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Geraldo Magela Pirauá

Procurador de Justiça 


Publicado em 23/10/2020 às 13:28

A política

A política, em uma expressão mais singela, é quem conduz o estado, enquanto nação e ente federativo. Seja qual a forma de governo: monarquia ou república ou o regime escolhido: presidencialismo ou parlamentarismo. A obsessão humana pelo exercício do poder sempre será enorme, quem o exerce dele não quer mais se afastar.

Sempre, na história da humanidade, no exercício do poder, às traições, o uso da força, e a a perpetuação, foram sempre usadas por quem os detinha.

Apesar de sua origem ser na Grécia, surgida como fruto de uma crise, a democracia surge no mundo contemporâneo, rompendo com os governos teocrático, que se supunha de origem divina, trazendo ao povo, que não participava do processo político, o direito de escolher quem iria governa-lo.

Criado, por inspiração de Montesquieu, a teoria dos três poderes, adotada hoje por inúmeros países, criando freios e contra pesos, afastando o absolutismo então vigorante, buscava um governo justo e em equilíbrio.

Neste cenário surgem, no mundo contemporâneo, às democracias, sejam em regimes monárquicos, afastando o absolutismo, seja no presidencialismo, todos amparados nos três poderes harmônicos e independentes.

A metade dos países existentes adotam a democracia, buscando, sobretudo o revezamento do quem exerce o poder.

No entanto, a democracia por si só, senão observada uma vigilância rigorosa e partidos bem estruturados, com uma legislação que os defina de forma a protegê-los de aventureiros, ela poderá ser a ameaçada.

Em alguns países do mundo as democracias, por descuido, exemplo do Chile, do Perú, tiveram, em recente fato histórico, seus governantes eleitos pelo povo, transformados em líderes autoritários.

Os demagogos, sejam de direita ou de esquerda, tornam-se líderes populares usando o discurso de massas, mas no fundo buscam interesses próprios e desejam perpetuar-se no poder.

A democracia, caso não tenha mecanismo próprios previstos em lei, a começar da norma constitucional, que a proteja de aventureiros, sempre haverá risco de algum aventureiro autocrático, travestido de líder popular, exercer o poder.

Mister se faz que as intuições estejam sempre vigilante. A democracia, como dizia Ulisses Guimarães, é o preço da eterna vigilância. 


Publicado em 01/10/2020 às 16:05

ARAPIRACA

Perguntaram, faz algum tempo, porque tenho tanto apego a Arapiraca. Arapiraca, dizia a pessoa, incomodado com meu amor, não tem as belas praias de Maceió, nem o comércio, nem as noitadas da bela capital. Sim, não tem, respondi, mas tem o lago que aprecio, o trabalho que desejo, o sossego que quero, os campos que me fazem sereno, que embelezam o meu olhar e acalmam o meu espírito, o povo simples com quem com converso minha prosa sem pressa e descontraído. Arapiraca, ainda tem, o bar do Né, simples e acolhedor, tem, também, o caldinho da Canafístula e o famoso arroz de tempero do Aluízio.

Sim, tem o ASA, que faz a emoção do povo, em uma fé perene de campeão. Tem a história de Manoel André, nunca esquecida; tem a cultura do pastoril, tradição que não morre; tem o canto dos jovens cantores e cantoras que na voz de Nelsinho e na arte de biribinha nos elevam enquanto povo.

Arapiraca tem indústrias, intenso comércio, boas escolas e um polo educacional voltado para o ensino superior.

Arapiraca tem um polo educacional com boas escolas em todos os níveis de ensino. E, na área de saúde, bons profissionais, e consolidando um polo que, dentro em breve breve, será orgulho e referência em Alagoas,

Arapiraca tem exemplos de homens que deram certo, acreditando no trabalho, na ideia do empreendimento, na persistência de fazer, sem esquecer, sobretudo, o alcance social das empresas.

Arapiraca tem academia de letras, realizando na literatura, a beleza criadora da capacidade humana.

Se nos falta a praia, tão bela, a desafiar a humana natureza a compreender o mistério do mar e a imensidão insondável dos oceanos; temos, aqui, nas Arapiraca, de compreender, em sentimento humano limitado, a beleza dos campos, em brisa constante e em temperatura suave. Também, nos encanta, nesta terra de praças lindas, a capacidade criadora e trabalhadora deste povo, tão a acolhedor e que não discrimina. Somos um povo cordial, expressão usada por Sergio Buarque de Holanda, pai de Chico Buarque, em Raizes do Brasil, ao referir-se ao povo brasileiro. Os Arapiraquense constituem sim, um povo cordial.

A simplicidade desta cidade é seu ponto vital. A capacidade empreendedora é a energia que não falta; o reinventar-se na dinâmica do nunca desistir, é que a faz grande; a religiosidade da fé que não falha, a faz perene e religiosa; o conversar fácil e simples é a cordialidade que cativa. As vilas e povoados são belezas cativantes que nos alegram.

Está, aí, pois, o meu apego, meu amor, pela cidade onde respiro sereno olhando os verdejantes campos que me encantam. Satisfaço-me com a gente simples com que converso. Eis a razão de tanto amor e apego, só igualável aos filhos e netos em que me realizo, e na esposa compreensiva que me tolera. 


Publicado em 18/09/2020 às 10:27

Três anônimos

Em Arapiraca, de um passado recente, conheci três figuras do povo. Um deles, um homem circunspecto e de sorriso dócil, de meia idade, de origem alemã, não me recordo o nome, fotógrafo. Quando o encontrava, em batizados e em eventos festivos, sempre com sua máquina fotográfica, seu ganha pão, conversávamos um pouco. Ele sempre afável e solícito.

Sempre me perguntei, quem era aquele alemão, surgido ninguém sabe de onde, que morava só, em um hotel, na rua do comércio, que não tinha parentes, e que era de uma doçura incrível. Teria ele lutado na segunda guerra? Por que viera parar em Arapiraca? Ninguém sabia. Era um homem bom. Fotografava, simplesmente. Vivia disso. Todos gostávamos dele.

Tempos depois, sinto falta dele. Não mais fotografava. Para onde teria ido? Para onde foi, não sei. Por que foi embora, não sei. O alemão discreto, de sorriso dócil, de máquina fotográfica pendurada no pescoço, de fala mansa, de repente fora embora. Senti sua falta.

Um outro personagem, que falava inglês, alguns frases, sempre assim se apresentava, era o Rena, rei do Rango, e, como sempre, quando o encontrava, havia ingerido algumas cervejas, independentemente do dia ou da hora, e que se constituía em uma figura que fazia parte de Arapiraca, ainda não violenta e onde as pessoas se conheciam.

Rena, o Renato, excelente técnico de refrigeração, em passos trôpegos, voz embrulhada, com frases em inglês ininteligíveis, sempre se aproximava das pessoas, assim que as encontrava, independentemente do lugar e as beijava.

Renato, o Rena rei do rango, com seu falar embolado, seu inglês de frases feitas e não entendido, era um homem que, na simplicidade de sua existência, compôs a paisagem urbana, de um personagem único, de Arapiraca calma e interiorana. Bom homem. Gostava dele.

Um outro, este pouco conhecido, era um cidadão que me fazia lembrar, por sua regularidade com que passava no escritório do Dr. Batista, nos mesmos dias e horários, o acendedor de lampiões, da poesia de Jorge de Lima, “ o mesmo que vem infatigavelmente / parodiar o sol e associar-se à lua....

Epitácio, figura magra, esguia, de uns cinquenta anos, infatigavelmente, sem falhar, todos os dias, passava no escritório de Dr. Batista, entregando os jogos da loteria, dando o resultado, e, ainda, sem que jogássemos, por ser contravenção, anunciando o “bicho” do dia.

Ele ,Epitácio, anunciava a fortuna que nunca chegava. Propagava, com alegria, a esperança dos outros conquistar a riqueza. Será, hoje me pergunto, se ele tinha uma casa para morar?

Porém, notava que aquele homem, tão infatigável e tão regular, tão simples, e tão trabalhador, tinha uma felicidade que espargia e disseminava. Esperava a hora de sua chegada para absorver a sua magia da existência.

Três personagens. Homens do povo que, sem querer, me ensinaram cada qual com o seu jeito de existir. Minhas homenagens a essas figuras anônimas, esquecidas no tempo.


Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça 


Publicado em 24/08/2020 às 10:26

Bar do Paulo

Arapiraca, final dos anos 70, década dos anos 80, era uma cidade pujante, dinâmica, com uma juventude inquieta. A economia, baseada no “ouro verde”, movimentava todos os segmentos sociais. A cidade era alegre. O Clube dos fumicultores estava no auge. Eventos de artistas famosos. Bailes de formaturas. Casamentos da alta sociedade. Encontros políticos. Tudo era realizado no clube que era testemunha do movimento sócio político cultural de nossa urbe. O mural, naquele clube social, de Ismael Pereira, na narrativa estética da cultura fumageira, criado pelo artista famoso, também, testemunhava, o movimento da dinâmica sociedade de Arapiraca.

Neste ambiente efervescente, de uma sociedade inquieta, surge, ali na esquina da rua São Francisco, o famoso bar do Paulo. A juventude dourada corria àquele bar. O ambiente tornava-se pequeno. À noite ficava curta. Ocupavam-se as calçadas. O dono, o Paulo, era sorriso, compreensão, ouvido, generosidade.

Naquele bar, onde todos conversavam ao mesmo tempo. Paulo, com sua voz mansa, gestos educados, era dono e garçom, ouvinte atencioso, e tratava seus frequentadores chamando-os de filhos.

Paulo tinha todos os discos. Todos os cantores. Todos os ritmos. Atendia a todas as “tribos”. Ele comandava o som. Transmitia empatia. Era sorriso, compreensão, era o grande maestro da noite.

Às quartas feiras, movimento menor, sem a agitação saudável das sexta e sábado, ia ao seu bar para ouvir o Paulo e absorver sua sabedoria. Colocava uma música suave. Falava, antes, do intérprete e do compositor. Falávamos da vida. Enveredávamos pela literatura. À noite fluía. Saia de lá entorpecido pela bebida. Encantado pela música. Feliz pelo aprendizado.

No dia dos pais atendi um telefonema do Paulo que, com voz emocionada, falava comigo. Disse que leu um crônica minha que se referia a um poeta americano. Afirmei para ele que também me encontrava emocionado e que ele havia me proporcionado um grande presente. Mais uma vez aprendi com o Paulo.

A geração daquela época, saudável e inquieta, em busca do lazer e da compreensão do sentido da vida, encontrou naquele bar e na figura do Paulo, o ouvido que escutava, a fala que queria ouvir e a música que lhe acalmava o espírito.

Paulo é a simplicidade que encanta e a sensibilidade que comove. Seu bar e a sua figura fazem falta à geração atual. Naquela rua e esquina estão faltando o bar. Sinto falta da bulha alegre e daquela geração dourada. Daquela conversa e daquele aprendizado. Daquele frenesi e daquelas noitadas. Já não se fazem mais bar como aquele.


Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça
Fotos: Breno Airan