22/09/2019 06:20

GRACILIANO RAMOS EM PALMEIRA DOS ÍNDIOS

 

A mais completa biografia de Graciliano Ramos de Oliveira foi publicada originalmente em 1971, pelo jornalista Valdemar de Souza Lima, que escrevia crítica literária, onde ele retrata, em detalhes, os principais fatos vividos pelo escritor em Palmeira dos Índios, cidade alagoana onde o escritor casou, teve filhos e da qual foi prefeito. Alagoano, como Graciliano, Valdemar de Souza Lima possuidor de um olhar profundamente crítico em relação do homem e da sociedade, conviveu com o escritor e, a partir dessa convivência, desde muito cedo, pôde conhecer a visão de mundo do autor de Vidas Secas.

Graciliano Ramos que foi professor, jornalista e político, também foi prefeito do município de Palmeira dos Índios nos idos de 1930, mas ele era natural de Quebrangulo, outro município do interior alagoano. Em vida se envolveu com ensino, jornalismo, ideologia socialista, literatura e política, cujas convicções sociológicas inspiraram suas obras de forte conteúdo social e político. Dentre suas obras literárias a mais famosa é Vidas Secas, publicada em 1938, que reproduz a dura vida dos retirantes nordestinos castigados e humilhados pela seca. O Mestre Graça, como era conhecido, era seco e árido como a terra sertaneja, mas também era consciente, cordial e compreensivo quanto se tratava de problemas de interesse público. Ele era um homem que aceitava o diálogo e sabia compreender a crítica construtiva. Essa visão de homem público revelava seu espírito aberto e conciliador. Como político ele tinha um espírito público, pois, quando voltou em 1932 para Palmeira dos Índios, após deixar sua vida na capital de Maceió, abriu uma Escola na Sacristia da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, a pedido do pároco Padre Francisco Xavier de Macedo. Nesse período escreveu seu romance São Bernardo, utilizando-se de seus conhecimentos da vida rural em Viçosa.

Quando administrou o município de Palmeira dos Índios soube muito bem aplicar as finanças públicas e a controlar seus gastos na Prefeitura Municipal. Fez aprovar, no Conselho Municipal (Câmara de Vereadores), o Código de Posturas do Município, regulamentando direitos e deveres dos cidadãos e do poder público. “Eis alguns: animais não poderiam andar soltos nas ruas; os comerciantes eram impedidos de açambarcar mercadorias de primeira necessidade em época de carestia; os farmacêuticos, proibidos de vender determinados remédios sem receita médica; os hoteleiros, obrigados a ter em ordem o livro de hóspedes e a afixar a tabela de preços em locais visíveis; o comércio não poderia funcionar além das 21 horas nem abrir aos feriados e fins de semana; açougueiros não poderiam vender carne de rês doente e teriam de passar a recolher impostos”.

Foram seus relatórios de prestação de contas anuais enviados ao Governador do Estado, Álvaro Paes que fez o Prefeito Graciliano Ramos ficar conhecido. A verba nos cofres municipais mal dava para cobrir a folha de pagamento dos servidores públicos, por isso, ele cobrou os impostos com mais rigor e cancelou as isenções fiscais.

Nos seus relatórios de prestações de contas que enviou, em janeiro de 1929 e de 1930, ao Governador de Alagoas, Álvaro Paes, relatou: “Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo à extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores”. Em certo momento, escreveu à esposa, Heloísa de Medeiros Ramos: “Para os cargos de administração municipal escolhem de preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou gatuno, que tenho na cabeça uns parafusos de menos, mas não sou imbecil, não dou para o ofício e qualquer dia renuncio”.

Outro grande romance de Graciliano Ramos é “Memórias do Cárcere”, publicado após sua morte, em dois volumes, onde ele revela sua amarga experiência no período em que esteve preso no Rio de Janeiro, durante a ditadura de Getúlio Vargas, em 1935, acusado de subversão por ter sido filiado ao Partido Comunista... Pensemos nisso! Por hoje é só.