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Geraldo Magela Pirauá

Procurador de Justiça Aposentado e Conista


Publicado em 22/09/2021 às 12:57

Breves reflexões

A humanidade, em qualquer época de sua existência, sempre viveu tempos sombrios. Tempos de grande escuridão e terror. As guerras, tão comuns na trajetória da civilização, sempre trouxeram à humanidade grandes incertezas e intensos sofrimentos.

A idade contemporânea, que começou com a tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789, com a revolução francesa, início de uma nova era, com a mudança dos regimes absolutistas varrendo toda Europa, trouxe à humanidade, também, tempos sombrios, instalando-se o terror.

A primeira e a segunda guerra mundial, início e meados do século XX, foram tempos tormentosos. Dirigentes, de grandes nações à época, instalaram regimes ditatoriais, dizimando milhares de vida.

Os ideais iluminista, que impulsionaram a revolução francesa, e as mudanças de regimes, ora para o socialismo, caso da China e da Rússia, ora para o totalitarismo, caso da Alemanha e Itália, não trouxeram à humanidade, como propagavam, paz e prosperidade. Busca-se, ainda, o bem estar da humanidade.

Teorias econômicas surgem e, quando implantadas, não conseguem resolver os problemas que nos cercam.

O Estado, enquanto organizador da conivência do organismo social, é imprescindível. Porém, até que limite, dentro de parâmetros do que hoje se conhece por democracia, não interferindo na liberdade de expressão, de ir e vir, e garantindo, sobretudo, o direito à vida, implícito saúde, educação, segurança e oportunidades a todos, o Estado adotará. Entendo que os limites são os constitucionais, cabendo a corte suprema, quando acionada, dar sua interpretação. Assim funciona a democracia, e o seu aperfeiçoamento dar-se ao longo do tempo, através de mudanças na própria constituição, emanada do desejo do povo que, através do tempo, melhora seus valores, dele povo,

O momento atual, assolado por uma grave crise de saúde sanitária, com reflexos, nunca imaginados, em uma crise econômica sem precedentes, requer, de todos e, principalmente, dos líderes, muito equilíbrio e comando. Nos momentos de tormento, de crise, de dor, de angústia, de caminhos que se fecham, é que surgem, não tenham dúvidas, as grandes lideranças.

Com a revolução industrial, inaugurada pela Inglaterra nos século XVIII, com a introdução de máquinas e, posteriormente, as ideias revolucionárias do Iluminismo, era da razão, acreditou-se que o homem ao dominar os meios de produção e inovar na forma de auto governar-se teria, a partir daí, os problemas resolvidos. Ledo engano.

Os problemas continuam a desafiar. Os problemas de saúde, sobretudo. Novas doenças, novos vírus, novas bactérias, desafiam a inteligência humana, apesar de grandes progressos e inovações constantes. Sempre haverá doenças incuráveis e as infecto contagiosas, quando não existentes vacinas, geram pânico.

Quando as desigualdades sociais serão resolvidas. Quando haverá escolas para todos? empregos para todos? Acesso uniforme à saúde para todos? Não são problemas fáceis de serem resolvidos, mas que trará à humanidade uma grande sensação de bem estar. 


Publicado em 10/09/2021 às 07:51

O homem que ensinava pássaros

“Seu” Dominguinhos era um homem simples, calejado no trabalho, já passado dos setenta. Sua moradia, na saída de Arapiraca, era, também como ele, simples, porém aconchegante. Nos fundos da casa, há um terreno de algumas tarefas onde “seu” Domingos costumava enganar o tempo com alguns afazeres.

Fui à sua casa, acompanhado de seu filho, então Juiz de Direito em atividade, Dr. José Firmino de Oliveira, que até ali fora, como sempre fazia, dar, hoje já em desuso, a benção aos seus pais. Firmino, enquanto conversava com sua mãe, pediu-me que fosse olhar os cavalos, naquele terreno extenso, nos fundos da casa.

Fui caminhando até aquele local aprazível, observando cada planta, e antes de ver os cavalos manga larga, tão apreciados por todos nós em Arapiraca, visualizei “seu” Dominguinhos, sentado em uma cadeira, jogando alimentos aos pássaros que cantavam o canto alegre, onde natureza e vida se entrelaçavam no mistério da existência do mundo. Fiquei parado admirando e tocado por aquela cena. “ seu” Dominguinhos assoviava em atitude de completa satisfação. Era um homem pleno, realizado, em harmonia com a natureza e com Deus.

Perguntei, então, àquele homem, a mais tola das indagações: o que o senhor faz? a resposta, em sorriso ingênuo, surpreso com pergunta tão infantil, afirmou: “ensino esses pássaros a cantarem. Estão, cada vez mais estão cantando melhores” , arrematou. O seu assovio, pude perceber depois, era o de um homem que compreendia os pássaros e era compreendido por eles. Compreendia a natureza e era integrante dela. Grande lição. Grande aprendizado.

Essa história faz tempo. Esse homem educou seus filhos e os fez homens decentes e trabalhadores.

Eraldo, seu filho, homem de sorriso fácil e estrondosas gargalhadas, em Piranhas, quando seu irmão Dr. José Firmino, juiz de Direito, fora homenageado, contou a seguinte história: seu pai, o já mencionado Dominguinhos, o chamou e lhe deu a seguinte tarefa: Eraldo, meu filho, vá vigiar o galpão dos frangos. Leve esta espingarda. Está havendo roubo das aves. Eraldo, então de posse da arma, ia se retirando quando seu genitor lhe advertiu: “Eraldo, meu filho, se for um cidadão baixinho, de andar trôpego, e chapéu na cabeça, não atire. Por que pai, disse o apressado Eraldo. Não atire que deve ser o compadre Pedro, meu querido amigo, o ladrão.”

Sobre, ainda, a história dos frangos, Tarcizio Aureliano, amigo da família, conta: “Tarcizio, afirmava “seu” Domiguinhos, a melhor coisa do mundo é criar frangos. É negócio pra ficar rico”. Meses depois ele afirmava: “Tarcizio isto é negócio pra corno. Não quero mais saber de frangos. Quebra qualquer um”.

Ele era um típico homem nordestino. Carismático, alegre e bom. Sabia viver cada momento. Fazia da simples alegria contagiante da existência uma forma de vida.

Em cada filho sabia aonde havia chegado, na realização de sua existência.

Ao ensinar pássaros a cantarem, sabia entrar em sintonia com a natureza. Ao permitir que seus filhos aumentassem suas estórias, permitia-se amá-los e compreendê-los na harmonia da família.



“Seu” Dominguinhos reflete o homem do interior do Brasil. Acostumado às intempéries da vida, vivendo-a sem perder a fé e a esperança.

Certo dia Gilberto, grande rotariano, morto pelo vírus, acompanhado de Erivan, grande empresário de Arapiraca, foram à casa de “seu” Dominguinhos, olhar uns cavalos Manga Larga do Firmino, filho do Dominguinhos. Gilberto disse para o experiente cidadão: Trouxe aqui, “seu” Dominguinhos, este rapaz, o nome dele é Erivan. Quero ver se o senhor aprova para tratar dos cavalos. Não é preguiçoso. É trabalhador. O velho, experiente, passado na casca do angico, como se diz aqui no Nordeste, pediu para ver as mãos do Erivan. Ao ver as mãos sem calos, afirmou: “Este nunca tratou de cavalos. Este deve ser algum empresário. Nunca soube o que é trabalho braçal. Engane outro”.

Era assim “ seu” Dominguinhos, vivia as intempéries da vida com o espírito alegre do homem simples, satisfeito. Seus filhos sentem orgulho do pai que, quando vivo, viveu a luta, a alegria e a esperança. 


Publicado em 10/08/2021 às 06:16

OS ENGENHEIROS DO CAOS

Os engenheiros do caos, livro de Giuliano de Empoli, politólogo italiano, da editora vestígio, já na segunda edição 2020, traduzido por Arnaldo Bloch, o autor, com grande clareza didática, revela um quadro perturbador, na cena política internacional, onde todos estamos inseridos, inclusive o Brasil.

Ainda na introdução, Giuliano, no livro que recomendo, afirma: “os defeitos e vícios dos líderes populistas se transformam, em qualidades. Sua inexperiência é a prova de que eles não pertencem ao círculo corrompido das elites. Sua incompetência é vista como garantia de autenticidade. As tensões que eles produzem em nível internacional,e as fake News que balizam são a marca de sua liberdade de espírito “. Crítica contundente é bastante assertiva.

O autor, então, em introdução fantástica, de 32 páginas, prepara o leitor para as explicações que serão dadas em seis capítulos em que serão demonstradas a manipulação dos eleitores, através do Tweet, Facebook, e das redes sociais em geral, utilizando-se de algoritmos para atingir o público específico a a mensagem certa, na dosagem correta, pouco importando se verdadeira ou falsa. O importante é obter o resultado eleitoral.

Sobre fake news Giuliano de Empoli afirma: “contrariamente às informações verdadeiras, elas constituem um formidável fator de coesão” e ao citar um blogueiro americano menciona Mercius Moldbug : “Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade”, e arremata: “ acreditar no absurdo é uma questão de lealdade”. Fiquei, confesso, deveras assustado, as democracias correm perigo, concluí.

Li recentemente, antes da leitura dos engenheiros do caos, de Steven Levitsky e Daniel Ziblat, como as democracias morrem, com 56% da população sendo governada por governos democratas, atualmente em 105 países. São governos eleitos democraticamente e alguns forçam as grades de proteção que as protegem. São governos que se tornam autoritários após serem eleitos pelo voto popular. Vide Venezuela, por exemplo.

O falso, o impactante, a não verdade, no mundo moderno, no processo eleitoral, passam a ser instrumento usual para obtenção do voto. Usando os novos meios de comunicação, utilizando-se dos algoritmos na internet, atingindo-se os nichos que se deseja, escolhe-se a mensagem a ser disparada, na intensidade que o meio destinado almeja, alimentando-o constantemente. Unem-se os contrários na falsa idéia da unidade do coletivo.

Neste mundo onde tudo é mensurável e nossos gostos são acompanhados pelos smartphone, as informações nos chegam sob medida, muitas vezes criando, em cada um de nós, o medo, a angústia, com notícias falaciosas que nos fazem crer no absurdo. O ódio, como mensagem, chega em embalagem que nos envolve e atiça paixões.

As propostas em pleito eleitoral ficam reduzidas a segundo plano e o objetivo é a destruição da imagem do outro,semeando um clima de revolta, de medo e ódio. Que o diga o processo de escolha norte americano.

Valeu apenas ter parado a leitura de os irmãos Karamazov de Dostoiévski para ler os engenheiros do caos. Bom livro. 


Publicado em 02/08/2021 às 06:44

Três anônimos

Em Arapiraca, de um passado recente, conheci três figuras do povo. Um deles, um homem circunspecto e de sorriso dócil, de meia idade, de origem alemã, não me recordo o nome, fotógrafo. Quando o encontrava, em batizados e em eventos festivos, sempre com sua máquina fotográfica, seu ganha pão, conversávamos um pouco. Ele sempre afável e solícito.

Sempre me perguntei, quem era aquele alemão, surgido ninguém sabe de onde, que morava só, em um hotel, na rua do comércio, que não tinha parentes, e que era de uma doçura incrível. Teria ele lutado na segunda guerra? Por que viera parar em Arapiraca? Ninguém sabia. Era um homem bom. Fotografava, simplesmente. Vivia disso. Todos gostávamos dele.

Tempos depois, sinto falta dele. Não mais fotografava. Para onde teria ido?Para onde foi, não sei. Por que foi embora, não sei. O alemão discreto, de sorriso dócil, de máquina fotográfica pendurada no pescoço, de fala mansa, de repente fora embora. Senti sua falta.

Um outro personagem, que falava inglês, alguns frases, sempre assim se apresentava, era o Rena, rei do Rango, e, como sempre, quando o encontrava, havia ingerido algumas cervejas, independentemente do dia ou da hora, e que se constituía em uma figura que fazia parte de Arapiraca, ainda não violenta e onde as pessoas se conheciam.

Rena, o Renato, excelente técnico de refrigeração, em passos trôpegos, voz embrulhada, com frases em inglês ininteligíveis, sempre se aproximava das pessoas, assim que as encontrava, independentemente do lugar e as beijava.

Renato, o Rena rei do rango, com seu falar embolado, seu inglês de frases feitas e não entendido, era um homem que, na simplicidade de sua existência, compôs a paisagem urbana, de um personagem único, de Arapiraca calma e interiorana. Bom homem. Gostava dele.

Um outro, este pouco conhecido, era um cidadão que me fazia lembrar, por sua regularidade com que passava no escritório do Dr. Batista, nos mesmos dias e horários, o acendedor de lampiões, da poesia de Jorge de Lima, “ o mesmo que vem infatigavelmente / parodiar o sol e associar-se à lua....

Epitácio, figura magra, esguia, de uns cinquenta anos, infatigavelmente, sem falhar, todos os dias, passava no escritório de Dr. Batista, entregando os jogos da loteria, dando o resultado, e, ainda, sem que jogássemos, por ser contravenção, anunciando o “bicho” do dia.

Ele ,Epitácio, anunciava a fortuna que nunca chegava. Propagava, com alegria, a esperança dos outros conquistar a riqueza. Será, hoje me pergunto, se ele tinha uma casa para morar?

Porém, notava que aquele homem, tão infatigável e tão regular, tão simples, e tão trabalhador, tinha uma felicidade que espargia e disseminava. Esperava a hora de sua chegada para absorver a sua magia da existência.

Três personagens. Homens do povo que, sem querer, me ensinaram cada qual com o seu jeito de existir. Minhas homenagens a essas figuras anônimas, esquecidas no tempo. 


Publicado em 17/07/2021 às 19:36

DEBATE INÚTIL

Nos tempos atuais, de polaridade e animosidade, não se vê um debate de ideias, de princípios, de temas, antes, pelo contrário, discute-se o ódio, impõe-se ponto de vista, não se aceita, sequer como argumento, pensamento divergente.

Nega-se, confronta-se, contesta-se, todos, e, individualmente considerados, são donos de uma verdade empírica. A busca do consenso, ou o senso comum, como método de diálogo construtivo como ensina Platão, um dos maiores filósofos da humanidade, discípulo de Sócrates, cujas ensinamentos foram por este transmitido, foi totalmente esquecido. O senso comum, a busca do consenso, ou o diálogo educado, deixaram de existir.

Para alguns, e não são poucos, a dialética é erística, a de Schopenhauer, filósofo alemão, nascido no final do século XVIII, qual seja: a arte de vencer um debate sem precisar ter razão, mesmo que para isto usem sofismas. Para estes não importam a origem dos argumentos. Importam vencer. Não ouvem e às vezes usam como premissas ideias falsas. Querem ganhar no grito.

No ambiente de discussão política , o debate, enquanto busca de aprendizado recíproco, é inexistente. Não há, tenho observado faz algum tempo, dialética produtiva, bom senso, parcimônia. Há gritos querendo impor ideias, lembrando, por pertinente, a dialética erística do filósofo alemão.

O mundo moderno, que se iniciou com o Iluminismo , era da razão, trouxe novas tecnologias, avançando com a revolução francesa, assumindo as ideias libertárias, trazendo à humanidade nova forma de governo, e a revolução industrial, deram ao homem uma nova forma de vida e de pensar. Novos costumes, nova maneira de dominação e, sobretudo, novidades , sobretudo , na arte de fazer a guerra.
Trouxe, também, a nós seres humanos, neste processo contínuo civilizatório, na modernidade da comunicação, algo ainda recente, que é a maneira de impor nossos argumentos.

As discussões, neste ambiente moderno, não obedecem padrões. Vale tudo para obter apoiadores. As ideias são expostas e não se admite, sob hipótese nenhuma, discordância. Se abandonou o senso do ridículo. O que se deseja é o confronto. A negação do óbvio. Todos sao portadores de uma “verdade”, frutos de crença e de monomania.

Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira, tinha razão que: “O difícil não é conviver com as pessoas, o difícil é compreendê-las”. Portanto, assim, como afirma o famoso escritor português, nascido em 1922 e morto em 2010, o difícil é compreendê-las, neste mundo em constante evolução e ebulição, dominado pelo egoísmo e prepotência.

O debate, quando feito com humildade, com escopo, com mediação, e sem ideias pré-concebidas, partindo de premissas e argumentos lógicos, é enriquecedor para todos, sem distinção .

O debate político é tão necessário e indispensável à natureza humana porque nele se encontra a governança dos povos. Deve ser feito com critério e sem preconceitos, com equilíbrio e temperança.

O momento é de reflexão, de boas leituras, de falar pouco e ouvir muito. De ler os filósofos antigos. Ter suas ideias e não verdades definitivas e de compreender as pessoas, mesmo sendo difícil, na sábia lição de Saramago. 


Publicado em 03/06/2021 às 06:15

Os Miseráveis

Um poeta inglês do século XVI, Abraham Cowley, afirmou: "a vida é uma doença incurável". Não, não concordo com o bardo. Viver, para muitos, é uma dor insuportável. É um sofrer constante. A existência, para uma razoável parcela da população, é miséria absoluta, é abandono completo, é desumanizada em sua expressão mais plena.

Os moradores de rua, não os concebo sem teto, sob uma marquise, aos rigores do fito, e na incerteza do alimento. Em alguns casos com mulher e filhos. Sei, e não olvido, que alguns movimentos sociais, religiosos e não religiosos, minimizando a miséria, levam o agasalho e o alimento, em conduta louvável de compaixão. Porém, a dor continua, a dignidade humana, em sua forma de vida, me parece inexistir.

Há outros, que na rua se encontram, destituídos do sentido da existência, dominados por drogas, perambulando feitos zumbis, escravos do vício e do tráfico, andando sem destinos, na miséria total. Onde, às vezes me pergunto, a civilização falhou? Ainda há os pobres que moram em habitações improvisadas, que trabalham em subempregos, que não ganham o suficiente. Há os que, ainda, praticam a mendicância, como forma de sobreviver.

Miséria e pobreza produzam um quadro de asfixia social. São objetos de estudos e decisões políticas. Que fazer, então, para a vida não ser uma dor permanente, a miséria e a pobreza não serem uma chaga social? O poder político, ambição maior do ser humano, deve ser exercido com firmeza e altruísmo. Fixando suas diretrizes, olhando a nação como um todo, objetivando erradicar esses desníveis sociais.

Não concebo uma nação onde ainda se vê miseráveis. Eles estão sob marquises, debaixo de viadutos, em prédios abandonados, perambulando em buscas de alimentos. Eles vivem em dor permanentes, completamente desassistidos.

Há uma falha, na existência da miséria, em seu sentido absoluto. Falhou o poder público na política de desenvolvimento, em todos os campos de sua atuação. Continua falhando o poder público, na ausência de uma assistência eficaz, ao vê-los sob marquises e viadutos, em sofrimento e dor.

Há muitas dores que podem ser evitadas, não todas. O sofrimento faz parte do existir humano. Mas esta do desamparo, da ausência eficaz do estado, de famílias em viadutos e marquises, da fome, em sua forma mais bruta, pode e deve ser combatida, não só pelos gestos solidários de organizações e pessoas, mas sobretudo pela ação planejada de decisões políticas.

A miséria nunca deveria existir. A miséria dói. A miséria talvez de tão doida, dor tão forte e inexplicável, quiçá não doa mais. Torna-se, com o passar do tempo, uma paisagem que compõe a dor natural do existir. Não concordo. É dor que não passa.
 


Publicado em 14/05/2021 às 19:02

Democracia

Os partidos políticos, como catalisadores de líderes, devem, principalmente os grandes, observar aqueles com tendências de caudilho, evitando consequências

Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça Aposentado e Conista

Na idade moderna, iniciada no final do século quinze, a grande maioria dos povos era governada por teocratas que, em nome de Deus, exerciam o absolutismo. A monarquia, portanto, enquanto forma de governo, dominava o mundo de então. Governos autoritários e detentores de poderes absolutos. Só existiam quatro estamentos sociais: a realeza, a nobreza, o clero e o povo. O povo, coitado do povo, pagava pesados impostos para manter os privilégios dos demais.

Foi nesta fase, no entanto, de intenso sofrimento humano, de poder total dos governantes, na idade moderna, que surgiram os grandes pensadores, denominados iluministas, como John Locke (1632/1704), Rousseau (1712/1778) e Montesquieu 1689/1755), dentre outros, trazendo à realidade nova forma de pensar, novo olhar dos povos serem governados. Daí surgiu, então, o novo modelo de Estado, até então desconhecido, diminuindo sensivelmente os poderes das cabeças coroadas até culminar com a revolução francesa. Neste soprar de novos tempos poucas monarquias sobreviveram na Europa, e assim mesmo, todas, sem exceção, tiveram que se refazer, passando apenas a serem símbolos de poder. O sistema de governo na forma monárquica, existentes na Europa, é parlamentarista, cabendo ao político eleito como representante do povo governá-lo, ouvindo os demais partidos, na figura do primeiro ministro.

A democracia, que é governo do povo e para o povo, com liberdade de expressão e direitos constitucionais garantidores de fundamentais, em 1985, segundos estudos, recentemente publicados pelo professor Jairo Nicolau, em prefácio do livro Como as democracias morrem, apenas 42 países a praticavam, correspondente a 20% da população mundial, e em 2015 eram 103 países, com 56% da população mundial.

Tenho, nos últimos dias, face aos últimos acontecimentos, me debruçado não só em noticiários, mas em leituras sobre o que anda ocorrendo no mundo. Existem, isto é evidente, surtos autoritários, oriundos de governos democraticamente eleitos, que, praticando um nacionalismo populista, vão minando, com o aplauso do próprio povo, a legislação democrática, para impor-se como chefe permanente de governo.

Os poderes, pensados por Montesquieu, tão indispensáveis e necessários à democracia, precisam, sobretudo, serem exercidos por moderados que, quando os conflitos surgirem, sejam de natureza social ou não, ajam seus dirigentes como garantidores da paz social, preservando os valores fundamentais duramente conquistados dentro de um processo histórico.

Os partidos políticos, como catalisadores de líderes, devem, principalmente os grandes, observar aqueles com tendências de caudilho, evitando consequências à democracia. Urge, pois uma boa reforma política. Democracia dá trabalho, mas é o melhor dos regimes políticos. 


Publicado em 09/05/2021 às 10:40

PADRE JOSÉ

Lendo o clássico da literatura universal, os miseráveis, de Vítor Hugo, romance escrito em meados do século XIX, após a revolução francesa, deparei-me, logo no início da extraordinária obra de ficção, com Bienvenu Myriel, bispo de Digne, região montanhosa.

A autoridade episcopal, apesar de ter bons rendimentos anuais, distribuia-os entre os pobres de sua diocese. Sua casa, sede de sua autoridade eclesiástica, mantinha a porta sempre aberta, mesmo durante o seu repouso noturno, preocupado que os necessitados precisassem de ajuda. Recolhia dos ricos, a quem sempre pedia, distribuía com os miseráveis, a quem sequer perguntava os nomes para não constrangê-los. Dedicava seu tempo com os necessitados, enfermos e os aflitos e o que lhe sobrava de tempo cavava o seu jardim, lia e orava.

Afirmava o bispo Myriel que: “ ser santo é uma exceção; a regra é ser justo. Errem, caiam, pequem, mas sejam justos”. E ao falar sobre a carne, grande tentação, afirmou: “ ao cair , caia de joelho , que pode terminar em oração.

Ao fazer esta leitura, do célebre escritor francês que no Brasil influenciou José de Alencar, Machado de Assis e Castro Alves, lembrei-me de Padre José, um cura dedicado aos pobres, aflitos e miseráveis. Padre José, natural Bélgica, era pároco de Craíbas, região do agreste e cidade próxima de Arapiraca.

Vestia-se em trajes muito simples e calçava sandálias para lhe proteger os pés de longas caminhadas. Possuía um carro velho. Os adolescentes, principalmente infratores, não os desamparava, e, ao seu modo, com extraordinário esforço, procurava compreendê-los e assisti-los. Pedia por eles e para eles.

Falava com forte sotaque. Sua voz, as vezes era ininteligível. Não tinha grande estrutura. Ajudava aos desassistidos por determinação pessoal, demonstrando grande generosidade.

Nunca mais o vi. Acredito ter voltado para a Bélgica, país de primeiro mundo. Não sei, também, se mudou de diocese. Às vezes, me pergunto, que ideais levam um ser humano abandonar o conforto e a segurança de um país desenvolvido para assistir os desvalidos de um outra nação. Não encontro resposta a não ser que movido pelo transcendental, busque no divino o objetivo de sua missão.

Estender a mão, abster-se de qualquer conforto, sofrer a dor do próximo, quando, nós, os humanos, lutamos dia e noite, para nos vencer com nossos egoísmos, tão arraigados em nossos eus. Servir ao próximo, pois, neste sentimento egoístico que nos move, sem objetivar interesses, é tarefa para poucos.

Ser justo, muitas vezes não é fácil, neste mundo de complexos interesses; ser generoso, na acepção plena do significado, é reservado para seres que encontram no transcendente a razão do existir. São movidas pelo amor e pela oração. Encontram na caridade o motivo e o significado da existência. 


Publicado em 07/05/2021 às 11:17

CALÇADA DA FAMA DO BAR DO IRAQUE

OIraque, país do oriente médio, lugar onde ocorreu os primórdios da civilização, povo guerreiro e indócil, cheios de conflitos e guerras, é o nome, acreditem, aqui na capital do agreste, Arapiraca, de um bar, que os amigos assim o denominaram, onde todos os sábados, os exceção deste período pandêmico, para extravasar amizade, ouvir a boa música, cantada e tocada por eles, praticando a harmonia que os fazem esquecer as tensões quotidianas.

Michel de Montaigne, 1533-1592, filósofo francês, inspirador de pensadores iluministas, em seu festejado livro “ensaios”, dentre os vários assuntos,tais como: da covardia, do medo, da tristeza, dos ódios e das afeições, também abordou, dentre outros, a amizade.

O grande pensador francês do século XVI, afirma: “ É verdade que a amizade assinala o mais alto ponto de perfeição da sociedade”. E arremata o grande filósofo: “O calor da amizade estende-se a todo o nosso ser; é geral e igual; temperada e amena; soberanamente suave e delicada, nada tem de áspero nem de excessivo. O amor é antes de mais nada um desejo violento do que nos escapa: como o caçador perseguindo a lebre, no frio e no calor, por montanhas e vales; desdenha-a ao alcançá-la e só a deseja enquanto a persegue na fuga”.

Volto ao Iraque, ao bar, tosco, sem atrativos, lembrando um venda do antanho; seus donos sempre alegres, felizes e cordiais. É na calçada do Iraque, localizado em bairro simples, de nome sugestivo, Brasília, que poucos amigos, movidos por violão e encantados pelas vozes, se encontram para ouvir-se. Conheço-os e são praticantes da velha e boa amizade. Da amizade de que fala o filósofo.

Vou eventualmente ao bar do Iraque para sentir a beleza da amizade. Receber a energia saudável do encontro. Observar, ainda que de forma empírica, que a amizade existe. Ali eles cantam, riem, conversam, se respeitam, e sentem a alegria da existência. Não exigem lealdade, porque a vivem na leveza da vida.

Sim, a amizade é possível e existe. É diferente do amor, neste existe a possessão, o controle, o domínio, o ciúme. A amizade é temperada e suave, como disse o filósofo.

Eles, os amigos do Iraque, não se exigem, nem se cobram, todos se doam no gesto simples de se fazerem bem um ao outro, pelo simples fato do encontro, do encantamento de se encontrarem.

São de variadas profissões, de situações de vida diferentes, de segmentos sociais diversos, mas que encontram na música, nos temperamentos de cada um, a suavidade que os mantém harmônicos, praticando a amizade que a maioria das pessoas, movidas pelo imediatismo de interesses não conseguem achar. O interssse deles, na amizade, o simples fato dela existir e o fazerem felizes.

Vinicius de Moraes, compositor e poeta, inveterado fazedor de amigos, sabia,como ninguém, o significado da amizade. Ela era o fator indispensável de sua genialidade.

No Iraque, na calçada poética de um bar que existe para eles: Adailton Reis, Denis, Lula santana, Lula Mendes, Rutemberg, Rolemberg, Fernando Alegria, Mauricio Fernandes, Benício, Sérgio,e outros que eventualmente se juntam, praticam, na leveza de suas existências, a amizade benéfica e transcendental do existir humano, vivida por poucos e propalada por muitos. 


Publicado em 26/03/2021 às 08:08

PEDRO CAVALCANTI NETO, O PROFESSOR

Ainda bastante jovem, solteiro, terminando o Curso jurídico, conheci “seu” Pedro Cavalcanti, titular do cartório de protesto de títulos e documentos, da cidade de Arapiraca. Homem simples, generoso, cordial, dir-se-ia humano, radicalmente humano. Nos chamava a todos, indistintamente, de professor.

“Seu” Pedro Cavalcanti era um mestre, sim, da sabedoria e do viver. Parcimonioso, ouvia com paciência e muita atenção. Mas aquele homem sempre solicito nos dava a lição da humildade quando nos tratava de professor. Ele que ensinava, no ação e no gesto, dizia aprender.

Era espírita e, portanto, na busca perene do melhoramento, buscava em Jesus, espírito de luz, o exemplo do existir.

No cartório, no trato diário com o público e serventuários, advogados, promotores e juízes, era um exemplo de competência, responsabilidade e humildade. Buscava, na dimensão humana de seu existir, e no compromisso inarredável do fazer o melhor, e nos limites da responsabilidade do cargo, atender com presteza e humanismo.

Não sei, se depois de morto, aquele homem exemplo de vida e honradez, foi homenageado na cidade que dela nunca se afastou. Não conheço prédio público, quer estadual ou municipal, tributando, em Arapiraca, alguma homenagem àquele ilustre homem do povo e serventuário da justiça.

Deus me deu a imensa alegria de, na condução de Promotor de Justiça, aprender, ainda muito jovem, as lições da vida, da generosidade, do amor, da caridade, da cordialidade, com este cidadão Pedro Cavalcanti Neto, que nos chamava de professor.

Amigo de todos. Não criava impasses. Não tinha conflitos. Não participava de partidos políticos. Todos o respeitavam. Era um mestre na arte do diálogo. Escutava com prazer. Orientava com profundo respeito. Exercia seu ofício com extrema responsabilidade. Foi um exemplo de homem. Propagava o amor. Praticava a paz.

Arapiraca ainda há de lhe tributar a homenagem a um homem que viveu no bem e para o bem.

Fomos amigos, apesar da diferença de idade. Nos intervalos das audiências gostava de ouvi-lo. Ouvir as lições de um homem desprendido, crente em Deus e adepto da caridade. Quando usava a palavra professor, demonstrando humildade, eu tinha convicção que estava diante de um mestre da vida a nos ensinar.

Assim era o mestre Pedro Cavalcanti, o mestre da vida. Ensinando a todos, independente de classe social, a beleza da vida, e que ser bom é o destino que nos leva a Deus. 


Publicado em 27/11/2020 às 12:00

O Senadinho do bar do Né

Todos os sábados, exceto na pandemia, mal que assola o mundo, um grupo heterogêneo, constituído por vários segmentos do extrato social, se reúne, para uma cervejinha, na calçada do bar do Né. São comerciantes, corretores, representantes comerciais, e outros, para, através da boa prosa, estabelecer laços e discutir ideias.

A conversa é aberta, franca. Fala-se de tudo: de música, de futebol e política. De velhos amigos que se foram. Fala-se da cidade de ontem, com a beleza da época e dos homens que a fizeram; como a de hoje, bonita, bela, violenta, moderna, e ainda tão carente de algo que nos torne mais satisfeitos. Concordamos, todos, que gostamos e amamos esta cidade.

A calçada do Né, cuja frequência no qual me incluo, é o centro nervoso onde gera ideias e paixões, movidas pela nobreza de sentimentos de cada um, gerando, por conseguinte, a solidariedade uniforme, a amizade consistente, fazendo, não tenho dúvida, o ambiente saudável que faz bem a saúde dos que a frequentam.

O falar alto, o rir, o satirizar, a jocosidade, o ser grulha, naquele ambiente de pessoas diferentes e convergentes, é o ponto ideal para as tardes de sábado.

O Né, dono do bar, que dificilmente ri, é carismático, em que pese ser carrancudo. O Né, com suas frases curtas, diretas e sem procurar agradar, é fantasticamente, por paradoxal que seja, uma pessoa encantadora. Todos nos sentimos em casa.

O “senadinho” do bar do Né, onde sou suplente e aluno, tem lugar para todos. Todos falam e todos ouvem. Não há sábios, nem ignorantes. Lá, há homens sedentos para ouvir e falar, concordar e discordar, buscando, e o fazem como ninguém, a preservação da amizade como bem maior da existência humana.

Aprendo, naquela calçada, aos sábados, que não há sábios, nem intelectuais, nem ignorantes, dentre os seres humanos; todos somos sábios e ignorantes, dependendo da experiência de cada um naquilo que faz e diz.

O bar do Né, lugar rústico e simpático, familiar e sinérgico, faz parte da paisagem cultural de Arapiraca. Cuidado pelos seus donos, é ponto obrigatório dos que desejam uma culinária caseira. Não há luxo. Há acolhimento. Não são rudes, são naturais. O cardápio e sucinto, sem mistério. A comida é boa. Porém, a sua calçada, aos sábados, é outra coisa. Nela, todos nós, com as nossas idiossincrasias nos reunirmos e nos entendemos.

Aprendo, naquela calçada, que estar feliz custa tão pouco. Tudo regado a boa cerveja e galinha de capoeira. Os “ senadores”, que são representantes de si próprio e de suas ideias, são amantes da boa cerveja, do bom tira gosto, da boa amizade, e da alegria de viver. São Gilberto Fernandes, Jadelson Vital, Tourinho, Regis,Edinho,Felício, Rogério lima, Hagamenon Júnior, Toninho Cancha,Normando Campos, Valderi Carvalho, Van Ernesto, Flávio Pereira, Luís Alexandre e Genival Silva, Forinho, quando vem de Maceió, e outros saudosistas.


 


Publicado em 23/10/2020 às 13:28

A política

A política, em uma expressão mais singela, é quem conduz o estado, enquanto nação e ente federativo. Seja qual a forma de governo: monarquia ou república ou o regime escolhido: presidencialismo ou parlamentarismo. A obsessão humana pelo exercício do poder sempre será enorme, quem o exerce dele não quer mais se afastar.

Sempre, na história da humanidade, no exercício do poder, às traições, o uso da força, e a a perpetuação, foram sempre usadas por quem os detinha.

Apesar de sua origem ser na Grécia, surgida como fruto de uma crise, a democracia surge no mundo contemporâneo, rompendo com os governos teocrático, que se supunha de origem divina, trazendo ao povo, que não participava do processo político, o direito de escolher quem iria governa-lo.

Criado, por inspiração de Montesquieu, a teoria dos três poderes, adotada hoje por inúmeros países, criando freios e contra pesos, afastando o absolutismo então vigorante, buscava um governo justo e em equilíbrio.

Neste cenário surgem, no mundo contemporâneo, às democracias, sejam em regimes monárquicos, afastando o absolutismo, seja no presidencialismo, todos amparados nos três poderes harmônicos e independentes.

A metade dos países existentes adotam a democracia, buscando, sobretudo o revezamento do quem exerce o poder.

No entanto, a democracia por si só, senão observada uma vigilância rigorosa e partidos bem estruturados, com uma legislação que os defina de forma a protegê-los de aventureiros, ela poderá ser a ameaçada.

Em alguns países do mundo as democracias, por descuido, exemplo do Chile, do Perú, tiveram, em recente fato histórico, seus governantes eleitos pelo povo, transformados em líderes autoritários.

Os demagogos, sejam de direita ou de esquerda, tornam-se líderes populares usando o discurso de massas, mas no fundo buscam interesses próprios e desejam perpetuar-se no poder.

A democracia, caso não tenha mecanismo próprios previstos em lei, a começar da norma constitucional, que a proteja de aventureiros, sempre haverá risco de algum aventureiro autocrático, travestido de líder popular, exercer o poder.

Mister se faz que as intuições estejam sempre vigilante. A democracia, como dizia Ulisses Guimarães, é o preço da eterna vigilância. 


Publicado em 01/10/2020 às 16:05

ARAPIRACA

Perguntaram, faz algum tempo, porque tenho tanto apego a Arapiraca. Arapiraca, dizia a pessoa, incomodado com meu amor, não tem as belas praias de Maceió, nem o comércio, nem as noitadas da bela capital. Sim, não tem, respondi, mas tem o lago que aprecio, o trabalho que desejo, o sossego que quero, os campos que me fazem sereno, que embelezam o meu olhar e acalmam o meu espírito, o povo simples com quem com converso minha prosa sem pressa e descontraído. Arapiraca, ainda tem, o bar do Né, simples e acolhedor, tem, também, o caldinho da Canafístula e o famoso arroz de tempero do Aluízio.

Sim, tem o ASA, que faz a emoção do povo, em uma fé perene de campeão. Tem a história de Manoel André, nunca esquecida; tem a cultura do pastoril, tradição que não morre; tem o canto dos jovens cantores e cantoras que na voz de Nelsinho e na arte de biribinha nos elevam enquanto povo.

Arapiraca tem indústrias, intenso comércio, boas escolas e um polo educacional voltado para o ensino superior.

Arapiraca tem um polo educacional com boas escolas em todos os níveis de ensino. E, na área de saúde, bons profissionais, e consolidando um polo que, dentro em breve breve, será orgulho e referência em Alagoas,

Arapiraca tem exemplos de homens que deram certo, acreditando no trabalho, na ideia do empreendimento, na persistência de fazer, sem esquecer, sobretudo, o alcance social das empresas.

Arapiraca tem academia de letras, realizando na literatura, a beleza criadora da capacidade humana.

Se nos falta a praia, tão bela, a desafiar a humana natureza a compreender o mistério do mar e a imensidão insondável dos oceanos; temos, aqui, nas Arapiraca, de compreender, em sentimento humano limitado, a beleza dos campos, em brisa constante e em temperatura suave. Também, nos encanta, nesta terra de praças lindas, a capacidade criadora e trabalhadora deste povo, tão a acolhedor e que não discrimina. Somos um povo cordial, expressão usada por Sergio Buarque de Holanda, pai de Chico Buarque, em Raizes do Brasil, ao referir-se ao povo brasileiro. Os Arapiraquense constituem sim, um povo cordial.

A simplicidade desta cidade é seu ponto vital. A capacidade empreendedora é a energia que não falta; o reinventar-se na dinâmica do nunca desistir, é que a faz grande; a religiosidade da fé que não falha, a faz perene e religiosa; o conversar fácil e simples é a cordialidade que cativa. As vilas e povoados são belezas cativantes que nos alegram.

Está, aí, pois, o meu apego, meu amor, pela cidade onde respiro sereno olhando os verdejantes campos que me encantam. Satisfaço-me com a gente simples com que converso. Eis a razão de tanto amor e apego, só igualável aos filhos e netos em que me realizo, e na esposa compreensiva que me tolera. 


Publicado em 18/09/2020 às 10:27

Três anônimos

Em Arapiraca, de um passado recente, conheci três figuras do povo. Um deles, um homem circunspecto e de sorriso dócil, de meia idade, de origem alemã, não me recordo o nome, fotógrafo. Quando o encontrava, em batizados e em eventos festivos, sempre com sua máquina fotográfica, seu ganha pão, conversávamos um pouco. Ele sempre afável e solícito.

Sempre me perguntei, quem era aquele alemão, surgido ninguém sabe de onde, que morava só, em um hotel, na rua do comércio, que não tinha parentes, e que era de uma doçura incrível. Teria ele lutado na segunda guerra? Por que viera parar em Arapiraca? Ninguém sabia. Era um homem bom. Fotografava, simplesmente. Vivia disso. Todos gostávamos dele.

Tempos depois, sinto falta dele. Não mais fotografava. Para onde teria ido? Para onde foi, não sei. Por que foi embora, não sei. O alemão discreto, de sorriso dócil, de máquina fotográfica pendurada no pescoço, de fala mansa, de repente fora embora. Senti sua falta.

Um outro personagem, que falava inglês, alguns frases, sempre assim se apresentava, era o Rena, rei do Rango, e, como sempre, quando o encontrava, havia ingerido algumas cervejas, independentemente do dia ou da hora, e que se constituía em uma figura que fazia parte de Arapiraca, ainda não violenta e onde as pessoas se conheciam.

Rena, o Renato, excelente técnico de refrigeração, em passos trôpegos, voz embrulhada, com frases em inglês ininteligíveis, sempre se aproximava das pessoas, assim que as encontrava, independentemente do lugar e as beijava.

Renato, o Rena rei do rango, com seu falar embolado, seu inglês de frases feitas e não entendido, era um homem que, na simplicidade de sua existência, compôs a paisagem urbana, de um personagem único, de Arapiraca calma e interiorana. Bom homem. Gostava dele.

Um outro, este pouco conhecido, era um cidadão que me fazia lembrar, por sua regularidade com que passava no escritório do Dr. Batista, nos mesmos dias e horários, o acendedor de lampiões, da poesia de Jorge de Lima, “ o mesmo que vem infatigavelmente / parodiar o sol e associar-se à lua....

Epitácio, figura magra, esguia, de uns cinquenta anos, infatigavelmente, sem falhar, todos os dias, passava no escritório de Dr. Batista, entregando os jogos da loteria, dando o resultado, e, ainda, sem que jogássemos, por ser contravenção, anunciando o “bicho” do dia.

Ele ,Epitácio, anunciava a fortuna que nunca chegava. Propagava, com alegria, a esperança dos outros conquistar a riqueza. Será, hoje me pergunto, se ele tinha uma casa para morar?

Porém, notava que aquele homem, tão infatigável e tão regular, tão simples, e tão trabalhador, tinha uma felicidade que espargia e disseminava. Esperava a hora de sua chegada para absorver a sua magia da existência.

Três personagens. Homens do povo que, sem querer, me ensinaram cada qual com o seu jeito de existir. Minhas homenagens a essas figuras anônimas, esquecidas no tempo.


Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça 


Publicado em 24/08/2020 às 10:26

Bar do Paulo

Arapiraca, final dos anos 70, década dos anos 80, era uma cidade pujante, dinâmica, com uma juventude inquieta. A economia, baseada no “ouro verde”, movimentava todos os segmentos sociais. A cidade era alegre. O Clube dos fumicultores estava no auge. Eventos de artistas famosos. Bailes de formaturas. Casamentos da alta sociedade. Encontros políticos. Tudo era realizado no clube que era testemunha do movimento sócio político cultural de nossa urbe. O mural, naquele clube social, de Ismael Pereira, na narrativa estética da cultura fumageira, criado pelo artista famoso, também, testemunhava, o movimento da dinâmica sociedade de Arapiraca.

Neste ambiente efervescente, de uma sociedade inquieta, surge, ali na esquina da rua São Francisco, o famoso bar do Paulo. A juventude dourada corria àquele bar. O ambiente tornava-se pequeno. À noite ficava curta. Ocupavam-se as calçadas. O dono, o Paulo, era sorriso, compreensão, ouvido, generosidade.

Naquele bar, onde todos conversavam ao mesmo tempo. Paulo, com sua voz mansa, gestos educados, era dono e garçom, ouvinte atencioso, e tratava seus frequentadores chamando-os de filhos.

Paulo tinha todos os discos. Todos os cantores. Todos os ritmos. Atendia a todas as “tribos”. Ele comandava o som. Transmitia empatia. Era sorriso, compreensão, era o grande maestro da noite.

Às quartas feiras, movimento menor, sem a agitação saudável das sexta e sábado, ia ao seu bar para ouvir o Paulo e absorver sua sabedoria. Colocava uma música suave. Falava, antes, do intérprete e do compositor. Falávamos da vida. Enveredávamos pela literatura. À noite fluía. Saia de lá entorpecido pela bebida. Encantado pela música. Feliz pelo aprendizado.

No dia dos pais atendi um telefonema do Paulo que, com voz emocionada, falava comigo. Disse que leu um crônica minha que se referia a um poeta americano. Afirmei para ele que também me encontrava emocionado e que ele havia me proporcionado um grande presente. Mais uma vez aprendi com o Paulo.

A geração daquela época, saudável e inquieta, em busca do lazer e da compreensão do sentido da vida, encontrou naquele bar e na figura do Paulo, o ouvido que escutava, a fala que queria ouvir e a música que lhe acalmava o espírito.

Paulo é a simplicidade que encanta e a sensibilidade que comove. Seu bar e a sua figura fazem falta à geração atual. Naquela rua e esquina estão faltando o bar. Sinto falta da bulha alegre e daquela geração dourada. Daquela conversa e daquele aprendizado. Daquele frenesi e daquelas noitadas. Já não se fazem mais bar como aquele.


Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça
Fotos: Breno Airan