05/02/2019 06:32

A MORTE DE SÓSTENES GAIA

 

Faleceu na semana próxima passada o promotor de Justiça, Dr. Sóstenes de Araújo Gaia, que nasceu em Palmeira dos Índios no final dos anos 40 e que se formou em Engenheiro Tecnológico em Cana de Açúcar, mas que também estudou Medicina em 1973, optando pelo Curso Superior de Direito, de onde nasceu sua profissão definitiva, sendo aprovado por concurso público para a função pública de Promotor de Justiça, na administração do governador José Tavares, em 1982, tendo atuado em diversas comarcas alagoanas, destacando-se Atalaia onde terminou seus dias na terra como autoridade judiciária. Um homem humilde, compassivo, simpático e emotivo. Um ser desprendido das coisas materiais, mas sensível e intuitivo. Como colega e amigo, bastante receptivo.

Talentoso e criativo desenvolveu atividades artísticas para acompanhar o ritmo dos seus amigos e familiares, por isso era tecladista, violonista, cantor e vaqueiro (participante de corrida de mourão e derrubada de boi). Mas bem que poderia ter isso também ator, dançarino, escritor e poeta. E até certo ponto ele também desenvolvia esses talentos, porque tinha bom gosto pela vida. Tinha o caráter de educador, de formador de opinião, essa vocação veio dos seus estudos primários no Colégio Pio XII, em Palmeira dos Índios, nos anos 60/70.

Aos 51 anos de idade foi submetido a um transplante de fígado. Por 19 anos conviveu com esse procedimento cirúrgico que alterou o seu metabolismo, sem se abalar, mantendo-se atuante em suas atividades profissionais e artísticas, com perfeita harmonia. Até certo ponto foi negligente com a dieta médica, porque sua mente acumulava ideias e prazeres próprios da sua natureza, que não poderiam ser eliminados, radicalmente, por força da sua tendência romântica de ver e de viver a vida. Um homem apaixonado pela família, pai de sete filhos e amigo de inúmeros colegas de trabalho, de artes e de esporte de vaquejada.

Quanto à sua morte, traído pela ineficiência do fígado, ele tinha consciência que seria um dia inevitável, mas não se assustava com ela, porque era um homem crente na vida eterna. Ele tinha convicção da eternidade da alma e da existência de Deus, com seu amor e caridade. A morte não lhe perturbava, porque a vida em si deveria continuar eternamente a despeito de tudo. Aliás, a Morte só causa dor e aflição aos que permanecem na Terra, porque não podem mais se comunicar com as pessoas que passaram para outra dimensão espiritual. Na opinião de Sóstenes a morte não era causa de punição ou de castigo, mas de evolução perpétua no âmago da Consciência Eterna. Para Sóstenes, parafraseando o psicanalista Sigmund Freud, “o inconsciente desconhece a existência da morte”. Embora ela seja sempre o mistério dos mistérios, o portal entre o sagrado e o profano.

Ora, o nascimento e a morte são as marcas do começo e do fim. Quem não teme a morte possui a convicção de que ela não leva a nada, mas dá acesso a outra forma de vida no plano espiritual. Pouco importando se acreditamos em ressurreição ou encarnação da alma. Durante seu martírio de 25 dias no leito do Hospital, em coma induzido, a angústia de preocupação de Sóstenes foi alterada para a contemplação da evolução espiritual. Ele soube viver o momento presente, até mesmo no instante de sua transição para a Jerusalém Celeste. Sóstenes não teve o sentido da solidão, sentimento próprio dos moribundos, porque sua esposa e seus filhos estavam presentes em oração, invocando a paz e graça do Pai Eterno. Com efeito, foram muitos os momentos de meditação, de reflexão e de comunhão dos familiares e dos amigos com o enfermo Sóstenes Gaia.

O carinho da família e a afeição dos amigos repercutiram nesse momento crucial. Sua esposa se colocou na cabeceira de Sóstenes para lhe tranquilizar e lhe confortar. Graças a essa atitude, podemos crer que Sóstenes foi ajudado a cruzar o umbral do além que nos separa das duas vidas que temos - material e espiritual. Quanto à sua esposa, Ângela Maria Cavalcante Gaia, companheira de longos anos e de todas as horas, resta-me uma palavra de conforto. E faço uso da frase derradeira de Santo Agostinho no leito de morte, para expressar meu sentimento: “Eu vou para o Pai, mas não esquecerei aqueles que amei na Terra”... Pensemos nisso! Por hoje é só.