10/08/2021 06:16

OS ENGENHEIROS DO CAOS

Os engenheiros do caos, livro de Giuliano de Empoli, politólogo italiano, da editora vestígio, já na segunda edição 2020, traduzido por Arnaldo Bloch, o autor, com grande clareza didática, revela um quadro perturbador, na cena política internacional, onde todos estamos inseridos, inclusive o Brasil.

Ainda na introdução, Giuliano, no livro que recomendo, afirma: “os defeitos e vícios dos líderes populistas se transformam, em qualidades. Sua inexperiência é a prova de que eles não pertencem ao círculo corrompido das elites. Sua incompetência é vista como garantia de autenticidade. As tensões que eles produzem em nível internacional,e as fake News que balizam são a marca de sua liberdade de espírito “. Crítica contundente é bastante assertiva.

O autor, então, em introdução fantástica, de 32 páginas, prepara o leitor para as explicações que serão dadas em seis capítulos em que serão demonstradas a manipulação dos eleitores, através do Tweet, Facebook, e das redes sociais em geral, utilizando-se de algoritmos para atingir o público específico a a mensagem certa, na dosagem correta, pouco importando se verdadeira ou falsa. O importante é obter o resultado eleitoral.

Sobre fake news Giuliano de Empoli afirma: “contrariamente às informações verdadeiras, elas constituem um formidável fator de coesão” e ao citar um blogueiro americano menciona Mercius Moldbug : “Por vários ângulos, o absurdo é uma ferramenta organizacional mais eficaz que a verdade”, e arremata: “ acreditar no absurdo é uma questão de lealdade”. Fiquei, confesso, deveras assustado, as democracias correm perigo, concluí.

Li recentemente, antes da leitura dos engenheiros do caos, de Steven Levitsky e Daniel Ziblat, como as democracias morrem, com 56% da população sendo governada por governos democratas, atualmente em 105 países. São governos eleitos democraticamente e alguns forçam as grades de proteção que as protegem. São governos que se tornam autoritários após serem eleitos pelo voto popular. Vide Venezuela, por exemplo.

O falso, o impactante, a não verdade, no mundo moderno, no processo eleitoral, passam a ser instrumento usual para obtenção do voto. Usando os novos meios de comunicação, utilizando-se dos algoritmos na internet, atingindo-se os nichos que se deseja, escolhe-se a mensagem a ser disparada, na intensidade que o meio destinado almeja, alimentando-o constantemente. Unem-se os contrários na falsa idéia da unidade do coletivo.

Neste mundo onde tudo é mensurável e nossos gostos são acompanhados pelos smartphone, as informações nos chegam sob medida, muitas vezes criando, em cada um de nós, o medo, a angústia, com notícias falaciosas que nos fazem crer no absurdo. O ódio, como mensagem, chega em embalagem que nos envolve e atiça paixões.

As propostas em pleito eleitoral ficam reduzidas a segundo plano e o objetivo é a destruição da imagem do outro,semeando um clima de revolta, de medo e ódio. Que o diga o processo de escolha norte americano.

Valeu apenas ter parado a leitura de os irmãos Karamazov de Dostoiévski para ler os engenheiros do caos. Bom livro.