08/06/2019 07:59

De repórter a súdito da Rainha!

 

Desde que me entendo por gente gosto de acompanhar esportes. Passava horas na frente da TV assistindo competições de tênis, futebol americano, basquete, sinuca...Parece doidera né? Mas não era...nunca foi. É querer conhecer como os outros esportes funcionavam comercialmente, esportivamente, como era a cultura em outros países, esquemas táticos, valorização e incentivo a prática do esporte para jovens.

Essa curiosidade ajudou a alimentar minha visão de futuro profissional. Queria e queria mesmo ser jornalista. Ajudar a divulgar!!

Liguei o televisor certa feita e passava a transmissão de uma partida de futebol da seleção feminina do Brasil. Foi um ano depois que o Brasil se sagrava campeão mundial com a seleção masculina nos Estados Unidos.

Observando aquelas meninas, ouvindo os comentários dos profissionais envolvidos na transmissão, percebi a distância que havia de estrutura e atenção entre as duas Seleções Brasileiras. As meninas não beiravam o amadorismo. Eram amadoras mesmo. Donas de casa, funcionárias, mães, esposas, filhas, que trocavam passes por motivos em comum. Digo motivos porque não se tratava apenas de fazer gols. Mas tornar o futebol feminino uma oportunidade de abrir portas para outras jogadoras que também gostavam e tinham talento para a arte. Vi Sissi, Meg, Maravilha, a menina Formiga, Michael Jackson, Kátia Cilene, Pretinha e outras, tão talentosas, atuarem. Sob o comando de Zé Duarte. Minha nossa!! Muito bom.

O tempo foi passando, bola rolando, até que comecei a ouvir falar de uma menina que parecia um raio. Habilidosa, artilheira, decidida. Na época era só Marta. A jovem que começou a carreira correndo nas areias de Dois Riachos, na terra rachada do Sertão alagoano. Ela não enfrentava só os meninos em campo. Precisava driblar o preconceito. “Futebol não é esporte de menina”, diziam. E ainda tem retrógrado que ainda diz isso.

Marta chegou e começou a brilhar. Ajudou a levar a Seleção pra outro patamar. Vieram campeonatos, titulos, incômodos para as seleções de outros países, que recebiam recursos governamentais, que praticavam futebol o ano todo em ligas potentes e cheias de concorrência. Mas algo me deixava encafifado: Porque elas não têm a mesma atenção que o mundo masculino no futebol? Patrocínios, transmissões de mais partidas, horários de jogos em que torcedores pudessem ir ao estádio gritar os nomes delas. A inteligência em campo, com medalhas olímpicas e troféus em competições no continente americano, ficou no campo. O mundo viu e vê Marta. Foi obrigado a se render a rapidez e gingado. Aí Marta deixou de ser Marta. Passou a ter título de realeza: Rainha Marta. 6 vezes escolhida a melhor do Mundo. A melhor de todos os tempos!! A Era Marta contou e conta com companhias brilhantes: Formiga, Cristiane despontava com bola na rede. Bárbara, barbaramente.

Sem tantos holofotes, badalação, e sem tanta propaganda, diferentemente do futebol masculino. Quis o destino que eu estivesse na escala para fazer a cobertura jornalistica da inauguração de um centro de treinamento dela na cidade natal. Centenas de pessoas ansiosas pra ver a Rainha. Teria jogo de atletas profissionais. Convidados. Teria jogo da seleção feminina num campo reduzido.

Fazia muito calor. Do sol e humano.

As meninas chegaram em vans. Sem fones de ouvido, sem marra, distribuindo simpatia. Fãs queriam autógrafos, fotos. Elas atenderam. Marta bateu um papo comigo. Falei com parentes dela. Com vizinhos. O VT foi exibido no Globo Esporte. Na rede. Foi um gol deste alagoano. Menos de uma semana depois, num jogo beneficente em Arapiraca, amigos de Caíque Valdivia contra Amigos de Rey9, Marta apareceu no Estádio Coaracy da Matta Fonseca, em Arapiraca.

Não permiti que meu lado fã falasse mais alto. Tinha que ser profissional. Tava fazendo matéria pra TV Gazeta. Fiquei olhando ela tirar um monte de fotos com várias pessoas. Pedi ao repórter cinematográfico Carlos Frazão que fizesse imagens dela. Aproximei e brinquei com ela fazendo uma relação sobre as quantidades de gols na carreira e as fotos. Durante a entrevista coloquei a mão no meu bolso. Puxei meu celular. Tirei uma foto com ela. E ainda consegui brincar no texto da matéria e inseri a foto no VT. Até postei nas minhas redes sociais esta semana.

Marta e todas as outras meninas da Seleção, que jogam no Brasil ou foram para outros países tentar melhorar de vida, são espetaculares. Entraram pra história já. E mesmo assim querem escrever novos contos. Terão oportunidade. Tem Copa da França de Futebol Feminino. O Brasil está no Grupo C com Jamaica, Austrália e Itália . As brasileiras estreiam contra as jamaicanas, neste dia 9, às 10h30, em Grenoble.

Nossas atletas estão no topo da pirâmide e são exemplos para as jovens que estão jogando nos campos de barro, sem ninguém assistindo. Guerreiras na luta pelo sonho. A bola pode até não ser oficial, a chuteira nem precisa ser original. Aliás, se tiver chuteira já é uma maravilha. Imagine se tivessem a devida atenção e estrutura. A gente nem sempre valoriza, nem sempre dá bola. Joga pra escanteio. Joga contra. Só que o interessante no futebol é que as meninas talentosas continuam com fôlego pra driblar as dificuldades.