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Edro Tenório

Professor de História
Pesquisador do NEAB (Núcleo de estudos afro brasileiros) Uneal


Publicado em 24/07/2015 às 21:27

Negra

 



"A mulher na história do Brasil tem surgido recorrentemente sob a luz de estereótipos, dando-nos a enfadada ilusão de imobilidade. Auto-sacrificada, submissa sexual e materialmente e reclusa com rigor, à imagem da mulher de elite opõem-se a promiscuidade e a lascívia da mulher de classe subalterna, pivô da miscigenação e das relações inter-étnicas que justificaram por tanto tempo a falsa cordialidade entre colonizadores e colonos”[1].


Sendo a maioria da população brasileira, com aproximadamente 53% do total dos habitantes do país (IBGE, 2015), o que equivale a mais de 100 milhões de pessoas. A população negra ainda combate diariamente contra o racismo, discriminação e desigualdades que a sociedade instituiu ao longo dos séculos no nosso país. Em se tratando do gênero, o abismo é ainda maior. Apesar da baixa representatividade de Mulheres Negras na política e em cargos de Poder e de decisão, cada ascensão deve ser comemorada como reconhecimento. Como é o caso da Ministra Nilma Lino Gomes da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República.
Em uma sociedade voltada única e exclusivamente ao ganho do lucro e onde tudo “pode” e deve ser comercializado, vendido, trocado ou mercantilizado, não é de se espantar que a esmagadora maioria da população se encontre submissa a um poder social, econômico e ideológico que vise a sua decadência. Onde a mulher esta alojada como “objeto” de venda de imagem e de interesse sexual do homem, especialmente do homem branco dominante de uma classe que não coincidentemente imperou e se fez dominador desde os primeiros dias do nosso processo colonizador.
Herdeiro de uma psicopatia colonial, o homem enxerga a mulher como um ser frágil e de fácil dominação, que estaria alocada em uma posição abaixo da sua e que pode e deve ser desejada e obtida para seus fins mais libidinosos. Em outros tempos, no período colonial, quando a mulher negra escrava era submetida a todos os caprichos de seus senhores e sucessivamente a sua prole masculina, onde a submissão sexual era tida como um ato normal para a iniciação sexual da elite jovem do momento, tendo como costume:
 
Nenhuma casa-grande do tempo da escravidão quis para si a glória de conservar filhos maricas ou donzelões. O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com sua docilidade de escrava, abrindo as pernas ao primeiro desejo do senhor - moço. Desejo não, ordem.[2]
 
Diante de uma falsa moral, social e religiosa, o senhor de escravo mantinha a sua mulher branca em um altar onde só poderia ser retirada quando a necessidade de fazer mais herdeiros brancos se fazia presente. Diferente do tratamento aplicado a negra escrava que devido ao “calor” dos trópicos “despertava” em seu amo, feitor ou senhor uma verdadeira transgressão dos desejos sexuais.
Hoje o que podemos notar é que esse mau, este desejo repulsivo, nojento e sem escrúpulo ainda é atribuída à mulher negra em nossa sociedade, onde a mesma pode ser exposta, tocada, cheirada sem nenhum tipo de pudor moral. Isso se faz notório por exemplo em nossa mídia, o último grande caso de repercussão nacional foi o da propaganda da cervejaria Schin (Devassa) no qual atribuía o corpo da mulher negra como objeto sexual, tendo como slogan a frase "É pelo corpo que se conhece a verdadeira negra". Nesta sociedade de consumo, a publicidade deveria ser um indicativo de padrões éticos, que deveriam ser adotados pelas empresas para eventual oferta de seus produtos e serviços. Não se pode admitir que para vender um produto sejam utilizadas mensagens discriminatórias, que reforçam estereótipos de gênero e étnico-raciais e contribuem para aprofundar desigualdades.
Não devemos esquecer que a mulher negra sofre duplamente na pele a dura realidade de ser mulher em uma sociedade machista e ser negra em uma sociedade racista. O processo de coisificação, de desumanização das mulheres em nossa sociedade é latente, não podemos nos calar diante de tal instrumento de destituição dos valores, sentimentos e afetividade que a mulher e principalmente a mulher negra passa, ela que nos serviu como base de origem do povo brasileiro, sendo trabalhadora, ama-de-leite e pós abolição estando a frente de suas famílias já que os homens negros eram severamente discriminados.
Fica aqui a minha indignação diante de tal imagem que a mídia insiste em vender e a sociedade persiste em comprar. E minha singela homenagem ao dia da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha.
 
“A igreja diz: o corpo é uma culpa. A Ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. E o corpo diz: eu sou uma festa”. Eduardo Galeano.


[1] Mary Del Priore – História da Mulher no Brasil
[2] Gilberto Freyre – Casa Grande e Senzala. 


Publicado em 14/06/2015 às 17:29

O Xangô Alagoano: um misto de fé e resistência

 

           Pensar o Xangô é sempre um ato de reverência e de inquietação, no primeiro caso porque constitui a expressão maior de uma cultura que resistiu bravamente a infame instituição que foi a escravidão negra no Brasil. No segundo porque é espantoso pensar que diante das condições históricas esse povo arrancado de sua terra, submetidos as forças mais impiedosas de desumanidades conseguem se (re) territorializar e tornar o Xangô
[1] símbolo de uma cultura que potencializa, socialmente, a expectativa de cidadania.

É provocante compreender a dimensão do Sagrado, observar como um povo se reconstrói ao som dos batuques de mãos cálidas, mas fortes. A experiência dos terreiros desconstrói tudo aquilo que nossa ciência imaginava o território, a terra. O lugar não é mais ponto fixo do que qual não se pode ultrapassar. Não precisamos está na África para ser África. Ousamos dizer: o povo negro é sempre uma provocação, é tudo aquilo que não desce, que engasga, que rasga porque remodela a cultura e os limites da concepção ocidental de tempo, de espaço, de natureza, de moral, de ética. É diante do sagrado que compreendemos a vacuidade do processo de ocidentalização, entendemos que temos caminhado por areia movediça prestes a nos tragar. E que só ali diante do santo (orixá)[2] conseguimos o contato com a natureza com aquilo que fundamentalmente nos torna humanos. Esquecemos o fetichismo da mercadoria, porque não nos interessa dominar, no terreiro somos frágeis, somos fortes, somos sagrados, somos verdadeiramente humanos. O universo que envolve o Xangô é permeado de complexidade e de sentidos que só podem ser entendidos dentro de si mesmo. Cada ação desenvolvida, cada coisa feita se explica e se significa àqueles que são ensinados e que vivem na/para aquele meio.
Para se ter uma ideia da forte influência que as religiões de presença africana exerceram e exercem em nosso estado, o escritor, e quiçá, maior autor sobre Alagoas Dirceu Lindoso irá afirmar que o “século XX inicia-se apenas em 1912, com a quebra dos terreiros de Maceió”. Fenômeno este que ocorreu em fevereiro de 1912, durante o qual foram invadidas e depredadas dezenas de casas religiosas de matriz africana na cidade de Maceió, com reflexos no interior de Alagoas (RAFAEL, 2012). Chamam atenção os enormes prejuízos que tal episódio acarretou na formação da identidade alagoana, com a retração das expressões culturais negras, quando muito reconhecidas enquanto folclore e, portanto, negadas na sua dinamicidade e vitalidade. Exemplo disto, os maracatus, que até o início do século XX abundavam pelas ruas alagoanas, praticamente desapareceram de Alagoas e da memória dos alagoanos. Alagoas passou por uma formação tipicamente negra, tendo este marcado suas origens e costumes. Não podemos esquecer da monumental Palmares, essa Tróia Negra descrita por Décio Freitas (1984) com suas táticas de guerra do mato, destituindo o invasor holandês de toda e qualquer forma de penetração em suas áreas. Neste patamar Alagoas vive, hoje, esse misto de ascensão Afrorreligiosa onde depois de um século do episódio que marcou a cultura negra alagoana, o povo de santo pôde em fim bater no peito e gritar para os quatros cantos deste estado que o meu Xangô é Rezado Alto.


[1] Termo utilizado em Alagoas e Pernambuco, como referência no brasil para designar as religiões de matriz africana, a designação mais aceita é candomblé. Podemos observar que em determinados Estados esse nome pode variar para Xangô, tambor-de-mina, batuque, macumba etc.
[2] “Para cada orixá um toque, uma dança, uma saudação, uma história contada, cores, comida, objetos de culto próprios. Cada orixá expressa uma força da natureza ou ancestral divinizado, com suas qualidades e poderes, parte do Axé (energia vital) presente em todas as coisas, animadas e inanimadas” (SANTOS, 2014, p. 28).