09/05/2021 10:40 - Atualizado em 09/05/2021 10:43

PADRE JOSÉ

 

Lendo o clássico da literatura universal, os miseráveis, de Vítor Hugo, romance escrito em meados do século XIX, após a revolução francesa, deparei-me, logo no início da extraordinária obra de ficção, com Bienvenu Myriel, bispo de Digne, região montanhosa.

A autoridade episcopal, apesar de ter bons rendimentos anuais, distribuia-os entre os pobres de sua diocese. Sua casa, sede de sua autoridade eclesiástica, mantinha a porta sempre aberta, mesmo durante o seu repouso noturno, preocupado que os necessitados precisassem de ajuda. Recolhia dos ricos, a quem sempre pedia, distribuía com os miseráveis, a quem sequer perguntava os nomes para não constrangê-los. Dedicava seu tempo com os necessitados, enfermos e os aflitos e o que lhe sobrava de tempo cavava o seu jardim, lia e orava.

Afirmava o bispo Myriel que: “ ser santo é uma exceção; a regra é ser justo. Errem, caiam, pequem, mas sejam justos”. E ao falar sobre a carne, grande tentação, afirmou: “ ao cair , caia de joelho , que pode terminar em oração.

Ao fazer esta leitura, do célebre escritor francês que no Brasil influenciou José de Alencar, Machado de Assis e Castro Alves, lembrei-me de Padre José, um cura dedicado aos pobres, aflitos e miseráveis. Padre José, natural Bélgica, era pároco de Craíbas, região do agreste e cidade próxima de Arapiraca.

Vestia-se em trajes muito simples e calçava sandálias para lhe proteger os pés de longas caminhadas. Possuía um carro velho. Os adolescentes, principalmente infratores, não os desamparava, e, ao seu modo, com extraordinário esforço, procurava compreendê-los e assisti-los. Pedia por eles e para eles.

Falava com forte sotaque. Sua voz, as vezes era ininteligível. Não tinha grande estrutura. Ajudava aos desassistidos por determinação pessoal, demonstrando grande generosidade.

Nunca mais o vi. Acredito ter voltado para a Bélgica, país de primeiro mundo. Não sei, também, se mudou de diocese. Às vezes, me pergunto, que ideais levam um ser humano abandonar o conforto e a segurança de um país desenvolvido para assistir os desvalidos de um outra nação. Não encontro resposta a não ser que movido pelo transcendental, busque no divino o objetivo de sua missão.

Estender a mão, abster-se de qualquer conforto, sofrer a dor do próximo, quando, nós, os humanos, lutamos dia e noite, para nos vencer com nossos egoísmos, tão arraigados em nossos eus. Servir ao próximo, pois, neste sentimento egoístico que nos move, sem objetivar interesses, é tarefa para poucos.

Ser justo, muitas vezes não é fácil, neste mundo de complexos interesses; ser generoso, na acepção plena do significado, é reservado para seres que encontram no transcendente a razão do existir. São movidas pelo amor e pela oração. Encontram na caridade o motivo e o significado da existência.