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Geraldo Magela Pirauá

- Escritor


Publicado em 01/08/2022 às 18:03

OS HUMANOS

Luiz Gama, um dos quatro maiores abolicionistas, ao lado de Joaquim Nabuco, Jose do Patrocínio, e André Rebouças, em um de seus escritos, afirmou: “ em nós, até a cor é um defeito, um vicio imperdoável de origem, o estigma de um crime.”

Acabo de ler, o último livro da trilogia de Laurentino Gomes, Escravidão. Trata o assunto da Independência à Lei Aurea. Livro duro, sofrido, realista. Nos leva à desumana realidade de tema tão cruel.

O autor, em minuciosa pesquisa, em livro de 536 páginas, nos exibe, dentro de um realismo inquietante, um Império chefiado por um homem culto, D. Pedro II, refém da oligarquia rural, permitindo, por omissão, os grilhões, as chibatadas, o tráfico do homem negro, tão somente pela cor da pele.

Eram os seres humanos, arrancados de sua mãe Africa, colocados seminus, presos a argolas de ferro, em embarcações insalubres, e trazidos, como mercadorias, para serem negociados em diversos locais do Brasil. O mais terrível, também, que aqui eram separados de suas próprias famílias e vendidos como mercadorias. Muitos morriam na travessias e eram jogados no mar.

O livro, bem documentado e pesquisado, como foram os outros, nos inquieta, nos faz doer, nos faz refletir de um passado, ainda tão recente, onde o Brasil, durante três séculos e meio, usou da chibata e dos grilhões, para o enriquecimento de poucos, criando, à custa de muito suor e sofrimento, através do trabalho escravo, uma cumplicidade inominável, entre a Monarquia e os senhores rurais, concedendo-lhes honrarias e benesses.

Mesmo assim, o ser humano de ontem, explorando o semelhante, aprisionando-o, escravizando-o, chicoteando-o, continua, nos tempos atuais, segundo o modelo vigente, ficando muito a desejar no trato com os afrodescendentes. Segundo Laurentino “.....a população afrodescendente brasileira foi abandonada à própria sorte, marginalizada, explorada sob formas disfarçadas de trabalho forçado e mal remunerado.....Sem acesso à moradia, educação, saúde, renda e condições dignas de vida.”

O ser humano, em sua ganância por poder e dinheiro, é capaz de condutas as mais inomináveis.

O ser humano, por outro lado, também é capaz de gestos os mais inconcebíveis de generosidade e altruísmo. A história também registra.

As paixões os conduzem, refiro-me aos humanos, aos gestos da grandeza ou de hediondez. A passionalidade, intrínseca ao humano, nos revela para o bem ou mal.

O sofrer humano, parece um fim em si mesmo. A escravidão hoje é moderna, com o forte teor discriminatório.

O poderio econômico dita as regras. As guerras, hoje ainda tão em uso, afirmam o poderio das nações.

O ser humano, em que pese tanta tecnologia, tanto avanço científico, tanta produção de produtos, nunca sofreu tanto, quer do ponto de vista material, quer do ponto de vista psíquico. Quando será, pergunto, que a humanidade encontrara paz? Quando será que o Brasil será socialmente justo? Quando será que o ser humano deixará de discriminar o outro? Quando será? Por enquanto a religião e a arte nos alivia de tanta dor. A religião pelo transcendental. A arte pela compreensão do estético. 


Publicado em 07/05/2022 às 07:10

VELHICE

Avelhice, para mim, é bênção; é concluir da vida; é olhar o retrovisor, ver o passado com erros e acertos, dor e alegria, felicidade e tristeza. A velhice, neste novo começar, é contemplação, é mansuetude, é calma e intros- pecção.

Estar velho é alegria de ter filhos adultos, com quem me aconselho. É ter netas, em quem recomeço. É sentir a alegria in- contida da família, de compreendê-la e de compartilhar a alegria e o sofrimento.

Estar velho, com lucidez e sensibilidade, é extremado con- forto. Busco, no entardecer da vida, compreender a complexida- de do existir humano. Compreender a dor, em suas múltiplas manifestações, quer afetivas, quer físicas, entendendo-a como aprimoramento do ser.

Estar velho é compreender, como processo de aprendiza- do, o ódio que separa, que segrega, que animaliza, entendendo-o como oportunidade para o exercício do perdão em sua dimensão infinita.

A sabedoria da velhice está na compreensão do fim e na aceitação de Deus, sem questionamentos.

A sabedoria da velhice é amar sem restrições; é perdoar sem medidas.

Compreender o fim, na finitude do existir, é sentimento de sabedoria. No acaso da vida, passamos a compreender a essência da vida, em sua dimensão de energia e espírito.

Tudo, na fase da velhice, passa a ter sentido. A dor nos leva à compreensão da fragilidade humana; a ingratidão, o valor imensurável do perdão; o orgulho nos faz entender a pobreza do espírito; a riqueza, farta e opulenta, nos faz refletir sobre a fome e a miséria, revelando a nossa pequenez ou a altivez.

O fim da vida, para o velho que aprendeu na dor, na ingra- tidão e na pobreza, o fez tão sábio que agradece aos que o fize- ram sofrer, aos ingratos e à escassez de recursos, pela serenidade encontrada.

Os cargos ocupados são oportunidades de espargir o bem.

Encontra, na amizade, o elo que o liga do humano ao di- vino.

No encontro com o jovem, o velho que ainda é aprendiz do existir, ouve com atenção e respeito e fala com a serena firmeza de que nada é absolutamente verdadeiro.

Aprendi, ainda, com sofrimento e dor, o valor do amor, da amizade e da família.

Aprendi, também, que o amor aos filhos não tem dimen- são, nem finitude.

Aprendi, ainda, que não se consegue, tal Charles Chaplin nos ensinou, agradar a todos, por mais que se esforce.

Aprendi que dor e alegria fazem parte do existir.

Aprendi que vale lutar por uma boa causa, mesmo que muitos não acreditem.

Aprendi que o diálogo é a melhor forma de enfrentar con- flitos, e que tudo ao seu tempo será resolvido.

Aprendi que odiar não vale a pena e que o amor, por mais que o expliquemos, não vamos explicá-lo. Aprendi que sorrir, amar, perdoar e compreender nunca farão mal.

Aprendi que ser caridoso é a maior virtude do homem.

Aprendi e continuo aprendendo que viver é uma arte, arte do eterno aprendiz. 


Publicado em 26/04/2022 às 08:23

VISÃO HUMANA

Sempre haverá, assim creio, um mundo injusto e desigual. O que me inquieta, no entanto, é se preciso ser tão injusto e desigual. Sei, e tenho convicção plena, que somos, individualmente falando, muito desiguais, no entanto, o que me assusta, são as desigualdades sociais que nos desumanizam.

Os países, em que pese o pleno desenvolvimento na era do alvorecer da quarta revolução industrial, são muito desiguais. Não podemos comparar, exceto para observar as distâncias sociais, os da Europa Ocidental e os Africanos . O fosso social existente no mundo me assusta. No livro, Sem Data Venia, de Luís Roberto Barroso, extraí informações alarmantes: 836 milhões de pessoas no mundo vivem em extrema pobreza. 10% das pessoas mais ricas do mundo retém 82% da riqueza global. Deste mesmo grupo referido 1%. com riqueza acima de um milhão de dólares possuía 44% da riqueza. O Brasil é o sétimo mais desigual do mundo à frente apenas de alguns pais da África. Dos 28 países mais pobres do mundo 27 ficam na África Subsaariana.

Bauman, em seu festejado livro Modernidade Líquida, afirma: “ O segredo de ser humano permanece tão impenetrável como no começo da jornada”.

Na sociedade líquida, difusa, fluida, de que fala Bauman(1925/2017), o poder “navega para longe da rua e do mercado, das assembleias e do parlamentos, dos governos locais e nacionais, para a e extraterritorialidade das redes sociais”.

As redes sociais, portanto, são a nova ágora, as novas praças de discussões , onde surgem os debates sem soluções, imperando, sobretudo, não a cidadania, que seria a busca de soluções em prol do conjunto social, mas o individualismo sem freios, sem amarras, exalando o sofrimento individual, a revolta e a angústia da existência inerente em cada um de nós.

Buscamos, e sempre será assim, o governo perfeito, na grande utopia existencial; almejamos, também, um mundo de paz, cheio de fraternidade, grande ilusão; desejamos, nesta existência provisória, a erradicação da miséria, meta que entendo possível, em horizonte que não consigo visualizar; idealizamos, também, um mundo cheio de amor, desconhecendo, neste caso, a natureza intrínseca do ser humano.

Amor e ódio sempre permanecerão. O inconformismo faz parte do indivíduo. A busca do ser feliz sempre será meta. O transgredir convenções, regras, e convivência, sempre coexistirão. A arte, como afirma Nietzsche, sempre trará um momento de quietude ao ser humano.

A tecnologia, na amplitude em que se apresenta, entrará na fase da quarta revolução industrial, atingindo patamares impressionantes. O ser humano, em que pese tudo isto, continuará com os seus dramas existenciais não resolvidos. O existir humano é um mistério que transcende a própria compreensão humana.

Nas religiões, envolvendo todas as crenças, sempre haverá conflitos. O ser humano, como disse o filósofo, é um fim em si mesmo.

O sofrimento, a ganância, a vaidade, nunca desaparecerão da natureza humana. Não há, e alguns pensadores pensam assim, desenvolvimento civilizatório que produza um mundo em plena paz, quer no sentido individual, quer coletivo. Assim sempre foi e sempre será. 


Publicado em 19/04/2022 às 06:19

MANGUABA

Mais uma vez interrompi a leitura de Luís Roberto Barroso do livro Sem data venia, com o sub título Um olhar sobre o Brasil e o mundo, recentemente lançado para, em leitura contínua e prazeirosa, ler Manguaba, já em 2a, edição, romance de Carlito Lima, esse alagoano que respira e se alimenta de cultura.

Encontrei Carlito, vibrante e expedito em seus oitenta anos, na Flipontal. Fiz questão, na oportunidade, após uma rápida fala, de lhe ofertar, com o respeito que sempre lhe devotei, meu livro de contos e crônica: Debate Inútil. Afirmei, naquele momento, que era o primeiro livro, após a impressão, a ser exposto e entregue para o leitor.

Recebi de Carlito os seus romances, formando uma trilogia, Manguaba e Mundaú, faltando, tão somente, o terceiro.

Fiquei impressionado com Manguaba, que li em quatro dias. Os personagens, sejam mulheres ou homens, são humanamente sensíveis e, dentro de um realismo exuberante, rompem barreiras, transgridem as contenções sociais, demonstrando, principalmente, através das mulheres, decisões corajosas, sem perder o encanto e a magia.

Rosa, esposa de Pablo Márquez, rompe com o noivo arranjado em acordo de família, para unir-se, em atitude de coragem, ao primo Pablo, provocando uma reviravolta na vida deste, que obrigado a sair da Colômbia, aportou em Maceió, apenas com sua filha Izabel.

A saga da família de Pablo, com sua mãe Carmem e Izabel, em plagas alagoanas, é fantástica.

A família cresce com o casamento de Izabel com Dr. Bernardo, nascendo daí três filhos que, vivendo na Maceió dos anos cinquenta, tendo como cenário a praia da avenida. Crescem rompendo barreiras sociais, sendo pessoas humanamente sensíveis e de atitudes corajosas.

Carlito, como bom ficcionista, torna cada personagem fascinante. Eles são boêmios, transgressores sociais, e seres humanos que buscam, na intensidade da vida, vivê-la livre de amarras.

Leonor, mulher linda, avançada para a época, vive as aventuras sem recriminações, como se faz nos dias atuais.

Carlito, em linguagem de um puro realismo, descreve as cenas íntimas e humanas, em linguagem sem rodeios, sem nenhum falso moralismo. Também, nos traz a história viva dos acontecimentos que criaram a ditadura de 64.

Carlito nos embevece com a história de Andreza, neta de Pablo, e seu amor por Antônio, preto e pobre, sendo incrível, na narração que o autor faz, quando essa mulher, em linguagem direta, conta tudo à família reunida, sem qualquer subterfúgio, afirma que quer casar e se encontra grávida.

Seria Carlito, não sei, o personagem Mário, tenente do exército, e carcereiro dos presos políticos de Recife? Esse personagem, boêmio e generoso, oficial do exército, pela bondade e ação, se assemelha ao próprio autor.

Terminado o livro de Carlito voltei ao de Luís Roberto Barroso, alternando com Flor de Gume, de Monique Malcher, ganhadora do Jabuti, na categoria conto, de 2021. Na abertura do livro de Monique fiquei maravilhado com a seguinte dedicatória: “para as mulheres que sobrevivem com foice, palavras e magia. Para a menina que fui e mataram tantas vezes. Para a flor que sangra na noite de lua cheia” . Tão bom quanto o livro de Carlito, Manguaba. 


Publicado em 04/04/2022 às 10:58

Entrevista com Macunaíma


Havia terminado de ler o Idiota, de Dostoiévski, autor russo, clássico da literatura universal. Já me aguardava, de Luís Roberto Barroso, lançado em 2020, Sem Data Vênia - Um Olhar Sobre o Brasil e o Mundo, livro que lia, revezando com o de Eduardo Gianneti, O Anel de Giges, também de 2020, publicado pela Companhia das Letras. Eis que me chega, mandado buscar buscar na casa Publicadora São Paulo, Entrevista com Macunaíma- A Lenda Além do Caráter, de Renato Pirauá.

Parei a leitura dos livros que já me absorviam, e antes da ir para a feira literária do Pontal da Barra, aqui em Maceió, fiz uma viagem no tempo, lendo o extraordinário romance de Renato Pirauá.

O autor, morador de Santos, em São Paulo, onde é jornalista, comunicador social, formado em Letras e Ciências Sociais, é de uma criatividade impressionante, em linguagem envolvente, emocionante e prazeirosa, nos brinda com um personagem, “Seu” Mair, ou Macunaíma, morador do sertão sergipano.

Fernando, também personagem do livro e jornalista famoso, deslocou-se àquele tórrido sertão, em busca de colher informações para uma ampla reportagem sobre o cangaceiro Lampião. “Seu” Mair seria a principal fonte.

Homem fragilizado pelo tempo e com história confusa, aquele sertanejo trouxe à lume, a narrativa de Macunaína, e que havia se tornado íntimo de Mário de Andrade, autor modernista. Portanto, Mário de Andrade, em ouvindo “seu” Mair, que se dizia Macunaína, teria criado seu festejado opúsculo, baseado, tão somente, na narrativa do sertanejo, que sequer sabia que havia sido publicada.

O velho Macunaína ou Mair, indolente, de causos mirabolantes e de histórias incríveis, narrou ao reporte seu encontro com Lampião, suas bravuras, e como se deu o final do rei do cangaço e como ele Lampião fora traído. ‘Seu’ Mair ou Macunaína, criação literária de Renato Pirauá, existem por esse Brasil afora, feitos, também, de anti-heróis, com estórias que enriquecem o folclore, mas que é bom ouvi-las, nesta tradição oral.

O livro, de tão bom, me fez lembrar de Rosana Mont’Alverne, excelente contadora de história, da editora Aletria, de Minas Gerais. Ouvir uma história contada por Rosana é um indescritível prazer. A ouvi-la na feira literária do Pontal da Barra, em Maceió, em interpretação fantástica, da história da mulher do rei, triste e feia, e a mulher do pobre, alegre e bonita, fiquei em êxtase.

Também me fez recordar dos bons anos que vivi no sertão das Alagoas, como Promotor de Justiça, idos 1978, onde mantive amizade com soldados que integraram a volante que perseguiu Lampião. Recordei-me, também, da visita que fiz na grota de Angicos, onde o rei do cangaço foi caçado e morto, junto com seu bando. Só não me falaram no cangaceiro Tijolo, o Mair ou Macunaíma, esse sim, o herói sem caráter.

O livro é muito bom. Lembra os velhos sertanejos que, deslocados no tempo, revivem o passado na lembrança poética dos feitos realizadas. São criativos nas histórias contadas. Histórias de amor e luta. Não falam da miséria, falam do heroísmo. É livro para se rever de vez em quando. 


Publicado em 28/03/2022 às 09:02

O AR QUE ME FALTA

Li, quase de um só fôlego, o livro de Luís Schwarcz, a obra intitulada O Ar que me falta. O autor, um dos fundadores da editora Cia das Letras, narra, neste livro, de forma corajosa e extremamente lúcida, a saga de sua família. Húngaros, de origem judaica, os horrores vividos durante a guerra, e a separação de seu avô Laio, quando conduzido ao campo de concentração pelos nazistas, de seu pai André.

Fosse um romance, que não o é, seria densamente dramático. Luís, em livro de memória bem explícita , narra como a família chegou ao Brasil, as dificuldades do idioma, o casamento de seu pai, o seu nascimento no Brasil, a descoberta da bipolaridade e a depressão de que foi cometido.

Conta, também, o relacionamento com os avós, e como foi a convivência de seus pais, em casamento com alguns problemas.

Filho único, e cercado de alguns mimos, recebeu atenção de seu avô materno, que não tolerava o genro, e buscava compreender seu pai que, traumatizado pelos horrores da guerra, carregava a dor de não ter Laios, seu avô paterno,em sacrifício da própria existência, ter lhe salvado. O escritor Luís, tem pelo avô paterno, que não conheceu, vítima de uma guerra insana, recordações de amor e heroísmo.

O que mais me encantou no livro de Luís Schwarcz é a história de sua bipolaridade e a depressão. Não se poupa, conta em detalhes. Seu casamento, com a mulher que o compreende, constitui uma âncora indispensável.

Narra em detalhes sua doença. Nada esconde. Como a enfrenta e a enfrentou. As dificuldades criadas pela bipolaridade. O temperamento arredio e a impulsividade. Os tratamentos enfrentados. Seu sucesso profissional. Tudo, absolutamente tudo, é narrado.

Um livro para quem o ler entender a natureza humana. Compreender a complexidade do existir. Saber, sobretudo, que cada um de nós, seja quem for, tem seus dramas e tormentos e que, apesar de tudo, pode deixar exemplo e um legado a ser seguido. Vencer os medos e enfrentar a realidade é o maior dos desafios.

O personagem de um grande romance Coivara da Memória, do sergipano Francisco Dantas, “Seu” Justino, excelente carreiro e bom zabumbeiro, bom tomador de “cana” nunca deixou de acreditar “ que na vida tudo se remenda”. Tudo tem jeito, portanto, por maiores que sejam os problemas.

A vida é dor, luta, enfrentamento. Vida é angústia, prazer, realização. Vida é sucesso, insucesso, também. Vida é entender que o outro, por ser o outro, não é igual a nós. Carrega, como nós, o entusiasmo e a angústia, a certeza e a incerteza, também. Vida é amor, mas é desamor, também. É conflito e harmonia. É guerra e paz, compaixão, também.

Na vida, como diz “seu” Justino “tudo tem remendo”, graças a Deus.

O livro de Luís, de tão bom, brevemente vou relê-lo. 


Publicado em 27/12/2021 às 11:16

APRENDI (II)

Aprendi, no decorrer da minha existência, que o maior e mais puro dos sentimentos, é o amor; aprendi, também, que para se amar, na plenitude de sua essência, não é fácil.

Aprendi que Orgulho e preconceito, título de romance de Jane Austen, escritora inglesa do século XIX, fazem parte da natureza humana, assim como respirar e comer.

Aprendi que o ódio, sentimento antagônico ao amor, contamina o ser humano e, quando potencializado, torna-o uma fera e inimigo de si próprio.

Aprendi que generosidade e perdão são sentimentos que fazem bem a quem os praticam, e quem os recebem não têm a verdadeira dimensão do bem alcançado.

Aprendi que a vida é constituída também de dor, de muita dor, mas ao contrário de que o bardo Inglês do século XVII, Abrahan Cowley afirmava: “ que a vida é uma doença incurável”, o sofrimento traz a compreensão da dimensão humana, nos faz compreender a finitude da existência, o sentido da vida, e o entendimento de Deus.

Aprendi que ter amigos, mesmo poucos, podemos compartilhar as dores e alegrias em compreensão mútua de que somos frágeis e fortes, sem exigir do outro a perfeição que não se possui, em atitude recíproca , sem nenhuma exigência.

Aprendi que se estar velho é uma vantagem para melhor ouvir, compreender e aceitar todos os erros humanos, principalmente dos mais jovens.

Aprendi que a ambição é necessária para a conquista dos desejos, desde que não ultrapasse limites do bom senso e da ética, e, para alcançar bons resultados, é indispensável disciplina, persistência e muito trabalho.

Aprendi que estar feliz , difere de querer ser , o estar é condição presente, o querer é futuro; o pobre pode estar e o rico, na condição da busca, querer e, consequentemente, não ser. Riqueza e felicidade as vezes não são compatíveis, assim como pobreza. Ser feliz é estar.

Aprendi que sempre haverá amor e ódio; guerra e paz; ricos e pobres; que os privilégios, por mais que a lei os combata, sempre existirão; que sempre haverá lugar para os santos
, os predestinados e os os líderes que se sacrificarão pelo bem estar da humanidade.

Aprendi que filhos e netos são o nosso ideal mais perfeito, as obras primas mais concretas, a imagem de Deus na imperfeição da existência humana.

Aprendi que os miseráveis, quer do ponto de vista material, quer moral, sempre existirão, mas amá-los e compreendê-los, eis a missão que nos cabe.

Aprendi que o amor, em sua dimensão intrínseca, é o maior e mais significativo dos sentimentos, porque ele nos torna seres humanos próximos de Deus , afastando de nós sentimentos que nos aniquila e nos degrada.

Aprendi que doar é um ato de generosidade, não divulgá-lo é ato de amor.

Aprendi que perdoar é generoso, não se vangloriar da conduta, eis o amor em essência.

Aprendi que os desejos nocivos são mais tentadores, porém não são os mais belos.

Aprendi que a alegria passa e que a dor não é permanente. Aprendi, também, que tratar bem aos pobres não é gesto de amor, nem ato de generosidade, é simples questão de educação.

Aprendi, ainda, que o poder apenas potencializa orgulho e preconceito às pessoas que já o possuem em suas naturezas.

Aprendi que o sucesso vem do trabalho, que a inveja é um sentimento que atrapalha quem o busca.

Aprendi que buscar-se a si próprio eis o grande segredo do amor, atingindo-se, enquanto se busca, quietude, paciência e tolerância. 


Publicado em 20/12/2021 às 12:28

MEU PAI

Quando meu pai morreu, ainda jovem, com cinquenta e cinco anos, eu tinha onze anos. Era um homem inquieto, de nome Joaquim, de conversa agradável, um inveterado leitor, e fumante. Exerceu várias atividades. Morreu pobre e deixou oito filhos de dois casamentos.

A sua inquietude e a sua inteligência o fizeram exercer vários afazeres. Foi político, exercendo o cargo de vereador, na cidade de Porto Calvo. Nos idos de 1954, em um encontro nacional de edis, em São Paulo, teve tese aprovada, tratando da temática do êxido rural, prevendo, em seus argumentos, o inchaço das cidades, com problemas sócios econômicos de difícil solução, o que de fato aconteceu.

Meu pai foi, também, gerente da usina Santana, em Porto Calvo. Trabalhou em escritório de importação em Maceió. Secretário geral de prefeitura e gerente de mercadinho em Recife, já na parte final da vida, antes de adoecer com cardiopatia. Doente, voltou para Porto Calvo, sem poder trabalhar e sustentar a família, pensou em suicídio, ante o opróbio de ser mantido pelo sogro.

Era um homem temperamental, açodado, de decisões rápidas, emocionais e repentinas. Também era um ser humano de atitudes dóceis, de riso fácil e brincalhão. Era um homem extremamente humano.

Em que pese ser inteligente e ter uma enorme capacidade de trabalho, ao morrer, nada deixou. Passamos, os três filhos, com minha mãe, sua segunda esposa, a viver às expensas do meu avô materno e, posteriormente, de meus tios.

Não conheci meus avós paternos. Não convivi com meus tios, irmãos de meu pai. Conheci-os depois, praticamente adulto. Minha mãe, nunca nos afastou.

Sempre tive pelos primos e tios, mesmo sem uma grande convivência, pelo lado paterno, um profundo respeito. Alguns não os conheço pessoalmente. Somos todos de uma mesma linhagem, cheios, é claro de problemas e histórias. Erros e acertos. Histórias cheias de dramas e lutas. Histórias da vida. Orgulho-me de ele, Joaquim Pirauá, ter sido meu pai e de ter herdado este nome forte. Tio Raul, que morava em Recife, de temperamento ágil, foi o que tive mais contacto. Os demais, foram poucas as vezes.

Minha mãe, que nunca se afastou de seus pais e irmãos, recebeu de todos, muito conforto e apoio material, fazendo com que seus três filhos, o mais velho doente, nada lhes faltasse, quer no plano material, quer no afetivo. Foi, sem dúvida, uma grande mulher.

Meu pai, segundo a filosofia de Niethzche, vivia cada instante de forma intensa, no retorno eterno ao presente. Era um ser humano bom.

Vivia a vida no pulsar de cada instante. Dava o melhor que podia, na busca incessante do realizar-se, naquele momento, e naquelas circunstâncias, na excelência que buscava.

Meu pai, não foi gênio, nem herói. Viveu sua vida. O aplaudo pela vida vivida. Pelos a acertos e erros.

Quando morreu, em dezembro de 1960, não virou nome de rua, nem de praça, nem de escola, apesar de sua vida pública.

Foi um homem moderno para o seu tempo. Minha irmã, pelo lado paterno, Leony, criada por uma tia, chamava-o simplesmente de “Quincas”, sem nenhum aborrecimento por parte de meu pai. Narrava, ainda, minha irmã que fumava na frente dele, sem receber qualquer admoestação. Contou, ainda Leony, que,sempre foi muito bonita e que fumava com muita elegância, em um certo dia, em viagens de negócios, ela viajava com meu pai, que a adorava, foi questionado se era sua namorada. Ele riu muito e se divertiu com o inusitado.

Era um homem além do tempo. Vivia intensamente. Acho que nunca
leu Niethzche, mas era uma vida refletida na filosofia do pensador alemão: viver o eterno retorno a eternidade do presente. 


Publicado em 21/11/2021 às 03:48

Velhice

A velhice, para mim, é bênção; é concluir da vida; é olhar o retrovisor, ver o passado com erros e acertos, dor e alegria, felicidade e tristeza. A velhice, neste novo começar, é contemplação, é mansuetude, é calma e introspecção.

Estar velho é alegria de ter filhos adultos, com quem me aconselho. É ter netas, em quem recomeço. É sentir a alegria incontida da família, de compreendê-la e de compartilhar a alegria e o sofrimento.

Estar velho, com lucidez e sensibilidade, é extremado conforto. Busco, no entardecer da vida, compreender a complexidade do existir humano. Compreender a dor, em suas múltiplas manifestações, quer afetivas, quer físicas, entendendo-a como aprimoramento do ser.

Estar velho é compreender, como processo de aprendizado, o ódio que separa, que segrega, que animaliza, entendendo-o como oportunidade para o exercício do perdão em sua dimensão infinita.

A sabedoria da velhice está na compreensão do fim e na aceitação de Deus, sem questionamentos.

A sabedoria da velhice é amar sem restrições; é perdoar sem medidas.

Compreender o fim, na finitude do existir, é sentimento de sabedoria. No acaso da vida, passamos a compreender a essência da vida, em sua dimensão de energia e espírito.

Tudo, na fase da velhice, passa a ter sentido. A dor nos leva à compreensão da fragilidade humana; a ingratidão, o valor imensurável do perdão; o orgulho nos faz entender a pobreza do espírito; a riqueza, farta e opulenta, nos faz refletir sobre a fome e a miséria, revelando a nossa pequenez ou a altivez.

O fim da vida, para o velho que aprendeu na dor, na ingratidão e na pobreza, o fez tão sábio que agradece aos que o fizeram sofrer, aos ingratos e à escassez de recursos, pela serenidade encontrada.

Os cargos ocupados são oportunidades de espargir o bem.

Encontra, na amizade, o elo que o liga do humano ao divino.

No encontro com o jovem, o velho que ainda é aprendiz do existir, ouve com atenção e respeito e fala com a serena firmeza de que nada é absolutamente verdadeiro.

Aprendi, ainda, com sofrimento e dor, o valor do amor, da amizade e da família.

Aprendi, também, que o amor aos filhos não tem dimensão, nem finitude.

Aprendi, ainda, que não se consegue, tal Charles Chaplin nos ensinou, agradar a todos, por mais que se esforce.

Aprendi que dor e alegria fazem parte do existir.

Aprendi que vale lutar por uma boa causa, mesmo que muitos não acreditem.

Aprendi que o diálogo é a melhor forma de enfrentar conflitos, e que tudo ao seu tempo será resolvido.

Aprendi que odiar não vale a pena e que o amor, por mais que o expliquemos, não vamos explicá-lo. Aprendi que sorrir, amar, perdoar e compreender nunca farão mal.

Aprendi que ser caridoso é a maior virtude do homem.

Aprendi e continuo aprendendo que viver é uma arte, arte do eterno aprendiz. 


Publicado em 22/09/2021 às 12:57

Breves reflexões

A humanidade, em qualquer época de sua existência, sempre viveu tempos sombrios. Tempos de grande escuridão e terror. As guerras, tão comuns na trajetória da civilização, sempre trouxeram à humanidade grandes incertezas e intensos sofrimentos.

A idade contemporânea, que começou com a tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, com a revolução francesa, início de uma nova era, com a mudança dos regimes absolutistas varrendo toda Europa, trouxe à humanidade, também, tempos sombrios, instalando-se o terror.

A primeira e a segunda guerra mundial, início e meados do século XX, foram tempos tormentosos. Dirigentes, de grandes nações à época, instalaram regimes ditatoriais, dizimando milhares de vida.

Os ideais iluminista, que impulsionaram a revolução francesa, e as mudanças de regimes, ora para o socialismo, caso da China e da Rússia, ora para o totalitarismo, caso da Alemanha e Itália, não trouxeram à humanidade, como propagavam, paz e prosperidade. Busca-se, ainda, o bem estar da humanidade.

Teorias econômicas surgem e, quando implantadas, não conseguem resolver os problemas que nos cercam.

O Estado, enquanto organizador da conivência do organismo social, é imprescindível. Porém, até que limite, dentro de parâmetros do que hoje se conhece por democracia, não interferindo na liberdade de expressão, de ir e vir, e garantindo, sobretudo, o direito à vida, implícito saúde, educação, segurança e oportunidades a todos, o Estado adotará. Entendo que os limites são os constitucionais, cabendo a corte suprema, quando acionada, dar sua interpretação. Assim funciona a democracia, e o seu aperfeiçoamento dar-se ao longo do tempo, através de mudanças na própria constituição, emanada do desejo do povo que, através do tempo, melhora seus valores, dele povo,

O momento atual, assolado por uma grave crise de saúde sanitária, com reflexos, nunca imaginados, em uma crise econômica sem precedentes, requer, de todos e, principalmente, dos líderes, muito equilíbrio e comando. Nos momentos de tormento, de crise, de dor, de angústia, de caminhos que se fecham, é que surgem, não tenham dúvidas, as grandes lideranças.

Com a revolução industrial, inaugurada pela Inglaterra nos século XVIII, com a introdução de máquinas e, posteriormente, as ideias revolucionárias do Iluminismo, era da razão, acreditou-se que o homem ao dominar os meios de produção e inovar na forma de auto governar-se teria, a partir daí, os problemas resolvidos. Ledo engano.

Os problemas continuam a desafiar. Os problemas de saúde, sobretudo. Novas doenças, novos vírus, novas bactérias, desafiam a inteligência humana, apesar de grandes progressos e inovações constantes. Sempre haverá doenças incuráveis e as infecto contagiosas, quando não existentes vacinas, geram pânico.

Quando as desigualdades sociais serão resolvidas. Quando haverá escolas para todos? empregos para todos? Acesso uniforme à saúde para todos? Não são problemas fáceis de serem resolvidos, mas que trará à humanidade uma grande sensação de bem estar. 


Publicado em 10/09/2021 às 07:51

O homem que ensinava pássaros

“Seu” Dominguinhos era um homem simples, calejado no trabalho, já passado dos setenta. Sua moradia, na saída de Arapiraca, era, também como ele, simples, porém aconchegante. Nos fundos da casa, há um terreno de algumas tarefas onde “seu” Domingos costumava enganar o tempo com alguns afazeres.

Fui à sua casa, acompanhado de seu filho, então Juiz de Direito em atividade, Dr. José Firmino de Oliveira, que até ali fora, como sempre fazia, dar, hoje já em desuso, a benção aos seus pais. Firmino, enquanto conversava com sua mãe, pediu-me que fosse olhar os cavalos, naquele terreno extenso, nos fundos da casa.

Fui caminhando até aquele local aprazível, observando cada planta, e antes de ver os cavalos manga larga, tão apreciados por todos nós em Arapiraca, visualizei “seu” Dominguinhos, sentado em uma cadeira, jogando alimentos aos pássaros que cantavam o canto alegre, onde natureza e vida se entrelaçavam no mistério da existência do mundo. Fiquei parado admirando e tocado por aquela cena. “ seu” Dominguinhos assoviava em atitude de completa satisfação. Era um homem pleno, realizado, em harmonia com a natureza e com Deus.

Perguntei, então, àquele homem, a mais tola das indagações: o que o senhor faz? a resposta, em sorriso ingênuo, surpreso com pergunta tão infantil, afirmou: “ensino esses pássaros a cantarem. Estão, cada vez mais estão cantando melhores” , arrematou. O seu assovio, pude perceber depois, era o de um homem que compreendia os pássaros e era compreendido por eles. Compreendia a natureza e era integrante dela. Grande lição. Grande aprendizado.

Essa história faz tempo. Esse homem educou seus filhos e os fez homens decentes e trabalhadores.

Eraldo, seu filho, homem de sorriso fácil e estrondosas gargalhadas, em Piranhas, quando seu irmão Dr. José Firmino, juiz de Direito, fora homenageado, contou a seguinte história: seu pai, o já mencionado Dominguinhos, o chamou e lhe deu a seguinte tarefa: Eraldo, meu filho, vá vigiar o galpão dos frangos. Leve esta espingarda. Está havendo roubo das aves. Eraldo, então de posse da arma, ia se retirando quando seu genitor lhe advertiu: “Eraldo, meu filho, se for um cidadão baixinho, de andar trôpego, e chapéu na cabeça, não atire. Por que pai, disse o apressado Eraldo. Não atire que deve ser o compadre Pedro, meu querido amigo, o ladrão.”

Sobre, ainda, a história dos frangos, Tarcizio Aureliano, amigo da família, conta: “Tarcizio, afirmava “seu” Domiguinhos, a melhor coisa do mundo é criar frangos. É negócio pra ficar rico”. Meses depois ele afirmava: “Tarcizio isto é negócio pra corno. Não quero mais saber de frangos. Quebra qualquer um”.

Ele era um típico homem nordestino. Carismático, alegre e bom. Sabia viver cada momento. Fazia da simples alegria contagiante da existência uma forma de vida.

Em cada filho sabia aonde havia chegado, na realização de sua existência.

Ao ensinar pássaros a cantarem, sabia entrar em sintonia com a natureza. Ao permitir que seus filhos aumentassem suas estórias, permitia-se amá-los e compreendê-los na harmonia da família.



“Seu” Dominguinhos reflete o homem do interior do Brasil. Acostumado às intempéries da vida, vivendo-a sem perder a fé e a esperança.

Certo dia Gilberto, grande rotariano, morto pelo vírus, acompanhado de Erivan, grande empresário de Arapiraca, foram à casa de “seu” Dominguinhos, olhar uns cavalos Manga Larga do Firmino, filho do Dominguinhos. Gilberto disse para o experiente cidadão: Trouxe aqui, “seu” Dominguinhos, este rapaz, o nome dele é Erivan. Quero ver se o senhor aprova para tratar dos cavalos. Não é preguiçoso. É trabalhador. O velho, experiente, passado na casca do angico, como se diz aqui no Nordeste, pediu para ver as mãos do Erivan. Ao ver as mãos sem calos, afirmou: “Este nunca tratou de cavalos. Este deve ser algum empresário. Nunca soube o que é trabalho braçal. Engane outro”.

Era assim “ seu” Dominguinhos, vivia as intempéries da vida com o espírito alegre do homem simples, satisfeito. Seus filhos sentem orgulho do pai que, quando vivo, viveu a luta, a alegria e a esperança. 


Publicado em 10/08/2021 às 06:16

OS ENGENHEIROS DO CAOS

Os engenheiros do caos, livro de Giuliano de Empoli, politólogo italiano, da editora vestígio, já na segunda edição 2020, traduzido por Arnaldo Bloch, o autor, com grande clareza didática, revela um quadro perturbador, na cena política internacional, onde todos estamos inseridos, inclusive o Brasil.

Ainda na introdução, Giuliano, no livro que recomendo, afirma: “os defeitos e vícios dos líderes populistas se transformam, em qualidades. Sua inexperiência é a prova de que eles não pertencem ao círculo corrompido das elites. Sua incompetência é vista como garantia de autenticidade. As tensões que eles produzem em nível internacional,e as fake News que balizam são a marca de sua liberdade de espírito “. Crítica contundente é bastante assertiva.

O autor, então, em introdução fantástica, de 32 páginas, prepara o leitor para as explicações que serão dadas em seis capítulos em que serão demonstradas a manipulação dos eleitores, através do Tweet, Facebook, e das redes sociais em geral, utilizando-se de algoritmos para atingir o público específico a a mensagem certa, na dosagem correta, pouco importando se verdadeira ou falsa. O importante é obter o resultado eleitoral.

Sobre fake news Giuliano de Empoli afirma: “contrariamente às informações verdadeiras, elas constituem um formidável fator de coesão” e ao citar um blogueiro americano menciona Mercius Moldbug : “Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade”, e arremata: “ acreditar no absurdo é uma questão de lealdade”. Fiquei, confesso, deveras assustado, as democracias correm perigo, concluí.

Li recentemente, antes da leitura dos engenheiros do caos, de Steven Levitsky e Daniel Ziblat, como as democracias morrem, com 56% da população sendo governada por governos democratas, atualmente em 105 países. São governos eleitos democraticamente e alguns forçam as grades de proteção que as protegem. São governos que se tornam autoritários após serem eleitos pelo voto popular. Vide Venezuela, por exemplo.

O falso, o impactante, a não verdade, no mundo moderno, no processo eleitoral, passam a ser instrumento usual para obtenção do voto. Usando os novos meios de comunicação, utilizando-se dos algoritmos na internet, atingindo-se os nichos que se deseja, escolhe-se a mensagem a ser disparada, na intensidade que o meio destinado almeja, alimentando-o constantemente. Unem-se os contrários na falsa idéia da unidade do coletivo.

Neste mundo onde tudo é mensurável e nossos gostos são acompanhados pelos smartphone, as informações nos chegam sob medida, muitas vezes criando, em cada um de nós, o medo, a angústia, com notícias falaciosas que nos fazem crer no absurdo. O ódio, como mensagem, chega em embalagem que nos envolve e atiça paixões.

As propostas em pleito eleitoral ficam reduzidas a segundo plano e o objetivo é a destruição da imagem do outro,semeando um clima de revolta, de medo e ódio. Que o diga o processo de escolha norte americano.

Valeu apenas ter parado a leitura de os irmãos Karamazov de Dostoiévski para ler os engenheiros do caos. Bom livro. 


Publicado em 02/08/2021 às 06:44

Três anônimos

Em Arapiraca, de um passado recente, conheci três figuras do povo. Um deles, um homem circunspecto e de sorriso dócil, de meia idade, de origem alemã, não me recordo o nome, fotógrafo. Quando o encontrava, em batizados e em eventos festivos, sempre com sua máquina fotográfica, seu ganha pão, conversávamos um pouco. Ele sempre afável e solícito.

Sempre me perguntei, quem era aquele alemão, surgido ninguém sabe de onde, que morava só, em um hotel, na rua do comércio, que não tinha parentes, e que era de uma doçura incrível. Teria ele lutado na segunda guerra? Por que viera parar em Arapiraca? Ninguém sabia. Era um homem bom. Fotografava, simplesmente. Vivia disso. Todos gostávamos dele.

Tempos depois, sinto falta dele. Não mais fotografava. Para onde teria ido?Para onde foi, não sei. Por que foi embora, não sei. O alemão discreto, de sorriso dócil, de máquina fotográfica pendurada no pescoço, de fala mansa, de repente fora embora. Senti sua falta.

Um outro personagem, que falava inglês, alguns frases, sempre assim se apresentava, era o Rena, rei do Rango, e, como sempre, quando o encontrava, havia ingerido algumas cervejas, independentemente do dia ou da hora, e que se constituía em uma figura que fazia parte de Arapiraca, ainda não violenta e onde as pessoas se conheciam.

Rena, o Renato, excelente técnico de refrigeração, em passos trôpegos, voz embrulhada, com frases em inglês ininteligíveis, sempre se aproximava das pessoas, assim que as encontrava, independentemente do lugar e as beijava.

Renato, o Rena rei do rango, com seu falar embolado, seu inglês de frases feitas e não entendido, era um homem que, na simplicidade de sua existência, compôs a paisagem urbana, de um personagem único, de Arapiraca calma e interiorana. Bom homem. Gostava dele.

Um outro, este pouco conhecido, era um cidadão que me fazia lembrar, por sua regularidade com que passava no escritório do Dr. Batista, nos mesmos dias e horários, o acendedor de lampiões, da poesia de Jorge de Lima, “ o mesmo que vem infatigavelmente / parodiar o sol e associar-se à lua....

Epitácio, figura magra, esguia, de uns cinquenta anos, infatigavelmente, sem falhar, todos os dias, passava no escritório de Dr. Batista, entregando os jogos da loteria, dando o resultado, e, ainda, sem que jogássemos, por ser contravenção, anunciando o “bicho” do dia.

Ele ,Epitácio, anunciava a fortuna que nunca chegava. Propagava, com alegria, a esperança dos outros conquistar a riqueza. Será, hoje me pergunto, se ele tinha uma casa para morar?

Porém, notava que aquele homem, tão infatigável e tão regular, tão simples, e tão trabalhador, tinha uma felicidade que espargia e disseminava. Esperava a hora de sua chegada para absorver a sua magia da existência.

Três personagens. Homens do povo que, sem querer, me ensinaram cada qual com o seu jeito de existir. Minhas homenagens a essas figuras anônimas, esquecidas no tempo. 


Publicado em 17/07/2021 às 19:36

DEBATE INÚTIL

Nos tempos atuais, de polaridade e animosidade, não se vê um debate de ideias, de princípios, de temas, antes, pelo contrário, discute-se o ódio, impõe-se ponto de vista, não se aceita, sequer como argumento, pensamento divergente.

Nega-se, confronta-se, contesta-se, todos, e, individualmente considerados, são donos de uma verdade empírica. A busca do consenso, ou o senso comum, como método de diálogo construtivo como ensina Platão, um dos maiores filósofos da humanidade, discípulo de Sócrates, cujas ensinamentos foram por este transmitido, foi totalmente esquecido. O senso comum, a busca do consenso, ou o diálogo educado, deixaram de existir.

Para alguns, e não são poucos, a dialética é erística, a de Schopenhauer, filósofo alemão, nascido no final do século XVIII, qual seja: a arte de vencer um debate sem precisar ter razão, mesmo que para isto usem sofismas. Para estes não importam a origem dos argumentos. Importam vencer. Não ouvem e às vezes usam como premissas ideias falsas. Querem ganhar no grito.

No ambiente de discussão política , o debate, enquanto busca de aprendizado recíproco, é inexistente. Não há, tenho observado faz algum tempo, dialética produtiva, bom senso, parcimônia. Há gritos querendo impor ideias, lembrando, por pertinente, a dialética erística do filósofo alemão.

O mundo moderno, que se iniciou com o Iluminismo , era da razão, trouxe novas tecnologias, avançando com a revolução francesa, assumindo as ideias libertárias, trazendo à humanidade nova forma de governo, e a revolução industrial, deram ao homem uma nova forma de vida e de pensar. Novos costumes, nova maneira de dominação e, sobretudo, novidades , sobretudo , na arte de fazer a guerra.
Trouxe, também, a nós seres humanos, neste processo contínuo civilizatório, na modernidade da comunicação, algo ainda recente, que é a maneira de impor nossos argumentos.

As discussões, neste ambiente moderno, não obedecem padrões. Vale tudo para obter apoiadores. As ideias são expostas e não se admite, sob hipótese nenhuma, discordância. Se abandonou o senso do ridículo. O que se deseja é o confronto. A negação do óbvio. Todos sao portadores de uma “verdade”, frutos de crença e de monomania.

Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira, tinha razão que: “O difícil não é conviver com as pessoas, o difícil é compreendê-las”. Portanto, assim, como afirma o famoso escritor português, nascido em 1922 e morto em 2010, o difícil é compreendê-las, neste mundo em constante evolução e ebulição, dominado pelo egoísmo e prepotência.

O debate, quando feito com humildade, com escopo, com mediação, e sem ideias pré-concebidas, partindo de premissas e argumentos lógicos, é enriquecedor para todos, sem distinção .

O debate político é tão necessário e indispensável à natureza humana porque nele se encontra a governança dos povos. Deve ser feito com critério e sem preconceitos, com equilíbrio e temperança.

O momento é de reflexão, de boas leituras, de falar pouco e ouvir muito. De ler os filósofos antigos. Ter suas ideias e não verdades definitivas e de compreender as pessoas, mesmo sendo difícil, na sábia lição de Saramago. 


Publicado em 03/06/2021 às 06:15

Os Miseráveis

Um poeta inglês do século XVI, Abraham Cowley, afirmou: "a vida é uma doença incurável". Não, não concordo com o bardo. Viver, para muitos, é uma dor insuportável. É um sofrer constante. A existência, para uma razoável parcela da população, é miséria absoluta, é abandono completo, é desumanizada em sua expressão mais plena.

Os moradores de rua, não os concebo sem teto, sob uma marquise, aos rigores do fito, e na incerteza do alimento. Em alguns casos com mulher e filhos. Sei, e não olvido, que alguns movimentos sociais, religiosos e não religiosos, minimizando a miséria, levam o agasalho e o alimento, em conduta louvável de compaixão. Porém, a dor continua, a dignidade humana, em sua forma de vida, me parece inexistir.

Há outros, que na rua se encontram, destituídos do sentido da existência, dominados por drogas, perambulando feitos zumbis, escravos do vício e do tráfico, andando sem destinos, na miséria total. Onde, às vezes me pergunto, a civilização falhou? Ainda há os pobres que moram em habitações improvisadas, que trabalham em subempregos, que não ganham o suficiente. Há os que, ainda, praticam a mendicância, como forma de sobreviver.

Miséria e pobreza produzam um quadro de asfixia social. São objetos de estudos e decisões políticas. Que fazer, então, para a vida não ser uma dor permanente, a miséria e a pobreza não serem uma chaga social? O poder político, ambição maior do ser humano, deve ser exercido com firmeza e altruísmo. Fixando suas diretrizes, olhando a nação como um todo, objetivando erradicar esses desníveis sociais.

Não concebo uma nação onde ainda se vê miseráveis. Eles estão sob marquises, debaixo de viadutos, em prédios abandonados, perambulando em buscas de alimentos. Eles vivem em dor permanentes, completamente desassistidos.

Há uma falha, na existência da miséria, em seu sentido absoluto. Falhou o poder público na política de desenvolvimento, em todos os campos de sua atuação. Continua falhando o poder público, na ausência de uma assistência eficaz, ao vê-los sob marquises e viadutos, em sofrimento e dor.

Há muitas dores que podem ser evitadas, não todas. O sofrimento faz parte do existir humano. Mas esta do desamparo, da ausência eficaz do estado, de famílias em viadutos e marquises, da fome, em sua forma mais bruta, pode e deve ser combatida, não só pelos gestos solidários de organizações e pessoas, mas sobretudo pela ação planejada de decisões políticas.

A miséria nunca deveria existir. A miséria dói. A miséria talvez de tão doida, dor tão forte e inexplicável, quiçá não doa mais. Torna-se, com o passar do tempo, uma paisagem que compõe a dor natural do existir. Não concordo. É dor que não passa.
 


Publicado em 14/05/2021 às 19:02

Democracia

Os partidos políticos, como catalisadores de líderes, devem, principalmente os grandes, observar aqueles com tendências de caudilho, evitando consequências

Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça Aposentado e Conista

Na idade moderna, iniciada no final do século quinze, a grande maioria dos povos era governada por teocratas que, em nome de Deus, exerciam o absolutismo. A monarquia, portanto, enquanto forma de governo, dominava o mundo de então. Governos autoritários e detentores de poderes absolutos. Só existiam quatro estamentos sociais: a realeza, a nobreza, o clero e o povo. O povo, coitado do povo, pagava pesados impostos para manter os privilégios dos demais.

Foi nesta fase, no entanto, de intenso sofrimento humano, de poder total dos governantes, na idade moderna, que surgiram os grandes pensadores, denominados iluministas, como John Locke (1632/1704), Rousseau (1712/1778) e Montesquieu 1689/1755), dentre outros, trazendo à realidade nova forma de pensar, novo olhar dos povos serem governados. Daí surgiu, então, o novo modelo de Estado, até então desconhecido, diminuindo sensivelmente os poderes das cabeças coroadas até culminar com a revolução francesa. Neste soprar de novos tempos poucas monarquias sobreviveram na Europa, e assim mesmo, todas, sem exceção, tiveram que se refazer, passando apenas a serem símbolos de poder. O sistema de governo na forma monárquica, existentes na Europa, é parlamentarista, cabendo ao político eleito como representante do povo governá-lo, ouvindo os demais partidos, na figura do primeiro ministro.

A democracia, que é governo do povo e para o povo, com liberdade de expressão e direitos constitucionais garantidores de fundamentais, em 1985, segundos estudos, recentemente publicados pelo professor Jairo Nicolau, em prefácio do livro Como as democracias morrem, apenas 42 países a praticavam, correspondente a 20% da população mundial, e em 2015 eram 103 países, com 56% da população mundial.

Tenho, nos últimos dias, face aos últimos acontecimentos, me debruçado não só em noticiários, mas em leituras sobre o que anda ocorrendo no mundo. Existem, isto é evidente, surtos autoritários, oriundos de governos democraticamente eleitos, que, praticando um nacionalismo populista, vão minando, com o aplauso do próprio povo, a legislação democrática, para impor-se como chefe permanente de governo.

Os poderes, pensados por Montesquieu, tão indispensáveis e necessários à democracia, precisam, sobretudo, serem exercidos por moderados que, quando os conflitos surgirem, sejam de natureza social ou não, ajam seus dirigentes como garantidores da paz social, preservando os valores fundamentais duramente conquistados dentro de um processo histórico.

Os partidos políticos, como catalisadores de líderes, devem, principalmente os grandes, observar aqueles com tendências de caudilho, evitando consequências à democracia. Urge, pois uma boa reforma política. Democracia dá trabalho, mas é o melhor dos regimes políticos. 


Publicado em 09/05/2021 às 10:40

PADRE JOSÉ

Lendo o clássico da literatura universal, os miseráveis, de Vítor Hugo, romance escrito em meados do século XIX, após a revolução francesa, deparei-me, logo no início da extraordinária obra de ficção, com Bienvenu Myriel, bispo de Digne, região montanhosa.

A autoridade episcopal, apesar de ter bons rendimentos anuais, distribuia-os entre os pobres de sua diocese. Sua casa, sede de sua autoridade eclesiástica, mantinha a porta sempre aberta, mesmo durante o seu repouso noturno, preocupado que os necessitados precisassem de ajuda. Recolhia dos ricos, a quem sempre pedia, distribuía com os miseráveis, a quem sequer perguntava os nomes para não constrangê-los. Dedicava seu tempo com os necessitados, enfermos e os aflitos e o que lhe sobrava de tempo cavava o seu jardim, lia e orava.

Afirmava o bispo Myriel que: “ ser santo é uma exceção; a regra é ser justo. Errem, caiam, pequem, mas sejam justos”. E ao falar sobre a carne, grande tentação, afirmou: “ ao cair , caia de joelho , que pode terminar em oração.

Ao fazer esta leitura, do célebre escritor francês que no Brasil influenciou José de Alencar, Machado de Assis e Castro Alves, lembrei-me de Padre José, um cura dedicado aos pobres, aflitos e miseráveis. Padre José, natural Bélgica, era pároco de Craíbas, região do agreste e cidade próxima de Arapiraca.

Vestia-se em trajes muito simples e calçava sandálias para lhe proteger os pés de longas caminhadas. Possuía um carro velho. Os adolescentes, principalmente infratores, não os desamparava, e, ao seu modo, com extraordinário esforço, procurava compreendê-los e assisti-los. Pedia por eles e para eles.

Falava com forte sotaque. Sua voz, as vezes era ininteligível. Não tinha grande estrutura. Ajudava aos desassistidos por determinação pessoal, demonstrando grande generosidade.

Nunca mais o vi. Acredito ter voltado para a Bélgica, país de primeiro mundo. Não sei, também, se mudou de diocese. Às vezes, me pergunto, que ideais levam um ser humano abandonar o conforto e a segurança de um país desenvolvido para assistir os desvalidos de um outra nação. Não encontro resposta a não ser que movido pelo transcendental, busque no divino o objetivo de sua missão.

Estender a mão, abster-se de qualquer conforto, sofrer a dor do próximo, quando, nós, os humanos, lutamos dia e noite, para nos vencer com nossos egoísmos, tão arraigados em nossos eus. Servir ao próximo, pois, neste sentimento egoístico que nos move, sem objetivar interesses, é tarefa para poucos.

Ser justo, muitas vezes não é fácil, neste mundo de complexos interesses; ser generoso, na acepção plena do significado, é reservado para seres que encontram no transcendente a razão do existir. São movidas pelo amor e pela oração. Encontram na caridade o motivo e o significado da existência. 


Publicado em 07/05/2021 às 11:17

CALÇADA DA FAMA DO BAR DO IRAQUE

OIraque, país do oriente médio, lugar onde ocorreu os primórdios da civilização, povo guerreiro e indócil, cheios de conflitos e guerras, é o nome, acreditem, aqui na capital do agreste, Arapiraca, de um bar, que os amigos assim o denominaram, onde todos os sábados, os exceção deste período pandêmico, para extravasar amizade, ouvir a boa música, cantada e tocada por eles, praticando a harmonia que os fazem esquecer as tensões quotidianas.

Michel de Montaigne, 1533-1592, filósofo francês, inspirador de pensadores iluministas, em seu festejado livro “ensaios”, dentre os vários assuntos,tais como: da covardia, do medo, da tristeza, dos ódios e das afeições, também abordou, dentre outros, a amizade.

O grande pensador francês do século XVI, afirma: “ É verdade que a amizade assinala o mais alto ponto de perfeição da sociedade”. E arremata o grande filósofo: “O calor da amizade estende-se a todo o nosso ser; é geral e igual; temperada e amena; soberanamente suave e delicada, nada tem de áspero nem de excessivo. O amor é antes de mais nada um desejo violento do que nos escapa: como o caçador perseguindo a lebre, no frio e no calor, por montanhas e vales; desdenha-a ao alcançá-la e só a deseja enquanto a persegue na fuga”.

Volto ao Iraque, ao bar, tosco, sem atrativos, lembrando um venda do antanho; seus donos sempre alegres, felizes e cordiais. É na calçada do Iraque, localizado em bairro simples, de nome sugestivo, Brasília, que poucos amigos, movidos por violão e encantados pelas vozes, se encontram para ouvir-se. Conheço-os e são praticantes da velha e boa amizade. Da amizade de que fala o filósofo.

Vou eventualmente ao bar do Iraque para sentir a beleza da amizade. Receber a energia saudável do encontro. Observar, ainda que de forma empírica, que a amizade existe. Ali eles cantam, riem, conversam, se respeitam, e sentem a alegria da existência. Não exigem lealdade, porque a vivem na leveza da vida.

Sim, a amizade é possível e existe. É diferente do amor, neste existe a possessão, o controle, o domínio, o ciúme. A amizade é temperada e suave, como disse o filósofo.

Eles, os amigos do Iraque, não se exigem, nem se cobram, todos se doam no gesto simples de se fazerem bem um ao outro, pelo simples fato do encontro, do encantamento de se encontrarem.

São de variadas profissões, de situações de vida diferentes, de segmentos sociais diversos, mas que encontram na música, nos temperamentos de cada um, a suavidade que os mantém harmônicos, praticando a amizade que a maioria das pessoas, movidas pelo imediatismo de interesses não conseguem achar. O interssse deles, na amizade, o simples fato dela existir e o fazerem felizes.

Vinicius de Moraes, compositor e poeta, inveterado fazedor de amigos, sabia,como ninguém, o significado da amizade. Ela era o fator indispensável de sua genialidade.

No Iraque, na calçada poética de um bar que existe para eles: Adailton Reis, Denis, Lula santana, Lula Mendes, Rutemberg, Rolemberg, Fernando Alegria, Mauricio Fernandes, Benício, Sérgio,e outros que eventualmente se juntam, praticam, na leveza de suas existências, a amizade benéfica e transcendental do existir humano, vivida por poucos e propalada por muitos. 


Publicado em 26/03/2021 às 08:08

PEDRO CAVALCANTI NETO, O PROFESSOR

Ainda bastante jovem, solteiro, terminando o Curso jurídico, conheci “seu” Pedro Cavalcanti, titular do cartório de protesto de títulos e documentos, da cidade de Arapiraca. Homem simples, generoso, cordial, dir-se-ia humano, radicalmente humano. Nos chamava a todos, indistintamente, de professor.

“Seu” Pedro Cavalcanti era um mestre, sim, da sabedoria e do viver. Parcimonioso, ouvia com paciência e muita atenção. Mas aquele homem sempre solicito nos dava a lição da humildade quando nos tratava de professor. Ele que ensinava, no ação e no gesto, dizia aprender.

Era espírita e, portanto, na busca perene do melhoramento, buscava em Jesus, espírito de luz, o exemplo do existir.

No cartório, no trato diário com o público e serventuários, advogados, promotores e juízes, era um exemplo de competência, responsabilidade e humildade. Buscava, na dimensão humana de seu existir, e no compromisso inarredável do fazer o melhor, e nos limites da responsabilidade do cargo, atender com presteza e humanismo.

Não sei, se depois de morto, aquele homem exemplo de vida e honradez, foi homenageado na cidade que dela nunca se afastou. Não conheço prédio público, quer estadual ou municipal, tributando, em Arapiraca, alguma homenagem àquele ilustre homem do povo e serventuário da justiça.

Deus me deu a imensa alegria de, na condução de Promotor de Justiça, aprender, ainda muito jovem, as lições da vida, da generosidade, do amor, da caridade, da cordialidade, com este cidadão Pedro Cavalcanti Neto, que nos chamava de professor.

Amigo de todos. Não criava impasses. Não tinha conflitos. Não participava de partidos políticos. Todos o respeitavam. Era um mestre na arte do diálogo. Escutava com prazer. Orientava com profundo respeito. Exercia seu ofício com extrema responsabilidade. Foi um exemplo de homem. Propagava o amor. Praticava a paz.

Arapiraca ainda há de lhe tributar a homenagem a um homem que viveu no bem e para o bem.

Fomos amigos, apesar da diferença de idade. Nos intervalos das audiências gostava de ouvi-lo. Ouvir as lições de um homem desprendido, crente em Deus e adepto da caridade. Quando usava a palavra professor, demonstrando humildade, eu tinha convicção que estava diante de um mestre da vida a nos ensinar.

Assim era o mestre Pedro Cavalcanti, o mestre da vida. Ensinando a todos, independente de classe social, a beleza da vida, e que ser bom é o destino que nos leva a Deus. 


Publicado em 27/11/2020 às 12:00

O Senadinho do bar do Né

Todos os sábados, exceto na pandemia, mal que assola o mundo, um grupo heterogêneo, constituído por vários segmentos do extrato social, se reúne, para uma cervejinha, na calçada do bar do Né. São comerciantes, corretores, representantes comerciais, e outros, para, através da boa prosa, estabelecer laços e discutir ideias.

A conversa é aberta, franca. Fala-se de tudo: de música, de futebol e política. De velhos amigos que se foram. Fala-se da cidade de ontem, com a beleza da época e dos homens que a fizeram; como a de hoje, bonita, bela, violenta, moderna, e ainda tão carente de algo que nos torne mais satisfeitos. Concordamos, todos, que gostamos e amamos esta cidade.

A calçada do Né, cuja frequência no qual me incluo, é o centro nervoso onde gera ideias e paixões, movidas pela nobreza de sentimentos de cada um, gerando, por conseguinte, a solidariedade uniforme, a amizade consistente, fazendo, não tenho dúvida, o ambiente saudável que faz bem a saúde dos que a frequentam.

O falar alto, o rir, o satirizar, a jocosidade, o ser grulha, naquele ambiente de pessoas diferentes e convergentes, é o ponto ideal para as tardes de sábado.

O Né, dono do bar, que dificilmente ri, é carismático, em que pese ser carrancudo. O Né, com suas frases curtas, diretas e sem procurar agradar, é fantasticamente, por paradoxal que seja, uma pessoa encantadora. Todos nos sentimos em casa.

O “senadinho” do bar do Né, onde sou suplente e aluno, tem lugar para todos. Todos falam e todos ouvem. Não há sábios, nem ignorantes. Lá, há homens sedentos para ouvir e falar, concordar e discordar, buscando, e o fazem como ninguém, a preservação da amizade como bem maior da existência humana.

Aprendo, naquela calçada, aos sábados, que não há sábios, nem intelectuais, nem ignorantes, dentre os seres humanos; todos somos sábios e ignorantes, dependendo da experiência de cada um naquilo que faz e diz.

O bar do Né, lugar rústico e simpático, familiar e sinérgico, faz parte da paisagem cultural de Arapiraca. Cuidado pelos seus donos, é ponto obrigatório dos que desejam uma culinária caseira. Não há luxo. Há acolhimento. Não são rudes, são naturais. O cardápio e sucinto, sem mistério. A comida é boa. Porém, a sua calçada, aos sábados, é outra coisa. Nela, todos nós, com as nossas idiossincrasias nos reunirmos e nos entendemos.

Aprendo, naquela calçada, que estar feliz custa tão pouco. Tudo regado a boa cerveja e galinha de capoeira. Os “ senadores”, que são representantes de si próprio e de suas ideias, são amantes da boa cerveja, do bom tira gosto, da boa amizade, e da alegria de viver. São Gilberto Fernandes, Jadelson Vital, Tourinho, Regis,Edinho,Felício, Rogério lima, Hagamenon Júnior, Toninho Cancha,Normando Campos, Valderi Carvalho, Van Ernesto, Flávio Pereira, Luís Alexandre e Genival Silva, Forinho, quando vem de Maceió, e outros saudosistas.


 


Publicado em 23/10/2020 às 13:28

A política

A política, em uma expressão mais singela, é quem conduz o estado, enquanto nação e ente federativo. Seja qual a forma de governo: monarquia ou república ou o regime escolhido: presidencialismo ou parlamentarismo. A obsessão humana pelo exercício do poder sempre será enorme, quem o exerce dele não quer mais se afastar.

Sempre, na história da humanidade, no exercício do poder, às traições, o uso da força, e a a perpetuação, foram sempre usadas por quem os detinha.

Apesar de sua origem ser na Grécia, surgida como fruto de uma crise, a democracia surge no mundo contemporâneo, rompendo com os governos teocrático, que se supunha de origem divina, trazendo ao povo, que não participava do processo político, o direito de escolher quem iria governa-lo.

Criado, por inspiração de Montesquieu, a teoria dos três poderes, adotada hoje por inúmeros países, criando freios e contra pesos, afastando o absolutismo então vigorante, buscava um governo justo e em equilíbrio.

Neste cenário surgem, no mundo contemporâneo, às democracias, sejam em regimes monárquicos, afastando o absolutismo, seja no presidencialismo, todos amparados nos três poderes harmônicos e independentes.

A metade dos países existentes adotam a democracia, buscando, sobretudo o revezamento do quem exerce o poder.

No entanto, a democracia por si só, senão observada uma vigilância rigorosa e partidos bem estruturados, com uma legislação que os defina de forma a protegê-los de aventureiros, ela poderá ser a ameaçada.

Em alguns países do mundo as democracias, por descuido, exemplo do Chile, do Perú, tiveram, em recente fato histórico, seus governantes eleitos pelo povo, transformados em líderes autoritários.

Os demagogos, sejam de direita ou de esquerda, tornam-se líderes populares usando o discurso de massas, mas no fundo buscam interesses próprios e desejam perpetuar-se no poder.

A democracia, caso não tenha mecanismo próprios previstos em lei, a começar da norma constitucional, que a proteja de aventureiros, sempre haverá risco de algum aventureiro autocrático, travestido de líder popular, exercer o poder.

Mister se faz que as intuições estejam sempre vigilante. A democracia, como dizia Ulisses Guimarães, é o preço da eterna vigilância. 


Publicado em 01/10/2020 às 16:05

ARAPIRACA

Perguntaram, faz algum tempo, porque tenho tanto apego a Arapiraca. Arapiraca, dizia a pessoa, incomodado com meu amor, não tem as belas praias de Maceió, nem o comércio, nem as noitadas da bela capital. Sim, não tem, respondi, mas tem o lago que aprecio, o trabalho que desejo, o sossego que quero, os campos que me fazem sereno, que embelezam o meu olhar e acalmam o meu espírito, o povo simples com quem com converso minha prosa sem pressa e descontraído. Arapiraca, ainda tem, o bar do Né, simples e acolhedor, tem, também, o caldinho da Canafístula e o famoso arroz de tempero do Aluízio.

Sim, tem o ASA, que faz a emoção do povo, em uma fé perene de campeão. Tem a história de Manoel André, nunca esquecida; tem a cultura do pastoril, tradição que não morre; tem o canto dos jovens cantores e cantoras que na voz de Nelsinho e na arte de biribinha nos elevam enquanto povo.

Arapiraca tem indústrias, intenso comércio, boas escolas e um polo educacional voltado para o ensino superior.

Arapiraca tem um polo educacional com boas escolas em todos os níveis de ensino. E, na área de saúde, bons profissionais, e consolidando um polo que, dentro em breve breve, será orgulho e referência em Alagoas,

Arapiraca tem exemplos de homens que deram certo, acreditando no trabalho, na ideia do empreendimento, na persistência de fazer, sem esquecer, sobretudo, o alcance social das empresas.

Arapiraca tem academia de letras, realizando na literatura, a beleza criadora da capacidade humana.

Se nos falta a praia, tão bela, a desafiar a humana natureza a compreender o mistério do mar e a imensidão insondável dos oceanos; temos, aqui, nas Arapiraca, de compreender, em sentimento humano limitado, a beleza dos campos, em brisa constante e em temperatura suave. Também, nos encanta, nesta terra de praças lindas, a capacidade criadora e trabalhadora deste povo, tão a acolhedor e que não discrimina. Somos um povo cordial, expressão usada por Sergio Buarque de Holanda, pai de Chico Buarque, em Raizes do Brasil, ao referir-se ao povo brasileiro. Os Arapiraquense constituem sim, um povo cordial.

A simplicidade desta cidade é seu ponto vital. A capacidade empreendedora é a energia que não falta; o reinventar-se na dinâmica do nunca desistir, é que a faz grande; a religiosidade da fé que não falha, a faz perene e religiosa; o conversar fácil e simples é a cordialidade que cativa. As vilas e povoados são belezas cativantes que nos alegram.

Está, aí, pois, o meu apego, meu amor, pela cidade onde respiro sereno olhando os verdejantes campos que me encantam. Satisfaço-me com a gente simples com que converso. Eis a razão de tanto amor e apego, só igualável aos filhos e netos em que me realizo, e na esposa compreensiva que me tolera. 


Publicado em 18/09/2020 às 10:27

Três anônimos

Em Arapiraca, de um passado recente, conheci três figuras do povo. Um deles, um homem circunspecto e de sorriso dócil, de meia idade, de origem alemã, não me recordo o nome, fotógrafo. Quando o encontrava, em batizados e em eventos festivos, sempre com sua máquina fotográfica, seu ganha pão, conversávamos um pouco. Ele sempre afável e solícito.

Sempre me perguntei, quem era aquele alemão, surgido ninguém sabe de onde, que morava só, em um hotel, na rua do comércio, que não tinha parentes, e que era de uma doçura incrível. Teria ele lutado na segunda guerra? Por que viera parar em Arapiraca? Ninguém sabia. Era um homem bom. Fotografava, simplesmente. Vivia disso. Todos gostávamos dele.

Tempos depois, sinto falta dele. Não mais fotografava. Para onde teria ido? Para onde foi, não sei. Por que foi embora, não sei. O alemão discreto, de sorriso dócil, de máquina fotográfica pendurada no pescoço, de fala mansa, de repente fora embora. Senti sua falta.

Um outro personagem, que falava inglês, alguns frases, sempre assim se apresentava, era o Rena, rei do Rango, e, como sempre, quando o encontrava, havia ingerido algumas cervejas, independentemente do dia ou da hora, e que se constituía em uma figura que fazia parte de Arapiraca, ainda não violenta e onde as pessoas se conheciam.

Rena, o Renato, excelente técnico de refrigeração, em passos trôpegos, voz embrulhada, com frases em inglês ininteligíveis, sempre se aproximava das pessoas, assim que as encontrava, independentemente do lugar e as beijava.

Renato, o Rena rei do rango, com seu falar embolado, seu inglês de frases feitas e não entendido, era um homem que, na simplicidade de sua existência, compôs a paisagem urbana, de um personagem único, de Arapiraca calma e interiorana. Bom homem. Gostava dele.

Um outro, este pouco conhecido, era um cidadão que me fazia lembrar, por sua regularidade com que passava no escritório do Dr. Batista, nos mesmos dias e horários, o acendedor de lampiões, da poesia de Jorge de Lima, “ o mesmo que vem infatigavelmente / parodiar o sol e associar-se à lua....

Epitácio, figura magra, esguia, de uns cinquenta anos, infatigavelmente, sem falhar, todos os dias, passava no escritório de Dr. Batista, entregando os jogos da loteria, dando o resultado, e, ainda, sem que jogássemos, por ser contravenção, anunciando o “bicho” do dia.

Ele ,Epitácio, anunciava a fortuna que nunca chegava. Propagava, com alegria, a esperança dos outros conquistar a riqueza. Será, hoje me pergunto, se ele tinha uma casa para morar?

Porém, notava que aquele homem, tão infatigável e tão regular, tão simples, e tão trabalhador, tinha uma felicidade que espargia e disseminava. Esperava a hora de sua chegada para absorver a sua magia da existência.

Três personagens. Homens do povo que, sem querer, me ensinaram cada qual com o seu jeito de existir. Minhas homenagens a essas figuras anônimas, esquecidas no tempo.


Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça 


Publicado em 24/08/2020 às 10:26

Bar do Paulo

Arapiraca, final dos anos 70, década dos anos 80, era uma cidade pujante, dinâmica, com uma juventude inquieta. A economia, baseada no “ouro verde”, movimentava todos os segmentos sociais. A cidade era alegre. O Clube dos fumicultores estava no auge. Eventos de artistas famosos. Bailes de formaturas. Casamentos da alta sociedade. Encontros políticos. Tudo era realizado no clube que era testemunha do movimento sócio político cultural de nossa urbe. O mural, naquele clube social, de Ismael Pereira, na narrativa estética da cultura fumageira, criado pelo artista famoso, também, testemunhava, o movimento da dinâmica sociedade de Arapiraca.

Neste ambiente efervescente, de uma sociedade inquieta, surge, ali na esquina da rua São Francisco, o famoso bar do Paulo. A juventude dourada corria àquele bar. O ambiente tornava-se pequeno. À noite ficava curta. Ocupavam-se as calçadas. O dono, o Paulo, era sorriso, compreensão, ouvido, generosidade.

Naquele bar, onde todos conversavam ao mesmo tempo. Paulo, com sua voz mansa, gestos educados, era dono e garçom, ouvinte atencioso, e tratava seus frequentadores chamando-os de filhos.

Paulo tinha todos os discos. Todos os cantores. Todos os ritmos. Atendia a todas as “tribos”. Ele comandava o som. Transmitia empatia. Era sorriso, compreensão, era o grande maestro da noite.

Às quartas feiras, movimento menor, sem a agitação saudável das sexta e sábado, ia ao seu bar para ouvir o Paulo e absorver sua sabedoria. Colocava uma música suave. Falava, antes, do intérprete e do compositor. Falávamos da vida. Enveredávamos pela literatura. À noite fluía. Saia de lá entorpecido pela bebida. Encantado pela música. Feliz pelo aprendizado.

No dia dos pais atendi um telefonema do Paulo que, com voz emocionada, falava comigo. Disse que leu um crônica minha que se referia a um poeta americano. Afirmei para ele que também me encontrava emocionado e que ele havia me proporcionado um grande presente. Mais uma vez aprendi com o Paulo.

A geração daquela época, saudável e inquieta, em busca do lazer e da compreensão do sentido da vida, encontrou naquele bar e na figura do Paulo, o ouvido que escutava, a fala que queria ouvir e a música que lhe acalmava o espírito.

Paulo é a simplicidade que encanta e a sensibilidade que comove. Seu bar e a sua figura fazem falta à geração atual. Naquela rua e esquina estão faltando o bar. Sinto falta da bulha alegre e daquela geração dourada. Daquela conversa e daquele aprendizado. Daquele frenesi e daquelas noitadas. Já não se fazem mais bar como aquele.


Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça
Fotos: Breno Airan