03/06/2021 06:15

Os Miseráveis

 

Um poeta inglês do século XVI, Abraham Cowley, afirmou: "a vida é uma doença incurável". Não, não concordo com o bardo. Viver, para muitos, é uma dor insuportável. É um sofrer constante. A existência, para uma razoável parcela da população, é miséria absoluta, é abandono completo, é desumanizada em sua expressão mais plena.

Os moradores de rua, não os concebo sem teto, sob uma marquise, aos rigores do fito, e na incerteza do alimento. Em alguns casos com mulher e filhos. Sei, e não olvido, que alguns movimentos sociais, religiosos e não religiosos, minimizando a miséria, levam o agasalho e o alimento, em conduta louvável de compaixão. Porém, a dor continua, a dignidade humana, em sua forma de vida, me parece inexistir.

Há outros, que na rua se encontram, destituídos do sentido da existência, dominados por drogas, perambulando feitos zumbis, escravos do vício e do tráfico, andando sem destinos, na miséria total. Onde, às vezes me pergunto, a civilização falhou? Ainda há os pobres que moram em habitações improvisadas, que trabalham em subempregos, que não ganham o suficiente. Há os que, ainda, praticam a mendicância, como forma de sobreviver.

Miséria e pobreza produzam um quadro de asfixia social. São objetos de estudos e decisões políticas. Que fazer, então, para a vida não ser uma dor permanente, a miséria e a pobreza não serem uma chaga social? O poder político, ambição maior do ser humano, deve ser exercido com firmeza e altruísmo. Fixando suas diretrizes, olhando a nação como um todo, objetivando erradicar esses desníveis sociais.

Não concebo uma nação onde ainda se vê miseráveis. Eles estão sob marquises, debaixo de viadutos, em prédios abandonados, perambulando em buscas de alimentos. Eles vivem em dor permanentes, completamente desassistidos.

Há uma falha, na existência da miséria, em seu sentido absoluto. Falhou o poder público na política de desenvolvimento, em todos os campos de sua atuação. Continua falhando o poder público, na ausência de uma assistência eficaz, ao vê-los sob marquises e viadutos, em sofrimento e dor.

Há muitas dores que podem ser evitadas, não todas. O sofrimento faz parte do existir humano. Mas esta do desamparo, da ausência eficaz do estado, de famílias em viadutos e marquises, da fome, em sua forma mais bruta, pode e deve ser combatida, não só pelos gestos solidários de organizações e pessoas, mas sobretudo pela ação planejada de decisões políticas.

A miséria nunca deveria existir. A miséria dói. A miséria talvez de tão doida, dor tão forte e inexplicável, quiçá não doa mais. Torna-se, com o passar do tempo, uma paisagem que compõe a dor natural do existir. Não concordo. É dor que não passa.