17/07/2021 19:36

DEBATE INÚTIL

 

Nos tempos atuais, de polaridade e animosidade, não se vê um debate de ideias, de princípios, de temas, antes, pelo contrário, discute-se o ódio, impõe-se ponto de vista, não se aceita, sequer como argumento, pensamento divergente.

Nega-se, confronta-se, contesta-se, todos, e, individualmente considerados, são donos de uma verdade empírica. A busca do consenso, ou o senso comum, como método de diálogo construtivo como ensina Platão, um dos maiores filósofos da humanidade, discípulo de Sócrates, cujas ensinamentos foram por este transmitido, foi totalmente esquecido. O senso comum, a busca do consenso, ou o diálogo educado, deixaram de existir.

Para alguns, e não são poucos, a dialética é erística, a de Schopenhauer, filósofo alemão, nascido no final do século XVIII, qual seja: a arte de vencer um debate sem precisar ter razão, mesmo que para isto usem sofismas. Para estes não importam a origem dos argumentos. Importam vencer. Não ouvem e às vezes usam como premissas ideias falsas. Querem ganhar no grito.

No ambiente de discussão política , o debate, enquanto busca de aprendizado recíproco, é inexistente. Não há, tenho observado faz algum tempo, dialética produtiva, bom senso, parcimônia. Há gritos querendo impor ideias, lembrando, por pertinente, a dialética erística do filósofo alemão.

O mundo moderno, que se iniciou com o Iluminismo , era da razão, trouxe novas tecnologias, avançando com a revolução francesa, assumindo as ideias libertárias, trazendo à humanidade nova forma de governo, e a revolução industrial, deram ao homem uma nova forma de vida e de pensar. Novos costumes, nova maneira de dominação e, sobretudo, novidades , sobretudo , na arte de fazer a guerra.
Trouxe, também, a nós seres humanos, neste processo contínuo civilizatório, na modernidade da comunicação, algo ainda recente, que é a maneira de impor nossos argumentos.

As discussões, neste ambiente moderno, não obedecem padrões. Vale tudo para obter apoiadores. As ideias são expostas e não se admite, sob hipótese nenhuma, discordância. Se abandonou o senso do ridículo. O que se deseja é o confronto. A negação do óbvio. Todos sao portadores de uma “verdade”, frutos de crença e de monomania.

Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira, tinha razão que: “O difícil não é conviver com as pessoas, o difícil é compreendê-las”. Portanto, assim, como afirma o famoso escritor português, nascido em 1922 e morto em 2010, o difícil é compreendê-las, neste mundo em constante evolução e ebulição, dominado pelo egoísmo e prepotência.

O debate, quando feito com humildade, com escopo, com mediação, e sem ideias pré-concebidas, partindo de premissas e argumentos lógicos, é enriquecedor para todos, sem distinção .

O debate político é tão necessário e indispensável à natureza humana porque nele se encontra a governança dos povos. Deve ser feito com critério e sem preconceitos, com equilíbrio e temperança.

O momento é de reflexão, de boas leituras, de falar pouco e ouvir muito. De ler os filósofos antigos. Ter suas ideias e não verdades definitivas e de compreender as pessoas, mesmo sendo difícil, na sábia lição de Saramago.