, satisfação) e de punição (desgosto, aversão), tendo sido caracterizado, para cada uma delas, um circuito encefálico específico”.

O título desse texto desperta no leitor a compreensão de que os sentimentos são algo que controlam nossa ação no mundo, como se fossem entidades que se apossam de nosso organismo nos deixando passivos na emissão de nossos comportamentos. No entanto, como vimos, sentimentos também são comportamentos e como tal, devem ser analisados levando em consideração as contingências ambientais pelas quais o sujeito está inserido. Não podemos validar a afirmação de Willian James quando ele fala que “não choramos porque estamos tristes, mas estamos tristes porque choramos”; senão entraremos numa tautologia e nada é explicado levando em consideração variáveis do ambiente. Choramos E estamos tristes porque algo aconteceu no ambiente (a perca do emprego, por exemplo). Ninguém rir, por estar feliz. As pessoas riem e estão felizes por terem se beneficiado de algo.

O ambiente é responsável pelas sensações internas pelas quais o organismo responde e “lidar com as emoções” nada mais é do que utilizar de inteligência emocional para não se deixar levar pelos sentimentos. Uma pessoa que terminou um relacionamento reforçador, logicamente sentirá bastante tristeza pois este evento sinaliza perda de benefícios e pessoas que não sabem lidar com suas emoções, optarão por permanecerem tristes e se ausentando do trabalho e dos compromissos, até que um outro amor bata a sua porta, já pessoas que sabem lidar com esse sentimento, sofrerão com a perda, mas não deixarão que isso impossibilite essa pessoa de continuar sua vida, mesmo vivenciando o luto.

A melhor forma de “lidar com suas emoções” é primeiro entendê-las como sensações privadas a que o sujeito emite, frente a determinados eventos que tem um certo valor de acordo com a história de reforçamento e punição do sujeito, entendendo-as como naturais ao ser humano. Depois, trabalhar habilidades de comportamento para mesmo com determinados sentimentos comportar-se de forma adequada e responsabilizando-se pelas consequências de suas ações. “Lidar com as emoções” requer, acima de tudo, autocontrole. Não é porque estou com raiva, por exemplo, que partir para o “ataque violento” seja a melhor opção para resolver meu problema. Controlar o que estou sentindo e avaliar a melhor forma de resolver meus problemas é a melhor solução para irmos exercitando nosso comportamento assertivo e sabendo lidar com os sentimentos de tristeza, raiva, ansiedade, ódio, amor, etc. Um psicólogo analista do comportamento dispõe de técnicas essenciais para que pessoas “emotivas” aprendam a se autocontrolar e aprender novas habilidades para lidar com os eventos da vida.

Diego Vieira (@psicodiegovieira)
Psicólogo comportamental (CRP15/4764), formado pela Universidade Federal de Alagoas, especializando em neuropsicologia, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental.


Referências:

Barreto, J.E.F.; Silva, L.P. Sistema límbico e as emoções – uma revisão anatômica. Rev Neurocienc 2010, 18 (3): 386-394. Disponivel em: <http://www.revistaneurociencias.com.br/edicoes/2010/RN1803/426%20revisao.pdf>
Amaral, J.R.; Oliveira, J.M. Sistema límbico: o centro das emoções. Disponível em: <http://www.cerebromente.org.br/n05/mente/limbic.htm>
ALVES, Gérson. Reprimir sentimentos faz mal?. 2012.
Skinner, B.F. O lugar do sentimento na análise do comportamento. Terapia por contingências de reforçamento. Disponivel em: <http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/skinner/lugar_sentimento.pdf>
Skinner, B.F. (2003). Ciência e comportamento humano. Tradução organizada por J.C.Todorov & Azzi 11ª edição. São Paulo: Martins Fontes editora. (trabalho original publicado em 1953)
 


Publicado em 11/06/2018 às 06:50

AZAR NO AMOR, SORTE NO JOGO

A quantidade de pessoas que procuram consultórios de psicologia devido a decepções amorosas sempre foi expressiva. Quando não são queixas principais, elas estão camufladas em outros problemas comportamentais, muitas vezes presente no que chamamos de transtornos. O problema torna-se ainda mais amplo quando incluimos relacionamentos conjugais que culminam em superação, crises de ciúme, dificuldades de aceitar a perda, incerteza quanto ao futuro, traição, desgaste emocional e sensação de ‘desamor’ na relação. À essas situações chamamos de “contingências aversivas”, ou seja, nada mais são que condições ambientais fora do controle do indivíduo e que deixa o organismo numa condição de desconforto. Estamos em “contingências aversivas”, por exemplo quando estamos prestes a ser avaliado numa prova de vestibular; ou então quando nosso carro fica sem combustível justo em um local sem posto de gasolina por perto. Situações como estas levam às pessoas a refletirem sobre dois adjetivos bastante utilizado na comunidade verbal: azarento e sortudo. Neste texto, analisaremos o ‘azar’ não como algo que a pessoa possua, mas como um conjunto de comportamentos que podem ser categorizados como inábeis para a obtenção de ganhos na relação (consequencia reforçadora).

Definir o amor não é tarefa fácil, pois envolve uma ampla variedade de comportamentos que podem ser avaliados minuciosamente levando em consideração a história da espécie, incluindo uma inclinação ao ato sexual, a história individual de cada um, considerando as condições pelas quais cada pessoa passou e a história da cultura, incluindo costumes e formas de relacionar de um povo. Esses três princícios sustentam a ciência da análise do comportamento e, como citado por Skinner , os gregos já os utilizavam nomeando-os de Eros, Philia e Ágape. Dessa forma, o amor nada mais é do que um conjunto de comportamentos que são emitidos em prol da satisfação das necessidades de uma pessoa. Essas “necessidades” incluem proteção, status, companhia, reconhecimento, cuidado, valorização, gratidão, entre tantos outros substantivos, os quais fazem parte do que nomeamos de “contingências reforçadoras”, ou seja, tudo aquilo que causa sensação de prazer ao indivíduo. Outro exemplo de contigências reforçadoras é quando tiramos nota máxima na prova que temíamos não ser bem sucedido; ou até mesmo quando somos agraciados com um bom cargo na empresa em que trabalhamos. Este tipo de reforçamento é positivo, no sentido de algo ser acrescentado no nosso ambiente para aumentar a probabilidade de em condições semelhantes emitirmos os mesmos comportamentos, uma vez que deram certo. Dessa forma, “o que é o amor se não outro nome para reforçamento positivo? ” (Skinner, 1948, p. 282).

Relacionar-se com as pessoas envolve a união de repertórios comportamentais diferentes. São diferentes formas de interpretar o mundo, de conceber as relações, de lidar com frustrações, de pensamento, de investimento, de sofrimento, diferentes formas de tratamento, de prioridades, de comportamento, etc. A história pessoal de cada um é algo muito particular, de modo que as pessoas são o resultado de todas as condições de vida as quais ficaram expostas. É inviável querer que a outra pessoa pense e aja da mesma forma que você, mesmo estando sob as mesmas condições ambientais. Quando se ama, geralmente se está sob controle de estimulações relacionadas às qualidades do outro e constuma-se omitir os estímulos relacionados aos defeitos. O que geralmente acaba nos levando a uma decepção muito maior a longo prazo. Em vista disso, geralmente as pessoas acabam se frustrando quando percebem que aquilo que idealizou no outro, na verdade não passou de idealização. Embebidos numa concepção errada de amor, vivem em busca de parceiros perfeitos, encarando o amor como algo mágico e que já vem pronto. Não se pode referenciar a perfeição como condição para vivência de um grande amor, mas sim entender que amor é construção e que semelhante a uma planta, se não for regado são sobreviverá. À concepção de construção, cabe não apenas ao relacionamento amoroso mas a qualquer relação entre duas pessoas.

Mas a inabilidade amorosa começa muito antes da convivência, ela é expressa até mesmo na escolha do(a) parceiro(a). Antes de pensar em investir numa relação, pense primeiro se você está preparado(a) para tal. Esta preparação está relacionada a nossa disponibilidade para aceitar o outro, diferente de nós; a disponibilidade para promover um ambiente propício ao fortalecimento do vínculo, ou até mesmo a disponibilidade para superar as frustrações pertinentes a qualquer relação, como os momentos em que o outro vai mostrar suas fraquezas, preocupações, angustias, tristezas, tudo aquilo que voce não gostaria de passar. Essa preparação pessoal envolve também o que nós temos para oferecer ao outro, pois as “contingências de reforçamento” devem ser aplicadas ao casal. Não é apenas o comportamento do outro que é importante para investimento numa relação, mas o nosso próprio comportamento. Isso inclui as pessoas que você conversa, os ambientes que você frequenta, até mesmo a sua “iniciativa” para buscar melhorar. Algo bastante comum é vermos pessoas que só esperam que os outros se aproximem delas e muitas vezes quando isso acontece, há um bloqueio de qualquer assunto que envolva relacionamento, decorrente de uma história de decepção que inclui não apenas a história pessoal, mas o acesso a informações de decepções de amigos(as). Gérson Alves da Silva Junior, grande referência da psicologia Alagoana, produziu um texto cujo título “Os deuses são intocáveis”, falava dessa ânsia em sermos agraciados e fazermos pouco esforço para agraciar o outro. Iara era a personagem do texto que seduzia os homens até certo limite e bloqueava qualquer envolvimento com ela.

Cada pessoa tem um perfil comportamental que aproxima ou afasta os outros de seu convívio, a este perfil denominamos de “repertório comportamental”, outras pessoas o entenderão como personalidade. De modo geral, são comportamentos emitidos pelas pessoas e caracterizam seu modo particular de viver. “Eu gosto do jeito dele(a)” é uma frase comum que considera a pessoa em sua totalidade. O “jeito” de uma pessoa pode ser identificado na forma que se veste, na gesticulação, na maneira de conversar, na forma de pensar, condições físicas e emocionais e de acordo com a história pessoal de cada um, alguns perfis são eleitos como padrões para relacionamento amoroso. Ou seja, mesmo que o indivíduo se decepcione com alguém e busque outra pessoa, normalmente o perfil da outra pessoa é semelhante ao perfil do(a) outro(a) que não deu certo, ou seja, as pessoas sempre buscarão os mesmos perfis para se relacionar. Isso é tão verdade que normalmente ouvimos a seguinte frase: “fulana só gosta de homem que não presta”. As decepções com determinados perfis nos levam a considerar um erro na escolha de parceiros(as) e em análise do comportamento, denominamos de “erro discriminativo”, toda resposta emitida frente a um estímulo disfuncional. O problema não é gostar de determinados perfis, o problema é esperar que o relacionamento seja de uma forma, quando na verdade ele se faz de outra.

As pesquisas levantadas sobre a escolha dos parceiros para relacionamento, geralmente resultam em certas características universais que mais aproximam os perfis. O psicólogo David Buss (2000) realizou uma pesquisa em 37 culturas para verificar as características mais relevantes na escolha do parceiro e os dados por ele coletados por meio de entrevista revelam que os homens preferem as mulheres jovens e as mulheres preferem homens mais velhos. À luz da biologia, “mulheres mais jovens liberam óvulos mais novos, têm um endométrio mais saudável, e consequentemente conseguem engravidar e ter menos risco de aborto natural (Thales Coutinho, 2009)”. Isso significa dizer que mulheres mais jovens representam fertilidade, característica importante quando automaticamente elas despertam mais curiosidade dos homens. Em relação aos homens, os mais velhos “não apresentam espermatozóides tão piores, em comparação com os mais jovens, e são geralmente mais bem sucedidos economicamente, dispondo de maiores recursos para cuidar da saúde da esposa grávida (Thales Coutinho, 2009)”, ou seja mulheres estão em busca de segurança e proteção por parte dos parceiros. Mas esses são dados evolucionistas e embora temos muito deles em nós, nossa história de vida também vai influenciar muito na escolha de nossos(as) parceiros(as).

Uma vez escolhido(a) o(a) parceiro(a), a convivência aos poucos vai permitir a emissão de comportamentos próprios do repertório do sujeito, os quais na maioria das vezes eram ‘desconhecidos’. Vale lembrar que, nos primeiros encontros, automaticamente os sujeitos já emitem determinados comportamentos que podem nos deixar atentos para possíveis compromissos futuros. Com isso quero dizer que, por exemplo ninguém se torna agressivo depois do compromisso, sem antes ter emitido algum comportamento que indicava inclinação para este padrão. Algumas pessoas são agressivas verbalmente e isso indica uma sensibilidade para a agressão física também. A forma como as pessoas se comportam diz muito sobre ela. Continuar ou não com o parceiro mesmo em meio a “decepção” é uma escolha da pessoa e isso está relacionado às “contingências de reforçamento” que o sujeito está envolvido, as quais falei no início do texto.

A convivência permite também a “modelagem” das pessoas a medida em que é possível consequenciar comportamentos assertivos dos indivíduos com algo benéfico para elas. Por exemplo, se Joana quer que o marido seja mais romântico, ela irá consequenciá-lo com beijos a afagos sempre que ele mostrar romantismo para com ela e isso pode ser percebido desde o “bom dia” pela manhã. Por outro lado, se na emissão destes comportamentos o parceiro não tem ganhos, a tendência natural é deixar de emiti-los, pois “nenhum comportamento se mantém, se não for reforçado”. Relacionamento amoroso deve ser algo em que ambas as partes são recíprocas, no sentido de favorecer meios para ser “querido” pelo outro e a isso cabe uma reflexão: “O que estamos fazendo para o outro gostar ainda mais de mim?”. Esse ponto do texto requer bastante cuidado pois estamos falando de favorecer um ambiente reforçador para o casal e não apenas para o(a) parceiro(a), não é apenas o outro que deve ser favorecido, mas ambos. À medida em que se percebe que não está havendo reciprocidade, está na hora de rever se vale a pena continuar apostando na relação.

Então, “azar” não pode ser entendido como algo interno, mas como uma inabilidade do sujeito nos comportamentos ligados ao amor. O problema muitas vezes não está nos outros, mas em você. Decepções amorosas são pertinentes ao ser humano e servem como lição para modificarmos a maneira como estamos nos relacionamento com as pessoas. Se queremos um ambiente em que haja reciprocidade e cumplicidade amorosa, precisamos promover este ambiente e isso envolve um esforço, um gasto energético. Precisamos desenvolver uma habilidade apropriada para cada relacionamento e não continuarmos mantendo os mesmos padrões de comportamento com pessoas diferentes. Uns se aproximarão, outros se afastarão. Amor, requer conquista e as pessoas precisam estar preparadas para conquistar ao invés de ser conquistadas. Manter uma relação requer reparos constantes para não promovermos contigências aversivas no ambiente do casal. Busque um psicólogo analista do comportamento para avaliar sua relação!

Diego Vieira (@psicodiegovieira)
Psicólogo Clínico Comportamental (CRP 15/4764)

Referências:
Coutinho, Thales. O que faz o ciúme? Explicações evolucionistas e neurobiológicas para este fenômeno. 2009. Disponível em: < http://blog.sbnec.org.br/2009/05/o-que-faz-o-ciume-explicacoes-evolucionistas-e-neurobiologicas-para-este-fenomeno/>
Skinner, B.F. (2003). Ciência e comportamento humano. Tradução organizada por J.C.Todorov & Azzi 11ª edição. São Paulo: Martins Fontes Editora. (trabalho original publicado em 1953).
Skinner, B.R. (1989/2005). Questões recentes na análise comportamental. São Paulo: Papirus.
SIDMAN, Murray. Coerção e suas implicações. (R. Azzi; Andery, M.A., trads) Campinas: Editorial Psy. (Originalmente publicado em 1989).
 


Publicado em 03/06/2018 às 23:40

Precisamos falar sobre luto

Após ser informado sobre sua condição terminal, B. F. Skinner disse em entrevista para National Public Radio em 1990:

[...] E quando me contaram que eu tinha isso [leucemia] e iria morrer em poucos meses, eu não tive nenhum tipo de emoção. Nem um pouco de pânico, medo ou ansiedade. Nada. A única coisa que me emocionou, de verdade, meus olhos se encheram de água quando pensei isso, é que eu teria que contar a minha esposa e filhas sobre isso. Sabe, quando você morre você machuca as pessoas, se elas te amam. E você não pode evitar. Você tem que fazer isso. E isso me incomodava. [tradução nossa]. (Ridanos Protectors, 2014 apud Nascimento et al, 2015)

Nesse breve comentário, o fundador do Behaviorismo Radical exemplifica uma das experiências mais marcantes que o ser humano pode vivenciar: o luto. Condição inerente ao ser humano, este comportamento pode ser entendido como punição negativa, a qual o comportamento diminui quando algo é retirado do ambiente da pessoa. Lidar com a perda de algo importante não é tarefa fácil, principalmente para pessoas que dependiam do objeto perdido para prover seu ambiente. No entanto apesar de estarmos sujeitos a perdas constantemente, muitas vezes preferimos acreditar que ela se efetivará num tempo distante, tendo em vista a relação prazerosa que se estabeceu entre a pessoa e objeto perdido.

Para analisarmos o luto, precisamos antes entendê-lo como um estado emocional que se caracteriza pela depressão do sistema nervoso central, permitindo à pessoa enlutada diminuição dos comportamentos normalmente emitidos no ambiente. Para exemplificar melhor, imaginemos que João seja bastante apegado ao seu cãozinho e há quatro anos fazem caminhadas juntos pelas ruas da cidade todos os dias pela manhã, até que um dia o cãozinho morre. É natural que o comportamento de passear pelas ruas da cidade todos os dias seja diminuído e além disso, João passe a maior parte do tempo em casa, pensando e olhando as fotos do cachorro. Dessa forma, podemos considerar o luto como um conjunto de comportamentos que interagem com o ambiente, denotando a ele uma análise precisa de previsão e controle. Eventos antecedentes pode-se considerar o vínculo e a perda, as reações do luto como o próprio comportamento e a “recuperação” como consequência.

Em psicoterapia analítico-comportamental, trabalhamos com a “audiência não-punitiva” que significa um acolhimento da pessoa enlutada, compreendendo que cada processo de luto é único e será influenciado por fatores distintos, como quem era a pessoa que morreu; a natureza do vínculo com a pessoa morreu, antecedentes históricos; variáveis de personalidade; variáveis sociais e estressores concorrentes, como prejuízos secundários, mudanças sobrepostas e crises subjacentes à perda. Muitas vezes aquele que busca terapia está desmotivado para continuar vivendo sem a pessoa perdida, pois não vê outra forma de existência. Com isso, agem pouco em seu ambiente, passando a maior parte do tempo isolado do convívio social e deixam de fazer atividades rotineiras como de costume, a isso damos o nome de “contingência aversiva” e envolve estímulos que diminuem a atividade do organismo.

Segundo Worden (2013), supõe-se que há influências biológicas para que a separação influencie respostas instintivas de reparação. Quando se trata de humanos, fatores culturais também moldam a maneira como cada um reage à perda, mas a tentativa de reencontro com o falecido é uma frequente em praticamente todas as civilizações, como, por exemplo, por meio de rituais religiosos ou apego a pertences do falecido. Quando falamos de fatores culturais estamos falando de “sociogênese” e creditamos a ela boa parte das causas de nosso comportamento, inclusive dos sentimentos, então a forma como reagiremos a perda deve considerar uma análise do ambiente ao qual estamos inseridos, dando maior ênfase a todos os aspectos que podem influenciar na forma como o comportamento de enlutar será emitido.

Diferenciando a perda do luto, a variável mais importante é a vinculação. Em 31 de outubro de 2002, o assassinato do casal de classe média alta Manfred e Marísia von Richthofen, na Zona sul de São Paulo, chocou o país ao ser descoberto que a filha do casal, Suzane, foi a responsável pelo assassinato. Embora disseram à polícia que mataram o casal porque tinham proibido o namoso de Suzane com Daniel, a polícia afirma que a causa tem relação com a herança que deixariam para a fiha. Este caso real denota um aspecto importante para a análise do luto, pois envolve uma gama de variáveis para ser analisada, mas em particular quero frisar que a “perda” dos pais representava um alto valor de benefícios para Suzane, considerando a herança que receberia. Por isso nem toda perda significa luto. A perda significará luto quando se tem uma relação de apego emocional com o objeto perdido, semelhante a mães que perdem seus filhos, casais que se separam, amigos que se despedem antes de uma viagem sem volta, pessoas ligadas por laços afetivos. A esse comportamento natural, damos o nome de vinculação. Evoluímos com o “comportamento de vínculo”, pois foi necessário para nossa sobrevivência, principalmente onde relacionar-se com as pessoas tinha um valor de segurança em grupo. No entanto, como ilustrado no caso acima, a perda, embora planejada pela filha, tinha um alto valor de reforço para a mesma, o que também não significa dizer que ela não sofreu com isso ao se ver agora responsável por seus próprios atos. O comportamento humano é multideterminado, por isso não podemos avaliar o luto apenas pela forma como as pessoas estão emitindo. As reações à perda tendem a ser excessivas nos casos em que parte considerável dos reforçadores positivos da vida do enlutado dependiam do falecido para serem produzidos (Torres, 2010).

Podemos ser capazes de vivenciar o luto com menos impacto, se antes nos preocuparmos em prover um ambiente onde os benefícios alcançados por meio de alguém, sejam alcançados por nós próprios, a isso damos o nome de “habilidades”. Uma pessoa de 20 anos, que nunca trabalhou, que sempre alcançou o que queria pelo esforço de alguém e mantinha-se numa bolha isolada do convívio social, com certeza sentirá o luto de uma forma muito mais severa do que uma outra pessoa de mesma idade que está trabalhando, ativa, na faculdade e alcançando seus objetivos por meio de seus próprios esforços. Entretanto, isso não impede a pessoa de treinar suas habilidades para superar da melhor forma a perda de alguém importante, aumentando seu repertório comportamental. Assumir responsabilidades funciona como uma importante ferramenta para ampliar nosso repertório, somando a isso ser provedor de seu próprio ambiente.

Para superar o luto, faz-se necessário antes vivenciá-lo. Objetos pessoais, ambientes que frequentavam, fotos registradas e pessoas queridas, podem ser estímulos aversivos para a pessoa enlutada que de início pode optar por evitá-los. No entanto, a depender da recuperação, estar em contato com estes estímulos pode ser uma maneira encontrada para se despedir de forma saudável da pessoa perdida. Lembrar de maneira positiva da pessoa, considerando a contribuição dela para sua vida, pode também funcionar como formas benéficas para se vivenciar o luto. Nossa cultura também se utiliza de estímulos religiosos para interpretar nossas ações no mundo, para algumas pessoas, entrar num grupo religioso possibilita aceitação, vinculação, acolhimento nesse momento de dor, porém a psicoterapia se faz como uma ferramenta crucial nesse processo natural, pois utiliza-se de ferramentas específicas para a recuperação da pessoa enlutada.

Assim, levando em consideração que nosso comportamento é produzido na interação com nosso ambiente, o luto também deve ser analisado conforme cada caso, pois cada processo de luto será influenciado por fatores distintos e merecem uma análise funcional do comportamento em questão. Seja ativo! Movimente-se! Alcance seus objetivos mediante seus próprios esforços, ampliando suas habilidades de sobreviver num ambiente aversivo.
Diego Marcos Vieira da Silva / @psicodiegovieira
Psicólogo Clínico Comportamental CRP 15/4764

REFERÊNCIAS:

NASCIMENTO, D.C. NASSER, G.M. AMORIM, C.A.A. PORTO, T.H. Luto: uma perspectiva da terapia analítico-comportamental. Psico/Argum. 2015. Out./dez. 33 (83), 446-458.
SKINNER, B. F. (1980). Contingências do reforço: Uma análise teórica. Tradução organizada por R. Moreno. Em Pavlov/Skinner (pp. 171-380), . São Paulo: Abril Cultural. (Trabalho original publicado em 1969)
TORRES, N (2010). Luto: a dor que se perde com o tempo (...ou não se perde?). In M. R. Garcia, P.R. Abreu, E.N. Cillo, P.B. Faleiros, & P.Piazzon, Sobre comportamento e cogniçao: Terapia Comportamental Cognitiva (Vol. 27, pp. 385-393). Santo Andre, SP: ESETec Editores Associados.
 


Publicado em 29/05/2018 às 08:53

Bloqueio nas estradas: Uma análise sobre movimentos sociais sob a ótica comportamental

Estamos vivenciando no país uma situação caótica frente ao aumento indiscriminado do combustível que dificulta o trânsito de veículos automobilísticos nas estradas intermunicipais e interestaduais nos últimos dias. O caos que se instala, comove caminhoneiros e tem efeitos positivos em toda a população que se solidariza com a causa, inclusive há prejuízo em vias aéreas, tendo em vista a falta de combustível nas aeronaves do Brasil. Como podemos analisar este contexto considerando uma ciência que analisa o comportamento humano frente ao engajamento de toda uma população por uma única causa? O comportamento humano é multideterminado e faz-se saber que o movimento social instalado atualmente faz competir ao cientista do comportamento argumentar sobre o envolvimento de toda uma população por uma única causa. O que faz as pessoas se unirem por um só objetivo?
A filosofia do behaviorismo radical propõe aos analistas do comportamento que o objeto de estudo da psicologia deva ser o comportamento dos seres vivos, especialmente do homem (SILVA et al., 2007, p.357). Esta filosofia destina sua atenção aos acontecimentos externos que exercem influência sob o comportamento. Para isso, compreende o comportamento humano tendo causas em três níveis de seleção, são elas, a filogênese corresponde as características comportamentais fisiológicas que foram importantes ao longo da evolução sendo, portanto, comum a todos de uma mesma espécie; a ontogênese, que está relacionada a aprendizagem individual do sujeito, ou seja, sua história de reforçamento e punição, que influencia no repertório comportamental da pessoa e consequentemente na forma como o indivíduo se relaciona com o meio e por último a sociogênese que está ligado à cultura, ao meio social do indivíduo, com todos os costumes de um povo, de uma região e de um sistema de crenças. Assim como os dois primeiros níveis de seleção aqui apresentados, a sociogênese também compõe importância ímpar para a sobrevivência da espécie e, portanto, exerce influência significativa no comportamento humano.

Para entender melhor como esse bloco de variáveis também determina a forma como as pessoas se comportam, tomemos como exemplo o famoso costume indiano de amor e veneração a vaca zebu, tão criticado e mal compreendido pelo resto do mundo. Segundo Marri Harris: “Os hindus veneram as vacas porque são o símbolo de tudo que é vivo. Assim como Maria é, para os cristãos, a Mãe de Deus, para os indianos a vaca é a mãe da vida. Não existe, portanto, maior sacrilégio para um indiano que matar uma vaca” (HARRIS, 1978, p. 17-18). As palavras do autor denunciam dois sistemas de crenças diferentes, de um lado a veneração e o amor a vaca, de outro a Maria, a mãe de Deus. Lugares, costumes e comportamentos diferentes, fruto da seleção sociogenética.

Quando passamos a analisar o movimento que hoje se instala no País, teremos como foco principal o papel da sociogênese no envolvimento de pessoas em prol de um bem comum. Por que isso acontece? É válido considerar que nos inserirmos em grupos é uma característica natural e necessária para nós seres humanos e por assim ser, as pessoas tendem a emitir comportamentos que são reforçados socialmente para se sentirem aceitos em determinado grupo. Quando falamos de cultura, envolvemos comportamentos socialmente aceitos e que são reforçados no ambiente verbal do indivíduo, assim a tendência de nos aliarmos a uma causa que seja reforçadora para toda uma nação.

O peso desse nível sociogenético tem tanta influencia sob o indivíduo que comumente as pessoas evitarão emitir comportamentos que sejam incompatíveis com o que está sendo reforçado. Por isso, dificilmente as pessoas dirão que são contra o movimento social em prol do bem de todos, a menos que o sujeito esteja inserido em um meio onde este tipo de discurso seja valorizado.

Vale considerar ainda que nosso País tem em sua história marcantes movimentos sociais que foram responsáveis pela realidade que temos hoje. Direitos sociais foram conquistados em movimentos sociais e a população teve acesso aos seus benefícios por causa desses movimentos. O período da Ditadura Militar no Brasil provocou um tempo propício para a efervescência dos movimentos sociais uma vez que, dentro das Universidades, as inserções e consolidação dos cursos de Ciências Sociais com a reforma pedagógica dos cursos propiciaram um pensamento mais crítico frente à interpretação de nossa realidade. Os estudantes, com um entendimento da situação junto a indignação dos demais indivíduos que não aceitavam esse modelo de governo ditatorial, formaram uma massa de combate organizada (MEDEIROS, 2015).

Sobre o papel dos movimentos sociais neste contexto, Gohn (2011, p. 23) pondera o quanto é inegável “que os movimentos sociais dos anos 1970/1980, no Brasil, contribuíram decisivamente, via demandas e pressões organizadas, para a conquista de vários direitos sociais, que foram inscritos em leis na nova Consti¬tuição Federal de 1988”. O movimento de oposição e contestação ao regime militar tinha um propósito claro: defesa dos valores do Estado democrático e crítica a toda forma de autoritarismo estatal.

Na atualidade os movimentos sociais mais importantes do País, na luta por direitos, vem do movimento negro, LGBT, movimento sem terra, a luta das mulheres, entre outros. Com isso, considera-se que sociogenéticamente, o movimento social no Brasil contra a situação caótica que vivenciamos frente ao valor do combustível é tão relevante quanto o movimento social de pessoas que são minoria e que resolvem fechar as estradas para serem ouvidas. Essas pessoas, por vezes são criticadas e até criminalizadas por isso. As pessoas quando resolvem fechar uma estrada impedindo seu caminho ao trabalho, atrasando sua rotina diária e dificultando sua vida pessoal, merecem ser respeitadas tanto quanto todos aqueles que hoje protestam nas estradas do País.

Acontece que aqueles que criticam são apoiados por uma maioria que valoriza o discurso de quem está desvalorizando o movimento. A complexidade do quanto as pessoas estarão envolvidas ou não em determinada causa, considera o quanto que essas pessoas são prejudicadas. Se já prejuízo, a tendência é emitir comportamento de defesa de direitos e inserção em grupo, se não há prejuízo para o sujeito, a tendência é não apoiar e buscar forças para destruir aquilo que dificulta suas atividades normais do cotidiano.

Penso dessa forma que uma sociedade verdadeiramente comprometida com o bem social só será possível quando as pessoas verdadeiramente estiverem dispostas a lutar por causas que são do coletivo, seja você afetado diretamente ou não. A partir do momento em que começarmos a olhar para o coletivo e deixarmos de lado nossas individualidades, podemos pensar sim numa sociedade mais justa e igualitária para todos.

Diego Marcos Vieira da Silva
Psicólogo comportamental (CRP15/4764), especializando em neuropsicologia, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental.

REFERÊNCIAS:
GOHN, Maria da Glória. Conselhos Gestores e gestão pública. Revista ciências sociais. Unisinos, Rio Grande do Sul, v. 42, n.1, p-5-11, jan/abr. 2006. Acesso em 01/09/2015.
HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. 14. ed. Porto Alegre: L&PM, 2016.
MEDEIROS, A.M. Breve história dos movimentos sociais no Brasil. Sabedoria política, 2015. Disponível em: < https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/breve-historia-dos-movimentos-sociais-no-brasil/> acesso em 25 de maio de 2018.
SILVA, Dacio R. S. da et al. Transtorno obsessivo–compulsivo (TOC): características, classificação, sintomas e tratamento. ConScientiae Saúde, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 351-359, 2007. Disponível em: <http://www.saudedireta.com.br/docsupload/1340133701cnsv6n2_3q32.pdf >. Acesso em: 5 jul. 2015.
SKINNER, Burrhus F. Contingências do reforço: Uma análise teórica. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
 


Publicado em 14/05/2018 às 12:36

SER MÃE, pode causar depressão

Júlia mora numa região periférica da sua cidade, desistiu dos estudos quando estava no primeiro ano do ensino médio para aventurar-se com seu terceiro namorado viajando para outra cidade sem avisar aos pais, passou dois meses namorando este rapaz que parecia finalmente ter encontrado o amor de sua vida. Muito apegado a ela, eles planejavam uma vida a dois. Mesmo implicando com os pais, Júlia passava a maior parte do tempo em atividades pouco produtivas como ficar no celular usando as redes sociais e vestir-se para ir a festas com o namorado, que passava o dia inteiro trabalhando.

Sempre foi uma menina que não tinha responsabilidade com horário, estudos muito menos com trabalho. Aos 16 anos perdeu seus pais num acidente automobilístico e vivenciou um estado de luto profundo que culminou no uso contínuo de medicamentos antidepressivos por um período de um ano. Aos 20 anos, conseguiu um emprego de doméstica mas não durou suas semanas no emprego, visto que chegava sempre atrasada e saia do trabalho muito tempo antes do horário combinado com seu patrão.

Aos 21 anos engravidou. As pessoas a parabenizavam pelo feito e torciam para que aquela criança viesse a adoçar a vida da jovem mãe. Júlia também acreditava nisso e torcia pelo nascimento do bebê. Ao nascer, a criança trouxe bastante alegria para aqueles pais e toda a comunidade em que moravam deram presentes. Duas semanas após o nascimento do bebê Júlia vivenciava uma tristeza que não sabia o motivo, tinha pensamentos negativos em relaçao a maternidade e este estado foi se intensificando ao longo dos dias até que aos dois meses do pós-parto chorava escondida e rejeitava seu filho. Perdeu o apetite e o desejo sexual. Pensava em suicídio e se achava incapaz de ser mãe. Júlia vivenciava um processo conhecido como depressão pós-parto.

O caso relatado de Júlia não difere de muitos outros comumente vivenciado por mães pelo mundo. A depressão pós-parto é uma realidade caracterizada por casos de transtorno depressivo maior no período puerperal, ou seja após o nascimento do bebê. De acordo com o DSM-V, dá-se nas primeiras quatro semanas após o nascimento do bebê. Segundo o CID-10 aparece nas seis primeiras semanas, não havendo um período limite para a sua investigação. (CAMPOS e RODRIGUES, 2015, p. 485).

Tornar-se mãe se configura como um processo comportamental complexo que envolve questões biológicas, psicológicas e sociais. Dessa forma estamos falando de filogênese, ontogênese e sociogênese, pilares da filosofia behaviorista e da ciência análise do comportamento. Aspectos subjetivos e papéis sociais são colocados à mesa, uma vez que ser mãe denota particularidades típicas de cada situação. Desta forma, não é simplesmente o parentesco biológico que determina o comportamento materno tido como ideal, entretanto mães que não correspondem às expectativas sociais podem desenvolver um padrão comportamental característico de esquiva com o objetivo de esconder ou controlar respostas que reflitam esses sentimentos publicamente, o que pode ocasionar a manutenção de outros comportamentos problemáticos.

Os fatores de risco listados nos manuais diagnósticos tradicionais implicam em contingências aversivas para o sujeito. O que são contigências aversivas? São ambientes não prazerosos para o mesmo. Por exemplo uma pessoa pode estar em contingência aversiva ao perder um emprego, ao terminar um relacionamento, ao ser vítima de assalto ou até mesmo ao esquecer as chaves de casa na casa de um amigo, são inúmeros os exemplos, mas sempre estarão ligados ao ambiente da pessoa.

[...] a afirmativa recorrente na obra de Skinner, de que as causas do comportamento estão no ambiente, deve ser entendida de acordo com uma noção muito ampla de ambiente, que não inclui apenas a configuração de eventos que antecede o comportamento, como em certas versões da Psicologia estímulo-resposta, mas todo um tecido de relações entre comportamento e ambiente interagindo, por sua vez, com sua herança genética. Os eventos privados tem, é claro, também uma parte bastante importante nesta história individual (ROSE, 1982, p. 3).


Uma mulher que vive sob condições de desamparo, desde a perda de seus pais e isenta de responsabilidades em sua vida, desde o descompromisso com os estudos e com o casamento, bem como com o trabalho, vivendo sob condições de prazer momentâneo e pouco envolvida com uma vida onde as coisas são conquistadas com esforço, estará propensa a um padrão comportamental típico da depressão pós-parto. Entretanto, precisamos antes compreender a depressão, para depois compreendermos a depressão pós-parto, que na verdade será apenas a contingência em que o comportamento depressivo apareceu. Uma pessoa que emite comportamentos que fazem parte de um padrão depressivo, o qual chamamos de “desamparo aprendido”, é uma pessoa que vive sob contingências aversivas em seu ambiente, ou seja, o mesmo tem baixo repertório comportamental para lidar com eventos desagradáveis.

A classificação dos manuais por si só não nos dá base para intervenção num caso de depressão, mas sim a função do comportamento do sujeito, a isso damos o nome de tríplice contingência. Um evento aversivo como a chegada de um bebê funciona como estímulo que causa o comportamento de rejeição, por exemplo, que consequentemente é reforçado positivamente por isenção de responsabilidades. O processo é mais complexo mais no básico funciona mais ou menos dessa forma. O que causa o comportamento do sujeito é tão importante quanto quais as consequencias que ele tem com este comportamento.

Outros aspectos ainda merecem ser destacados. A tristeza pós-parto é um processo natural até as duas primeiras semanas, pois é um período em que os hormônios, que antes bombardeavam esta mãe, são diminuídos drasticamente causando mudança no humor. No entanto, se a tristeza persiste por mais de 4 semanas, um caso de depressão pós-parto pode estar sendo identificada, mas como todo comportamento deve ser compreendido na relação do sujeito com o ambiente, faz-se pertinente uma análise funcional feita por um psicólogo analista do comportamento.

É importante considerar ainda que CAMPOS e RODRIGUES (2015, p. 484) “A psicose pós-parto é um quadro mais grave e pouco frequente na população, acometendo uma em cada 1.000 mães. Na maioria das vezes tem comorbidade com o transtorno bipolar”. Além disso, os autores indicam que, além da dificuldade e incapacitações características do transtorno, alterações de humor expressas no período após a gravidez podem colaborar para o surgimento de relações de contingencias aversivas; decorrentes das crenças sobre o que é adequado socialmente para o papel de mãe acompanhado pelo estigma dos transtornos mentais.

Em suma, uma pessoa que emite padrões de comportamento típico da depressão pós-parto, está envolvida num ambiente de pouca estimulação reforçadora. O comportamento humano é multideterminado, por isso não deve ser avaliado considerando apenas o estímulo discriminativo “bebê”, mas todo um complexo de variáveis que direta ou indiretamente estão relacionadas ao comportamento emitido. A história de vida do sujeito oferece dados indispensáveis para uma análise funcional que terá como objetivo, identificar as variáveis envolvidas na emissão do comportamento e oferecer dados para a modificação do mesmo. Busque um psicólogo analista do comportamento para avaliação e tratamento.

Diego Marcos Vieira da Silva
Psicólogo comportamental (CRP15/4764), especializando em neuropsicologia, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental.

REFERÊNCIAS:
BRUM, Evanisa Helena Maio de; OLIVEIRA, Débora Silva de. Depressão pós-parto: divergência conceituais – depressão pós-parto. 2012. Disponível em: <file:///C:/Users/Diego/Downloads/17-1-61-1-10-20120821.pdf> Acesso em 03 de set. 2017
CAMPOS, Bárbara Camila de; RODRIGUES, Olga Maria Piazentin Rolim; Depressão pós-parto materna: crenças, práticas de cuidado e estimulação de bebês no primeiro ano de vida. Porto Alegre, v. 46, n. 4, pp. 483-492, out.-dez. 2015. Disponivel em: < http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psico/v46n4/09.pdf> acesso em 3 de set. 2017
Carvalhares, M. & Benício, M. (2002). Capacidade materna de cuidar e desnutricäo infantil. Revista de Saúde Pública, 36 (2), 188-197.
DE ROSE, J. C. Consciência e propósito no behaviorismo radical. Campinas - SP: ITCR, 1982. Disponível em: <http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/outros/Consciencia_e_Proposito_Behaviorismo Radical_JulioC.pdf>. Acesso em: 10 de julho de 2015.
MALDONADO, Maria Tereza. Psicologia da gravidez. 12. ed. Rio de Janeiro: VOZES 1983. apud (KNIEBIEHLER E FOUQUET; CAPLAN; HOWELLS; RUBINSTEIN; ROBINSON E STEWART; BADINTER). 


Publicado em 08/05/2018 às 08:30

MOTIVAÇÃO PARA A VIDA

Pretendo iniciar este texto primeiramente falando sobre a preguiça, a qual se refere a um padrão de comportamento típico de pessoas pouco interessadas em agir em seu ambiente, por vários motivos, um deles pela facilidade com que tem acesso aos bens com o mínimo de esforço energético possível. Essas pessoas até (poucas vezes) tentam se comprometer com algo, entretanto “O desgaste de manter compromissos ocorre porque à medida que aparecem desconfortos/aversivos ao longo do trajeto e não encontramos reforços tão facilmente, tendemos a abandonar o objetivo traçado” (ALVES, 2014). Estas pessoas mantém um padrão fixo de resposta de desistência frente aos desafios e mais que isso: apenas ao discriminar que atingir determinado objetivo requer de sua parte um desgaste energético tendem a estacionar e pouco fazer em prol de si mesmo. Vale resaltar que preguiça está associada a procrastinação frente a determinadas demandas a qual somos expostos. Uma criança com preguiça de estudar, dificilmente terá preguiça de ir ao parque de diversões, por exemplo. Não podemos dissociar, com isso, preguiça e motivação. São comportamentos que andam de mãos dadas, um contribuindo para o atraso, outro para o sucesso.

Para visualizarmos a preguiça como impedimento para agir, é válido considerar o entendimento a respeito de motivação. Uma pessoa que emite um padrão de comportamento de economia de energia, é a mesma pessoa que sente-se desmotivada para emitir outros comportamentos no ambiente. Conforme CHAUD (2013) “Não existem reforçadores em absoluto: um estímulo qualquer só será reforçador a partir de operações momentâneas que estabelecem aquela função, em especial, estados de privação. E sem reforçador, não há motivação. ”. Então se quisermos que determinada pessoa emita determinados comportamentos precisamos manejar as condições pelas quais está envolvida afim de alcançarmos o objetivo alvo. Mas o que é motivação?

O termo motivação é frequentemente utilizado por meio do senso comum para designar fenômenos internos que surgem como processo que impulsiona o indivíduo a realizar determinadas ações com definições aparentadas as de impulso, energia, força, motivo e vontade de maneira mentalista e meramente interpretaviva, pois a motivação identificada como um estado interno que causa uma ação está sujeita as mesmas críticas e limitações que sofre a utilização de outros eventos internos como causas, descritas por Skinner. Skinner trata motivação em termos de operações de privação/saciação e estimulação aversiva, enfatizando-as como variáveis ambientais controladoras do comportamento, já que configuram-se como eventos que estabelecem ou modulam o valor de um determinado estímulo como reforçador. Na linguagem comportamental, motivação é chamada de “operações ambientais que alteram a efetividade de algo como reforçador”. Então é comum que estejamos motivados para determinados comportamentos, outros não, da mesma forma que a preguiça. O comportamento de preguiça e/ou motivação aparecerão apenas frente a determinadas situações as quais o sujeito busca evitar, pela aversividade do dispêndio energético.

Os primeiros cientistas a falar no conceito operações estabelecedoras foram Keller e Schoenfeld (1950/1996), o qual estava relacionado ao conceito de impulso(drive), no sentido de podermos executar certas operações sobre o organismo, como por exemplo a privação de alimento ou água, assim essas operações tinham efeito sobre o comportamento que indicavam mudanças momentâneas do evento como reforçador e da mudança de frequência no comportamento que se tinha seguido por este evento reforçador. Esse evento reforçador pode ser positivo ou negativo. Será positivo quando o comportamento aumenta visando receber algo, será negativo quando o comportamento aumentar evitando aversivos. Mais tarde, Michael analisa o conceito de drive utilizado pelos cientistas e passa a compreender que o mesmo estava muito associado a ideias mentalistas, então passou a utilizar o termo operação estabelecedora (OE). Na área de comportamento verbal, o conceito de operações estabelecedoras vem sendo largamente usado no treinamento de mandos, operante verbal reforçado por uma consequência característica e sob controle funcional de condições relevantes de privação ou estimulação aversiva, portanto o mando especifica seu reforçamento. A própria definição de mando proposta por Skinner foi revista após a publicação do artigo de Michael (1988) para incluir o termo operação estabelecedora como principal variável de controle.

Mas sigamos falando sobre a (des) motivação das pessoas para alcançarem seus objetivos. Em análise do comportamento, compreende-se que todo comportamento só se mantém se estiver sendo reforçado, ou seja, todo comportamento que emitimos visa reforçadores (obter ganhos) ou se livrar de aversivos (coisas desagradáveis como ser mal visto no grupo). Talvez seja complicado à priori compreender que os princípios que regem o comportamento humano perpassam esses dois objetivos mas vejamos um exemplo: Um rapaz recentemente ingressou em seu primeiro emprego, entretanto tem faltado bastante com seus horários pois acorda atrasado e mal dá tempo de escovar os dentes para se dirigir ao trabalho. Este rapaz está com dificuldade em manter seu compromisso, pois se sente pouco motivado para tal. No caso exposto é possível analisar de duas maneiras a manutenção desse comportamento. Primeiro, ir ao trabalho é algo aversivo e sofrido principalmente quando o rapaz tem histórico de ter passado boa parte de sua vida jogando videogame enquanto seus pais arduamente trabalhavam para sustentar a família, então esse histórico favorece o descompromisso do rapaz sempre que estiver em situação em que terá que responsabilizar-se por gerir seus bens pois sempre teve pessoas que fizeram isso por ele. Segundo, ficar em casa é bastante reforçador pois o mesmo pode passar boa parte de seu tempo jogando videogame e comendo besteiras desfrutando do prazer dos reforçadores imediatos.

Se motivação está associada a operações ambientais que alteram o valor de algo como reforçador, para que o rapaz tenha o trabalho como algo reforçador, é necessário que primeiro ele perceba os ganhos que terá com isso. Nós só nos sentiremos motivados para algo quando percebemos que há ganhos a ser conquistado. Privar este rapaz das coisas que ele tem com facilidade através dos pais por exemplo, poderia ser uma boa iniciativa para que ele compreenda que deve se esforçar para obter reforçadores que garantam sua sobrevivência. Na vida, muitas vezes passamos por momentos em que nos sentimos desmotivados para agir no ambiente simplesmente por discriminarmos o gasto de energia necessário para alcançarmos o objetivo final. Acho que começarmos a compreender que precisamos ser mais ativos na obtenção de nossos bens seja um bom começo para mudarmos nossa percepção romântica dela e enxergarmos que de fato nós só conquistamos nossos objetivos com muito esforço e dedicação e isso requer dispêndio energético sim. O reforçamento explica como se dá os problemas motivacionais, às vezes o comportamento deixa de acontecer por conta de não ter tido o reforço necessário para a ocorrência do mesmo, o valor reforçador de uma consequência depende diretamente da operação estabelecedora. A privação de alimento é um exemplo de operação estabelecedora que durante certo tempo aumenta a efetividade de alimento como uma forma de reforço.

Se quisermos modificar o comportamento do outro, precisamos primeiro analisar qual seria o reforçador para que o mesmo se sinta motivado e se quisermos modificar a nós mesmos precisamos encontrar reforçadores que nos motivem a agir em prol de algo, mesmo estando em um ambiente onde pouco somos valorizados e os ganhos serão a longo prazo. Qualquer um de nós podemos ser cientistas do comportamento, desde que compreendamos que toda ação do organismo deverá ser analisada no ambiente ao qual ele está inserido. A escolha é clara: ou não fazemos nada e permitimos que um futuro miserável e provavelmente catastrófico nos alcance, ou usamos nosso conhecimento sobre o comportamento humano para criar um ambiente social no qual poderemos viver vidas produtivas e criativas, e fazemos isso sem pôr em risco as chances de que aqueles que se seguirão a nós serão capazes de fazer o mesmo (Skinner).

Diego Marcos Vieira da Silva
Psicólogo comportamental (CRP15/4764), formado pela Universidade Federal de Alagoas, com formações em psicopatologia em análise do comportamento e técnicas de memória e oratória. Com capacitação para avaliação psicológica e experiência em casos de transtornos psicológicos tanto na clínica quanto em instituições de saúde mental

Referências:
SKINNER, B. F. Ciência e comportamentohumano. Tradução:JoãoCarlos Todorov, Rodolfo Azzi. - 1 Ia ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ALVES, Gérson. Pessoas que reclamam, mas nada fazem. 2012.
CHAUD, Nicolau. A função da preguiça. 2013. Disponível em: < http://www.comportese.com/2013/03/a-funcao-da-preguica>
Luciana; Moreira , Marcio Borges ; Hanna , Elenice S. O capítulo de motivação.Ótica da análise do comportamento.(Orgs): Maria Martha Costa Hubner,Márcio Moreira Borges;editores da série Edwiges Ferreira de Mattos Silavares,Francisco Baptista Assumpção Junior,LéiaPriszkulnik. Rio deJaneiro:Guanabara Koogan,2012.