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Vida que Segue...

Tony Medeiros
- Jornalista diplomado pela Universidade Federal de Alagoas 


Publicado em 23/07/2019 às 11:25

Quando a natureza chama...

Comecei a escrever meus primeiros offs “valendo” em matérias na TV Educativa, em Maceió. Engatinhava na vida televisiva graças ao amigo e premiado jornalista Severino Carvalho, que me indicou para período de estágio junto a Direção de Jornalismo da estatal. Naquele período o Governo de Alagoas havia criado um projeto chamado Governo no Interior. Todos os meses o Governo do Estado se instalava por três dias numa cidade do interior de Alagoas levando alguns serviços para a população. Minha primeira viagem foi pra Batalha. De repórteres estávamos Michelle Barros e eu. A diretora de jornalismo, Walkíria Sarmento, queria várias pautas, várias matérias mostrando não apenas os serviços, mas também o cotidiano das famílias sertanejas. Na equipe ainda estavam Gedson Duarte, Geraldo Vitório, José Reinaldo e Othon.

Na primeira noite a equipe se esbaldou na janta: Queijo, carne de bode, cuscuz, inhame, macaxeira, carne guisada de boi, por exemplo. O café da manhã foi igualmente recheado. Uma avalanche que a gente, obviamente, não estava acostumado a comer no dia a dia da correria sem tempo de cozinhar na Capital!! Todos ficamos muito "engajados" pra comer!!

Barriga mais que cheia.

Tinha um sol pra cada um. E tínhamos que ir a inauguração de uma obra pra fazer um VT sobre abastecimento de água. Seguimos até o local. Desci do carro junto com a equipe. O motorista nos avisou que iria procurar um banheiro. Tava agoniado, suando frio e não ia ao banheiro desde a noite anterior.
Avisei que por onde estávamos não havia sinal algum de banheiro.

Enfim...

Um pontinho em movimento no céu se aproximava. Era o helicóptero com as autoridades políticas para início da solenidade.

A aeronave se aproximou, veio mais, parou no ar para o piloto fazer a manobra, retornou na nossa direção e pousou. Segundos depois os passageiros desceram rindo. Rindo e muito.
Acompanhamos a solenidade. Gravamos entrevistas, imagens. Tinha muita gente enfrentando o calor com terno, camisa de botão, sapato.
Terminamos o material e encontramos com o motorista(como não consegui localizá-lo pra pedir a liberação pra citar o nome, então vou respeitar a situação). Ele estava encostado no carro da reportagem, com a mão na testa. Balanlava a cabeça negativamente, lamentando.

- O que foi, não achou o banheiro?

- Fui pro meio do mato, Tony.

- Fez o que deveria fazer?

- Fiz

- E essa cara?

- É que eu tava lá acocorado no meio do mato quando vi de longe o helicóptero. Continuei relaxado. Mas aí o helicópero foi se aproximando, aproximando, aquele vento forte...E num é que ele manobrou quase em cima de onde eu tava? Meu amigo, o mato abriu e todos eles lá em cima me viram!!

- E aí?

- Coloquei a camisa pra cobrir a cabeça e tentei levantar. Mas escorreguei. Usei umas folhas pra diminuir o estrago, mas tá aqui a situação difícil.

Ele abriu o coração e começou a rir de si mesmo. Na verdade ninguém aguentou não. Gargalhada geral dentro do carro. Deixamos os vidros abertos pro vento correr...e parada rápida num banheiro de restaurante pro motorista se lavar.

Aí eu entendi o porque das risadas dos passageiros do helicóptero.

Por quase dois anos a gente lembrou ao motorista aquela situação. Ele não facilitava e a cada conversa aumentava o drama da queda no meio do mato, no meio da própria m...

Contei aqui a primeira versão que ouvi!!

Ainda bem que ele não encontrou nenhuma urtiga! 


Publicado em 17/07/2019 às 10:43

O céu para o Anjo

O bebê tinha apenas sete meses de vida quando se afogou num balde com água, no Sertão alagoano. O líquido, tão escasso na região, foi a causa da morte de um inocente. Como por aqui é comum a gente medir altura usando os dedos das mãos na horizontal posso dizer que o balde armazenada em torno de cinco dedos de altura com água.

Recebi a missão de ir até Pão de Açúcar com a equipe. Ainda em Arapiraca, quando entrei no carro da reportagem, bateu uma tristeza que fez o coração esfriar e mudar o ritmo. Foi um dos trajetos mais longos que fiz na vida. Pensava como aquilo poderia ter acontecido, como estava a família, como teria sido a agonia do bebê dentro do balde.

Chegamos a comunidade na zona rural de Pão de Açúcar. A mãe estava incomunicável na casa de vizinha. A dor que ninguém vê, mas massacra, aperta o coração. É preciso ter estômago pra se aproximar da família. Ter sensibilidade para entender a dor que ecoa no estado de choque. No olhar distante, nas lembranças dos dias anteriores, da convivência tão cheia de planos, tão cheia de sorrisos...Tão curta. O sentimento de culpa, acionando a máquina do tempo para se teletransportar até momentos antes da fatalidade e tomar outra decisão para impedir a perda.

Tivemos acesso a casa onde aconteceu a tragédia. Segundo relatos, enquanto a criança dormia na cama, a mãe aproveitou e foi até a casa da vizinha, fazer uma visita rápida no domingo. Neste intervalo, o bebê acordou, conseguiu descer da cama e engatinhou até o balde que estava entre a sala e a cozinha da humilde casa sertaneja. O objeto chamou a atenção da criança, que caiu de cabeça pra baixo dentro do balde. Quando a mãe retornou pra casa...a cena era de terror.

Correria pra tentar salvar, pra tentar salvar, mas o bebê chegou ao hospital sem respirar, sem vida.

Olhar aquele cenário me fez ouvir a criança chorando. Era aquele choro desesperado que se ouve a léguas de distância.

Precisava da minha humanidade para conversar com familiares e vizinhos. Pessoas que acompanharam todo aquele tormento, que passavam por todo aquele tormento. Não foi simples. Não foi fácil. Saber se tem foto, alguma imagem da criança num dos momentos de convivência com a família nos últimos sete meses.

Ao contrário do que algumas pessoas pensam, o objetivo do Jornalismo não é sobrevoar a notícia trágica. É informar para que outras pessoas não passem a mesma situação. Explicar que o piscar dos olhos pode ser lento o suficiente para um bebê engatinhar de um cômodo a outro da casa. Contar a história é dolorido. Você se coloca no lugar, não tem como fingir que não tem espírito ou coração. É um envolvimento necessário para se deixar mais humano.

A cena da casa na margem da estrada...aquele silêncio ensurdecedor. Aquele rio de lágrimas naquela terra de pouca água. Lamentações, gente chegando de outros sítios, sem entender como aquilo teria acontecido. Aconteceu, e o céu recebeu mais um anjinho.

Sabe quando a gente escorrega nas lágrimas, mesmo quando estes pingos são enxutos nas palavras? Quando as pautas envolvem situações com crianças como vítimas o mundo desaba pra todos.  


Publicado em 09/07/2019 às 18:40

Quanto tempo o tempo tem?

No Jornalismo o tempo é um bem precioso. Todos correm pra cumprir a pauta dentro do tempo para não estourar dead line(jargão para o limite do horário para entrega do material pronto).

O informe chega, precisa ser checado, precisa ser avaliado, precisa virar informação. Precisa de imagem, precisa de citação, de entrevistado, precisa colocar no ar, no site, no telejornal, precisa colocar na página do impresso, pra ser impresso na edição de amanhã. Se correr demais e "esquecer" de cumprir algumas regrinhas de checagem, o risco de ser uma "barrigada" (quando a informação está errada) é grande.

A sede pelo furo de reportagem pode fazer alguém tropeçar nos ponteiros do relógio. Sair na frente nem sempre é sair com a informação certa ou mais completa.

Isso exige rapidez no raciocínio, fontes seguras, ouvir as cobranças pra cumprir a pauta no tempo...no tempo...e informar o público. Se demora? Depende da rapidez, da agilidade de quem faz. Precisa pensar!! Não pode se deixar envolver pelo tic tac. Um olho no relógio e outro na informação. na velocidade das notícias é mais fácil lembrar de uma barrigada que de um furo de reportagem. Até porque, em questão de minutos, a história estará nas redes sociais e nas conversas instantâneas.
Cuide do tempo. Cuidado com o tempo.

Ele pode ser amigo. Mas também pode ser muito cruel. Depende de como você o trata. Se tem respeito vai receber benefícios. Se dá com os ombros, o tempo maltrata. Precisa aprender a lidar. Não é pra encher a vida com calendários e relógios. A areia do tempo cai ininterrupta e no mesmo ritmo. Você decide como quer aproveitar cada grão de areia. Não “aproveite” pra fazer o mal o mais rápido possível. O mal feito encontra tempo pra voltar três vezes pior pra quem fez.

Aquele 1 minuto que faz diferença na entrevista, aqueles milésimos de segundo numa corrida que separam a derrota da vitória. O despertador que não tocou música, aperta o "soneca" pra mais cinco minutinhos, por favor. Tempo só pra fechar e abrir novamente os olhos. Aquele tempo pro descanso, aquele tempo pra correria da vida, aquele tempo pra você!! A gente não faz hora extra na vida. Nem adianta contar as horas...Ansiedade quer adiantar o tempo, mas a hora não passa mais rápido por isso.

E o hoje??
E o agora??
E o já??
Quer pensar no futuro?

Construa agora...faça agora, seja agora...e o futuro será a consequência boa das atitudes e dos bons pensamentos.

Olhe o relógio, escute o motor acionado pela bateria, perceba que os ponteiros não se aperreiam. Aprecie o tempo. Aproveite pra estudar, trabalhar, sorrir, brincar.

Nunca, jamais é tarde demais. Faça amizade com o tempo.

Ah, escrevi esse texto por causa da ansiedade de falar sobre o tempo. Foi passatempo...foi pra passar o tempo. O tempo passou, escrevi, não cometi o crime de matar o tempo.
Olha a hora!!! 


Publicado em 05/07/2019 às 20:35

Palavras não ficam presas

Eram duas da manhã. O telefone tocou. Meu tijolão acordava a vizinhança toda. Uma pessoa me pedia pra ir ao Presídio Desembargador Luis de Oliveira Sousa. Na época eu estava repórter/pauteiro/fotojornalista/editor (nas sextas) na sucursal de Arapiraca de O Jornal.

Na ligação pude ouvir ao fundo uns barulhos de bombas.

Pedi um tempo. Liguei pra meu fiel escudeiro Enivaldo Mendonça, o Valdo. Era taxista. Acordei Valdo.

- Bora no Presídio? Ta rolando rebelião!!

- Claro!!! Chego já aí!!

Em poucos minutos, Valdo parou o Uno de cor verde na porta da casa que eu havia alugado no bairro Alto do Cruzeiro, em Arapiraca. Um dos quartos, naquela época, funcionava como primeira sucursal da empresa no Agreste.

Seguimos até o Presídio. Mesmo à noite dava pra ver a fumaça. Aproximamos, desci do carro e pedi pra falar com a direção, que prontamente pediu pra que subisse numa escada. Daria acesso ao teto do presídio. Lá em cima...vi os colchões em chamas. Portões quebrados. Senti o cheiro da violência.

Os reeducandos começaram a querer falar comigo.

Fiquei preocupado. De imprensa só tinha eu. Tirei uma foto. A máquina fornecida pela empresa parou de funcionar. Eles queriam mais fotos. A máquina, uma saboneteira digital, não funcionava mais. Nem com reza.

Expliquei a situação. Eles, lá no chão, com espetos, rostos cobertos com camisa amarrada, entenderam, apesar do tumulto. Fizeram as reinvidicações. Anotei e desci. Desci pra casa.

De manhã já com a luz solar, voltei ao local. Encontrei outros colegas da informação.

Esperamos a ação dentro do Presidio. Entramos após autorização e registramos armas artesanais feitas pelos próprios reeducandos.

Confesso. Eu era velho frequentador de presídios em conflito.

O meu primeiro foi em 2001. Eu nem era diplomado, mas já era repórter da TV Educativa, em Maceió.

Havia chegado com duas matérias da rua. Fechei os textos, gravei e quando tava me preparando pra ir embora...

-Ta rolando rebelião no São Leonardo!!

Disse a produção.

Eu sabia o que era rebelião na época poque alguns dias antes havia acontecido uma sequência em vários presídios País afora.

Olhei pro relógio: 12h30. Tava dentro do meu horário. Pensei: não vão me mandar porque sou bobão.

Kkkkk

Mandaram!!

Lá no São Leonardo muita gente na porta. Policiais, repórteres. Superamos uma barreira feita para que familiares dos reeducandos não se aproximassem. Chegamos ao ponto em frente ao Presídio.

Fiquei pensando em como começar aquela matéria...fumaça saíam de algumas das várias janelas frontais do São Leonardo. Puxei o Secretário de segurança, Delegado Mário Pedro, para pegar informações. Ele me passou:

- Briga entre os reeducandos. Grupos rivais. Querem se matar.

Foi basicamente o que ele me dizia em entrevista quando vejo alguém acenando de dentro do prédio. O Secretário estava de costas para a confusão (questão de imagem pra matéria).

De longe vi algo sendo jogado. O que eu vi acenando era um braço, que havia sido cortado de um detento. Outro reeducando jogou o braço pela janela.

-Aquilo é um braço?

Indaguei atônito.

O Secretário se virou. Olhou pra trás. Estávamos de frente para o episódio, mas longe o suficiente pra não ter certeza. Eu não acreditava. Mário Pedro confirmou: era um braço.

Já disse que fiquei atônito, né?

Continuamos na porta do presídio.

O então Secretário de Ressocialização, atualmente presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas, Tutmés Airan, tinha sido avisado.

Estávamos a espera dele quando...

Uma cabeça foi jogada pela janela.

O reeducando tinha sido esquartejado. Briga de rivais.

Tutmés tomou as providências e fui convocado pra voltar a sede da TV Educativa, perto da entrada do Cepa, em Maceió.

Escrevi, gravei o texto. Ajudei a editar.

Foi pro jornal local e pra Rede Nacional.

Tem mais histórias de rebeliões.

Em ambos os casos que contei, o Estado conseguiu controlar. Perdas aconteceram. Lições pra melhorar a segurança.

Tem mais histórias de rebeliões e resoluções.
Quem quiser saber mais... Manda mensagem no @tonynho_medeiros ou Tony Medeiros (Face). Dependendo da curiosidade, faço outras postagens!!

Obs. Até hoje me pergunto: por que os presídios eram sempre ao lado das Universidades Federais de Alagoas? 


Publicado em 21/06/2019 às 08:39

A REALEZA DO SANGUE MEDEIROS

Sempre fui muito desligado em relação aos eventos e datas comemorativas. Dois exemplos simples: Eu sabia que o São João estava se aproximando porque os colegas na escola já murmuravam o frio na barriga por causa das provas do 2º Bimestre. E quando minha irmã mais nova, Michelle, chegava da escolinha com os bilhetes para sorteio de balaio junino. Era um fuzuê...Enquanto a turma se preocupava em não ficar em recuperação, a missão mais complicada era vender os bilhetes. Quem nunca comprou ou vendeu? Enfim, era uma dor de cabeça. Era até o dia em que minha avó materna Andí Ferreira se disponibilizou a ajudar. Como já contei em postagem anterior, a família de minha mãe mantinha Churrascaria e Mercearia funcionando as margens da rodovia AL220 em frente ao antigo Posto Pichilau. Funcionava das 5h da manhã às 22h, mas na época do corte de cana-de-açúcar, abria no sábado de manhã e só fechava no domingo à noite.

Dona Andí, minha avó, passava praticamente o dia todo por lá. E com todo jeitinho, empurrava bilhetes e mais bilhetes nos clientes. Se chegava pra comprar uma garrafa de água, saía com 2 ou 3 bilhetes. Se almoçava ou jantava, comprava bilhetes na sobremesa.

- Você num vai fazer uma desfeita dessa comigo!

Ela dizia com sorriso no rosto. Método um tanto eficaz

E assim, dos talões dos bilhetes, sobravam apenas os canhotos. E mais talões surgiam e eram vendidos. E na escolinha quem vendia mais bilhetes conquistava o título de Rainha do Milho. Perdi as contas da quantidade de vezes que Michelle foi a Rainha do Milho. A matutinha chegava em casa com a coroa e a faixa de Rainha. Exibia com orgulho.

Michelle foi crescendo, colecionando títulos, até que não quis mais concorrer.

Mas a realeza tá no sangue da família!! Como isso poderia afetar o fluxo sanguíneo?? Ficaria uma lacuna??

O futuro virou presente quando uma certa baianinha chegou. Giovanna mostrou desenvoltura durante os reinados conquistados na terra do Axé. Filha do meu irmão Niélsinei e da incentivadora e mãe/amiga Jailma, Nana é a pessoa mais doce que conheço. E também foi Rainha do Milho. De faixa e coroa.

Mas a família não parou por aí...

Bem que eu disse que tava no sangue!!

Michelle deu a luz a lindona Eduarda, mais conhecida como Bibi. Menina esperta, ligada no mundo, a Rainha do Milho Bibi distribuiu simpatia majestosa nas tantas vezes que foi vencedora.

3 Rainhas. E você acha que parou? Sei não, viu?!?!

Ele estava previsto pra nascer em julho. Mas mal havia começado junho, ele se aperriou pra vir logo ao mundo. E no dia 05 Bibi ganhou uma função a mais na família: virou irmã mais velha. João Gabriel chegou com total disposição pra curtir o primeiro festejo junino. Será um futuro Rei do Milho?

Minha visão do mundo Junino mudou no decorrer da vida (ler postagem anterior). Percebo a fumaça, percebo os fogos, mas também percebo as cores, a musicalidade, os bigodes feitos a lápis, os chapéus de palha, os sorrisos e a dança. É tradição, é amor, é envolvimento do povo durante 1 mês (em alguns locais, até mais de um mês). Gravei em tantas comunidades que se debruçavam na tradição, se juntavam pra fazer comidas típicas, pra pendurar as bandeirolas na rua, para pegar as palhas e montar o palhoção. Arapiraca, Girau do Ponciano, no sertão foram várias, tanto em O Jornal quanto na produção ou reportagem da TV Gazeta. Crianças, jovens, adultos, idosos dançando o mesmo ritmo.

As notas musicais ecoam, balançam as bandeiras, os balões, os vestidos coloridos, as calças remendadas, as sandálias, as fivelas. Sanfona, zabumba e triângulo fazem um som único: o da Felicidade!!

Obs. Fotos das rainhas e do provável futuro rei serão postadas mais tarde nas minhas redes sociais. Curta lá!! Você num vai fazer uma desfeita dessa comigo, né? 


Publicado em 12/06/2019 às 11:44

FOGUEIRA, CANJICA, FORRÓ, FOGOS, FUMAÇA!

Onde tem Junho, tem festa. Foi o único período em que usei barba!! Daqui a pouco explico o motivo. É que o sexto mês do calendário é O mais esperado pela maioria dos nordestinos. Inteirinho de festa. Os trios de forró se multiplicam pra atender a agenda lotada. As pessoas se multiplicam pra conseguir curtir tantas festas. Arraiás nas comunidades, bandeirolas, balões, tudo muito colorido. E “tame” forró, xaxado. E “coma” canjica, pamonha, milho assado, milho cozido. Tem gente que, quando lembra de junho, a boca saliva. A presença da festa junina é marcante seja com a culinária, com a musicalidade, as cores, os enfeites. Como já citei em outra postagem, nasci em Arapiraca. Porém, pela profissão de meu pai, Leniro Medeiros, a família ainda morou em Traipu (linda cidade) e São Miguel dos Campos. Família de bancário era assim, um tanto quanto peregrina.

Lembro muito pouco de Traipu. Conheço as histórias que me contam da época. Ainda navegava de braço em braço bem pertinho do Rio São Francisco. Lembrança um pouco viva tenho da época em São Miguel dos Campos. Morávamos num apartamento perto do centro da cidade. Meu irmão mais velho, Niélsinei Charles, e eu, íamos a pé para a escola Imaculada Conceição. A direção da escola sempre incentivava os alunos a participar de eventos durante o ano. Qualquer postagem dessa conto como foi o Dia do Índio. Desta vez vou escrever minhas sensações e impressões do festejo junino. Eu estudei lá do maternal ao 2º ano do ensino fundamental. Num destes anos a turma foi convocada a participar da festa de São João. Eu, menino tímido, fiquei receoso (e eu nem sabia o que significava receoso naquela época).

Receoso porque sabia que as pessoas iriam me ver na apresentação. Nos ensaios minhas mãos ficavam geladas. Pernas travavam. Só conseguia olhar pro chão. A menina que era meu par também era muito tímida. Então, já viu, né...??

Chegou o grande dia!! Lá vai dona Gilvandí, minha mãe, arrumar a roupa do matuto mais matuto da festa. Eu era o matuto autêntico. Camisa xadrez, calça jeans com “remendo”, chapéu de palha. E pra abrilhantar: Barba feita com lápis. Desenhada no rosto bochechudo e vermelho de vergonha. (Vou postar a foto nas minhas redes sociais: Tony Medeiros no facebook e @tonynho_medeiros no instagram).

Salão da escola lotado. Nem sei se acertei os passos. Ouvia o barulho das pessoas, as palmas, alguma música...Tonynho tremia mais que carro velho. Lembro que logo depois senti que um fardo de 300 quilos tinha saído dos meus ombros.

Mas a festa junina ainda iria me deixar outras marcas.

Numa daquelas noites de junho, olhei da varanda do apartamento e vi muitas fogueiras montadas. Achei muito bacana. Fogo na madeira, festa. Só tinha 1 problema: fumaça. Em instantes a fumaça das fogueiras se juntou e, como se fosse desenho animado, parecia que tudo entrava no apartamento. Fechamos a porta de vidro, a cortinha, corri pro quarto. A fumaça me perseguia. Olhos lacrimejavam, tossia. Uma agonia!! As bombas poderosas explodiam e faziam os vidros tremerem. A experiência com junho não tava sendo salutar.

Alguns dias depois entramos em férias. Fomos passar um período na casa de meus avós maternos em Arapiraca.

A casa ficava as margens da rodovia AL 220, perto do trevo na saída de Arapiraca para Palmeira dos Índios e para o Sertão. A família iria se reunir para festejar. E eu? Bem, eu tava assustado!! Afinal...

Chovia naquela tarde. Meu irmão, eu e alguns primos fomos jogar bola num terreno baldio (onde hoje é um hotel). Atolávamos na areia molhada. Ríamos. Lama dos pés ao céu!!

Até que fomos chamados para ajudar a montar a fogueira. Começamos a carregar a madeira. Juntar, carregar, montar...A fogueira foi ganhando forma e altura. A maior parte da família ainda tava na Barraca e na Churrascaria do Côco Verde, que ficava do outro lado da rodovia. A turma tava trabalhando enquanto a gente, num daqueles dias de folga do serviço, fazia algazarra na porta da casa. Chovia muito. Banho de chuva, de lama...Fogueira pronta, hora do banho de verdade. E num piscar de olhos a família já estava reunida. Amigos que chegavam. Ouvi pela primeira vez Chiclete com Banana em ritmo de Forró. Ouvi Dominguinhos, Luiz Gonzaga. Músicas que ecoavam do contato da agulha com o bolachão. Casa iluminada, movimentada. Fogueira acesa. Traque, chuvinha, dança, sorrisos. A mesa da cozinha, bem grandona (pelo menos pra mim naquela época) com canjica, milho assado, mugunzá. O cheiro saiu do nariz e veio pra mente. Lembranças doces, salgadas, lembranças eternizadas que me fizeram mudar a visão sobre o São João.

Quando o Jornalismo entrou na minha vida passei a ver o lado lúdico e poético do mês preferido dos nordestinos. As lentes das câmeras já captaram tanto da essência do povo, dos enfeites, que hoje faço questão de ajudar a expressar a cultura popular.

Não curto fogueiras, nem bombas, nem fogos de artificio. Mas aprendi que junho de Santo Antônio, São João e São Pedro não é uma maldição como pensei quando as lágrimas escorriam por causa da fumaça. Tem as simbologias. Tem os significados. Tem o respeito a Fé. O problema nunca foi junho, muito menos os santos. Sempre tem quem nas bombas, na fumaça e no álcool.

Na próxima postagem contarei sobre a continuação do período junino ao longo dos últimos anos. A família tem uma linha de realeza!! Depois explico!! 


Publicado em 08/06/2019 às 07:59

De repórter a súdito da Rainha!

Desde que me entendo por gente gosto de acompanhar esportes. Passava horas na frente da TV assistindo competições de tênis, futebol americano, basquete, sinuca...Parece doidera né? Mas não era...nunca foi. É querer conhecer como os outros esportes funcionavam comercialmente, esportivamente, como era a cultura em outros países, esquemas táticos, valorização e incentivo a prática do esporte para jovens.

Essa curiosidade ajudou a alimentar minha visão de futuro profissional. Queria e queria mesmo ser jornalista. Ajudar a divulgar!!

Liguei o televisor certa feita e passava a transmissão de uma partida de futebol da seleção feminina do Brasil. Foi um ano depois que o Brasil se sagrava campeão mundial com a seleção masculina nos Estados Unidos.

Observando aquelas meninas, ouvindo os comentários dos profissionais envolvidos na transmissão, percebi a distância que havia de estrutura e atenção entre as duas Seleções Brasileiras. As meninas não beiravam o amadorismo. Eram amadoras mesmo. Donas de casa, funcionárias, mães, esposas, filhas, que trocavam passes por motivos em comum. Digo motivos porque não se tratava apenas de fazer gols. Mas tornar o futebol feminino uma oportunidade de abrir portas para outras jogadoras que também gostavam e tinham talento para a arte. Vi Sissi, Meg, Maravilha, a menina Formiga, Michael Jackson, Kátia Cilene, Pretinha e outras, tão talentosas, atuarem. Sob o comando de Zé Duarte. Minha nossa!! Muito bom.

O tempo foi passando, bola rolando, até que comecei a ouvir falar de uma menina que parecia um raio. Habilidosa, artilheira, decidida. Na época era só Marta. A jovem que começou a carreira correndo nas areias de Dois Riachos, na terra rachada do Sertão alagoano. Ela não enfrentava só os meninos em campo. Precisava driblar o preconceito. “Futebol não é esporte de menina”, diziam. E ainda tem retrógrado que ainda diz isso.

Marta chegou e começou a brilhar. Ajudou a levar a Seleção pra outro patamar. Vieram campeonatos, titulos, incômodos para as seleções de outros países, que recebiam recursos governamentais, que praticavam futebol o ano todo em ligas potentes e cheias de concorrência. Mas algo me deixava encafifado: Porque elas não têm a mesma atenção que o mundo masculino no futebol? Patrocínios, transmissões de mais partidas, horários de jogos em que torcedores pudessem ir ao estádio gritar os nomes delas. A inteligência em campo, com medalhas olímpicas e troféus em competições no continente americano, ficou no campo. O mundo viu e vê Marta. Foi obrigado a se render a rapidez e gingado. Aí Marta deixou de ser Marta. Passou a ter título de realeza: Rainha Marta. 6 vezes escolhida a melhor do Mundo. A melhor de todos os tempos!! A Era Marta contou e conta com companhias brilhantes: Formiga, Cristiane despontava com bola na rede. Bárbara, barbaramente.

Sem tantos holofotes, badalação, e sem tanta propaganda, diferentemente do futebol masculino. Quis o destino que eu estivesse na escala para fazer a cobertura jornalistica da inauguração de um centro de treinamento dela na cidade natal. Centenas de pessoas ansiosas pra ver a Rainha. Teria jogo de atletas profissionais. Convidados. Teria jogo da seleção feminina num campo reduzido.

Fazia muito calor. Do sol e humano.

As meninas chegaram em vans. Sem fones de ouvido, sem marra, distribuindo simpatia. Fãs queriam autógrafos, fotos. Elas atenderam. Marta bateu um papo comigo. Falei com parentes dela. Com vizinhos. O VT foi exibido no Globo Esporte. Na rede. Foi um gol deste alagoano. Menos de uma semana depois, num jogo beneficente em Arapiraca, amigos de Caíque Valdivia contra Amigos de Rey9, Marta apareceu no Estádio Coaracy da Matta Fonseca, em Arapiraca.

Não permiti que meu lado fã falasse mais alto. Tinha que ser profissional. Tava fazendo matéria pra TV Gazeta. Fiquei olhando ela tirar um monte de fotos com várias pessoas. Pedi ao repórter cinematográfico Carlos Frazão que fizesse imagens dela. Aproximei e brinquei com ela fazendo uma relação sobre as quantidades de gols na carreira e as fotos. Durante a entrevista coloquei a mão no meu bolso. Puxei meu celular. Tirei uma foto com ela. E ainda consegui brincar no texto da matéria e inseri a foto no VT. Até postei nas minhas redes sociais esta semana.

Marta e todas as outras meninas da Seleção, que jogam no Brasil ou foram para outros países tentar melhorar de vida, são espetaculares. Entraram pra história já. E mesmo assim querem escrever novos contos. Terão oportunidade. Tem Copa da França de Futebol Feminino. O Brasil está no Grupo C com Jamaica, Austrália e Itália . As brasileiras estreiam contra as jamaicanas, neste dia 9, às 10h30, em Grenoble.

Nossas atletas estão no topo da pirâmide e são exemplos para as jovens que estão jogando nos campos de barro, sem ninguém assistindo. Guerreiras na luta pelo sonho. A bola pode até não ser oficial, a chuteira nem precisa ser original. Aliás, se tiver chuteira já é uma maravilha. Imagine se tivessem a devida atenção e estrutura. A gente nem sempre valoriza, nem sempre dá bola. Joga pra escanteio. Joga contra. Só que o interessante no futebol é que as meninas talentosas continuam com fôlego pra driblar as dificuldades. 


Publicado em 01/06/2019 às 20:20

Lição de sobrevivência

Gonzagão cantou em forma de poesia a cena da terra ardendo, da judiação no Sertão. E diante de tanta riqueza da poesia das letras, certa feita, quando ainda era repórter na sucursal do agora finado O Jornal, viajei ao Sertão alagoano. A pauta era a seca. Na estrada de barro a poeira voava alto. Calor. Pensamento distante. Não sabia o que encontraria. No municipio de São José da Tapera vi uma casa mais distante da estrada longe de qualquer comunidade. A visão era um chamado. A paisagem em tom marrom, minha boca seca. Desci do carro quando vi crianças na porta da casa. A mãe saiu do imóvel quando ouviu o barulho do carro. Como não era casa de barro, nem imaginei que aqueles próximos minutos iriam marcar tanto minha vida. Perguntei sobre a situação da seca, as consequências. A mulher, me foge o nome real dela, mas vou chamá-la de Maria, disse que estava tudo bem. Comentou q o marido tava na "rua", pra dizer que o esposo tinha ido a cidade.

Abro um parênteses pra tecer um elogio aos sertanejos. Mesmo com a limitação de água, dona Maria ofereceu um copo. Não quis...mas algo na mente insistia pra que puxasse mais papo com a dona de casa/agricultora/mãe.

Procurei saber sobre a origem da água. "É de um barreiro", revelou. Pra em seguida emendar: "Mas eu tenho que coar. Como tem pouca água lá, tá no restinho, vem muita lama no balde".

Pedi pra ver como coava. Ela mergulhou uma caneca dentro do filtro de barro. Colocou na mesa e cobriu um copo de vidro com um pano de prato. Derramou a água no copo. O pano, que era branco, ficou em tom escuro. Era o barro. E mesmo assim, o líquido que passou pro copo de vidro tava muito longe de ser água. (Devolvemos o liquido pro filtro pra não desperdiçar).

Dona Maria resolveu abrir o jogo. Abriu a porta do armário e só tinha um pacote de farinha. As três crianças que estavam brincando do lado de fora correram pra entrar na casa pela porta da cozinha. "É comida, mãe?". Não era. Diante desse alarme falso abaixaram a cabeça mas prrmaneceram sentadas a mesa. Perguntei o que estavam comendo de alinsó tinha farinha. "Comida de bicho", informou dona Maria. Pedi pra ver. Ela foi lá fora e voltou com raquetes de palma. Tirou os espinhos. Cortou. E colocou numa panela. Fazia sopa de palma. E com aquele liquido marrom.

Minha garganta seca começou a arder. Eu sabia que em alguns países, como o México, um determinado tipo de palma é alimento pra humanos. Tipo de salada. Mas aquela cena jamais saiu da minha cabeça. No Sertão alagoano, a palma é alimento do gado.

Eu me despedi da familia. Segurando a tremedeira do queixo. Voz embargada. Tava suado, cheio de terra na roupa, no corpo...segui de volta pra estrada de barro, asfalto, redação, computador. Quando comecei a escrever lembrei que uma vez, ainda meninos, comentei com minha avó, dona Andí, que tava morrendo de fome, numa tentativa de emocionar aquele coração e fazer um lanche. Ela, de bate pronto falou "num diga isso. Você não sabe o que é morrer de fome". Já adulto entendi. E, sozinho na redação não precisei conter as lágrimas.

Depois da matéria publicada com destaque no jornal daquele domingo de carnaval, soube que a família recebeu ajuda de outros tantos corações preocupados.

Nem sou tão sensível assim, mas voltei a chorar.

Desta vez não eram lágrimas de dor. Posso dizer que aquele gosto salgado era de doce vitória. E de lição aprendida.

Tive a chance de voltar lá...a casa estava deteriorada. Abandonada. A mudança tinha sido feita pela familia. E eu percebi que algo em mim também havia mudado. O drama sertanejo com seca ou muita chuva, passou a ser pauta da vida na minha vida jornalística. 


Publicado em 29/05/2019 às 13:58

Tony Medeiros por Tony Medeiros

Jornalista profissional diplomado pela Universidade Federal de Alagoas. A timidez não me impediu de realizar o sonho de ser contador de histórias, narrador de fatos, crises, riquezas, ironias, belezas, amarguras, feiúras e evoluções. Ou ser intermediário disso tudo. Ouço e vejo tantas histórias que resolvi contá-las em palestras sobre empreendedorismo e motivação. Trabalhei em sites (agência de comunicação), jornais impressos (pauta, edição, redação, fotojornalismo, colunista), assessoria de comunicação (no começo da carreira, ainda na faculdade, escrevi discursos para um determinado candidato, que até foi eleito. Mas, politicamente e moralmente incorreto, não cumpriu o acordo de pagamento). Parece que minha praga deu certo e ele não foi reeleito. #ficaadica!!

Nasci em Arapiraca em março de 1979. Sou do bairro Alto do Cruzeiro. Tenho vícios por leitura, esportes, televisão, rádio, música.

De tão ansioso quase não durmo. São os espinhos da profissão. Mas as flores desabrocham quando colaboro com comunidades que estão longe dos olhos míopes do poder público. Ganham voz e presença para cobrar melhorias. É trabalho árduo, dedicação, que estão concretizados nas prateleiras de casa com prêmio de jornalismo ambiental, prêmio Sebrae de Jornalismo, troféu Dandara, troféu Heróis da Resistência, Comendas Valores da Terra e Zumbi dos Palmares. E ainda as homenagens que recebi de pessoas e instituições generosas de Alagoas. Sou rico de afagos diários da turma carinhosa que assiste os telejornais da TV Gazeta, onde exerço funções desde 2007.

Neste espaço, aqui mesmo, nas letras, trarei a minha impressão do dia a dia. Do quão é impressionante como deixamos passar despercebidas situações mágicas de vida, evolução, felicidade. É cansativo reclamar de tudo. Muito mais futurista olhar o lado bom e aprender as lições com as maldades e mazelas do mundo. Afinal, o jardim não tem só espinhos, nem só flores. Na minha subjetividade, da minha cachola, serei aqui, bem aqui, um banquinho pra que você possa subir e ver o mundo com outros olhos. (Faço uma referência a obra cinematográfica Sociedade dos Poetas Mortos, filme que assisti ainda na adolescência e marcou época com a célebre frase: Carpe Diem).

Aproveite a vida...aproveite a leitura.
E aproveito pra agradecer ao poeta retratista Genival Silva, dono deste sítio informativo, pelo convite e confiança.
Reclamação não combina com sucesso!!
Vida que segue...