01/06/2019 20:20

Lição de sobrevivência

 

Gonzagão cantou em forma de poesia a cena da terra ardendo, da judiação no Sertão. E diante de tanta riqueza da poesia das letras, certa feita, quando ainda era repórter na sucursal do agora finado O Jornal, viajei ao Sertão alagoano. A pauta era a seca. Na estrada de barro a poeira voava alto. Calor. Pensamento distante. Não sabia o que encontraria. No municipio de São José da Tapera vi uma casa mais distante da estrada longe de qualquer comunidade. A visão era um chamado. A paisagem em tom marrom, minha boca seca. Desci do carro quando vi crianças na porta da casa. A mãe saiu do imóvel quando ouviu o barulho do carro. Como não era casa de barro, nem imaginei que aqueles próximos minutos iriam marcar tanto minha vida. Perguntei sobre a situação da seca, as consequências. A mulher, me foge o nome real dela, mas vou chamá-la de Maria, disse que estava tudo bem. Comentou q o marido tava na "rua", pra dizer que o esposo tinha ido a cidade.

Abro um parênteses pra tecer um elogio aos sertanejos. Mesmo com a limitação de água, dona Maria ofereceu um copo. Não quis...mas algo na mente insistia pra que puxasse mais papo com a dona de casa/agricultora/mãe.

Procurei saber sobre a origem da água. "É de um barreiro", revelou. Pra em seguida emendar: "Mas eu tenho que coar. Como tem pouca água lá, tá no restinho, vem muita lama no balde".

Pedi pra ver como coava. Ela mergulhou uma caneca dentro do filtro de barro. Colocou na mesa e cobriu um copo de vidro com um pano de prato. Derramou a água no copo. O pano, que era branco, ficou em tom escuro. Era o barro. E mesmo assim, o líquido que passou pro copo de vidro tava muito longe de ser água. (Devolvemos o liquido pro filtro pra não desperdiçar).

Dona Maria resolveu abrir o jogo. Abriu a porta do armário e só tinha um pacote de farinha. As três crianças que estavam brincando do lado de fora correram pra entrar na casa pela porta da cozinha. "É comida, mãe?". Não era. Diante desse alarme falso abaixaram a cabeça mas prrmaneceram sentadas a mesa. Perguntei o que estavam comendo de alinsó tinha farinha. "Comida de bicho", informou dona Maria. Pedi pra ver. Ela foi lá fora e voltou com raquetes de palma. Tirou os espinhos. Cortou. E colocou numa panela. Fazia sopa de palma. E com aquele liquido marrom.

Minha garganta seca começou a arder. Eu sabia que em alguns países, como o México, um determinado tipo de palma é alimento pra humanos. Tipo de salada. Mas aquela cena jamais saiu da minha cabeça. No Sertão alagoano, a palma é alimento do gado.

Eu me despedi da familia. Segurando a tremedeira do queixo. Voz embargada. Tava suado, cheio de terra na roupa, no corpo...segui de volta pra estrada de barro, asfalto, redação, computador. Quando comecei a escrever lembrei que uma vez, ainda meninos, comentei com minha avó, dona Andí, que tava morrendo de fome, numa tentativa de emocionar aquele coração e fazer um lanche. Ela, de bate pronto falou "num diga isso. Você não sabe o que é morrer de fome". Já adulto entendi. E, sozinho na redação não precisei conter as lágrimas.

Depois da matéria publicada com destaque no jornal daquele domingo de carnaval, soube que a família recebeu ajuda de outros tantos corações preocupados.

Nem sou tão sensível assim, mas voltei a chorar.

Desta vez não eram lágrimas de dor. Posso dizer que aquele gosto salgado era de doce vitória. E de lição aprendida.

Tive a chance de voltar lá...a casa estava deteriorada. Abandonada. A mudança tinha sido feita pela familia. E eu percebi que algo em mim também havia mudado. O drama sertanejo com seca ou muita chuva, passou a ser pauta da vida na minha vida jornalística.