27/01/2017 06:34

O QUE É UMA CRÔNICA

 

Acerca de 40 anos escrevo crônicas em jornais e revistas. São mais de mil textos publicados, ao longo desses anos. Eu teria feito mais sucesso se estivesse escrevendo romances, contos ou poesias. Mas, não era a nossa pretensão. Resolvi escrever crônicas, porque nessa forma de estilo literário o narrador e o autor se confundem numa só pessoa. Na crônica deve-se refletir algo da realidade, do contexto atual. E toda crônica que se preza encerra uma opinião pessoal, literária ou científica. Identificada e datada com fatos do cotidiano, ela se diferencia do que se costuma chamar de literatura. Daí porque não se vê um bom livro de crônicas reconhecido pela crítica literária.

O cronista é o primo pobre da literatura. Não tem compromisso com os temas abordados. Ao mesmo tempo em que é livre para escrever seus artigos, é também escravo deles, porque não há um rigor a ser mantido. A crônica tem vida curta nas folhas dos jornais e das revistas. Os prêmios literários, com seus louros e suas glórias, vão sempre para os romancistas, os poetas e os contistas. Machado de Assis e Graciliano Ramos experimentaram essa verdade cruel. Não ficaram famosos por suas crônicas, publicadas em jornais e em revistas. Tão somente foram reconhecidos pela crítica mundial por seus romances e por seus contos editados. Porém, no Brasil se conhece famosos cronistas que, até certo ponto, são disputados pela mídia digital e impressa. Mas, pasmem, eles não são valorizados pelo gênero literário que abraçaram. Muito pelo contrário. São reconhecidos pela “boa fama” do escritor, por se tratar de anarquista, bem-humorado, gozador ou coisa parecida. Nesse caso, não é a crônica em si que atrai o leitor, mas a notoriedade do autor da crônica.

Entretanto, as crônicas continuam invadindo os jornais, as revistas, os “blogs”, entre outros veículos de comunicação social. Muitas jornalistas se tornaram artistas virtuais, com o uso de crônicas sobre a realidade do cotidiano, apimentando fatos ocorridos e alfinetando pessoas notáveis, numa demonstração de verdadeiros gladiadores verbais nas arenas da imprensa escrita, radiofônica, televisada e digital.

Mesmo fazendo parte de duas Academias de Letras, percebo a discriminação contra o cronista. Em tempo algum constatei a realização de Concursos ou de Torneios Literários para agraciar e premiar as melhores crônicas ou os melhores cronistas. E isso não acontece apenas em território Alagoano. O preconceito se estende até mesmo na Academia Brasileira de Letras. Os literatos brasileiros só valorizam o romance, o conto e a poesia.

Alguns cronistas ousados já selecionaram crônicas escritas para jornais, garimpando coleções de Diários e Semanários, na busca de condensar temas importantes da vida social, com o fim de fazer ver à crítica literária de que a crônica também é um gênero da literatura, merecedora de prêmios e elogios.

Por outro lado, entendo que a melhor crônica ainda é aquela que se perde no tempo, no espaço da geografia desconhecida, onde o leitor não conhece a realidade de então, nem o lugar onde tudo aquilo se passou, mas se delicia como uso das palavras ou com o trocadilho das frases. Aliás, jornal velho, mas não lido, é muito mais interessante do que jornal do dia-a-dia. Os fatos passados são mais jocosos e curiosos ao leitor. Aliás, todos pensam que já conhecem a realidade atual de “cabo a rabo”, mas o passado ainda não!...

À primeira vista é que os novos “escritores” e “blogueiros” que escrevem crônicas na imprensa querem parecer simples, mas originais, com talento e criatividade, para lidar com assuntos do cotidiano sem torná-los corriqueiros. Essa é uma fórmula de manter a assiduidade dos leitores, já que tudo é consumo e tem que dá “Ibope”... Pensemos nisso! Por hoje é só.