12/06/2019 11:44

FOGUEIRA, CANJICA, FORRÓ, FOGOS, FUMAÇA!

 

Onde tem Junho, tem festa. Foi o único período em que usei barba!! Daqui a pouco explico o motivo. É que o sexto mês do calendário é O mais esperado pela maioria dos nordestinos. Inteirinho de festa. Os trios de forró se multiplicam pra atender a agenda lotada. As pessoas se multiplicam pra conseguir curtir tantas festas. Arraiás nas comunidades, bandeirolas, balões, tudo muito colorido. E “tame” forró, xaxado. E “coma” canjica, pamonha, milho assado, milho cozido. Tem gente que, quando lembra de junho, a boca saliva. A presença da festa junina é marcante seja com a culinária, com a musicalidade, as cores, os enfeites. Como já citei em outra postagem, nasci em Arapiraca. Porém, pela profissão de meu pai, Leniro Medeiros, a família ainda morou em Traipu (linda cidade) e São Miguel dos Campos. Família de bancário era assim, um tanto quanto peregrina.

Lembro muito pouco de Traipu. Conheço as histórias que me contam da época. Ainda navegava de braço em braço bem pertinho do Rio São Francisco. Lembrança um pouco viva tenho da época em São Miguel dos Campos. Morávamos num apartamento perto do centro da cidade. Meu irmão mais velho, Niélsinei Charles, e eu, íamos a pé para a escola Imaculada Conceição. A direção da escola sempre incentivava os alunos a participar de eventos durante o ano. Qualquer postagem dessa conto como foi o Dia do Índio. Desta vez vou escrever minhas sensações e impressões do festejo junino. Eu estudei lá do maternal ao 2º ano do ensino fundamental. Num destes anos a turma foi convocada a participar da festa de São João. Eu, menino tímido, fiquei receoso (e eu nem sabia o que significava receoso naquela época).

Receoso porque sabia que as pessoas iriam me ver na apresentação. Nos ensaios minhas mãos ficavam geladas. Pernas travavam. Só conseguia olhar pro chão. A menina que era meu par também era muito tímida. Então, já viu, né...??

Chegou o grande dia!! Lá vai dona Gilvandí, minha mãe, arrumar a roupa do matuto mais matuto da festa. Eu era o matuto autêntico. Camisa xadrez, calça jeans com “remendo”, chapéu de palha. E pra abrilhantar: Barba feita com lápis. Desenhada no rosto bochechudo e vermelho de vergonha. (Vou postar a foto nas minhas redes sociais: Tony Medeiros no facebook e @tonynho_medeiros no instagram).

Salão da escola lotado. Nem sei se acertei os passos. Ouvia o barulho das pessoas, as palmas, alguma música...Tonynho tremia mais que carro velho. Lembro que logo depois senti que um fardo de 300 quilos tinha saído dos meus ombros.

Mas a festa junina ainda iria me deixar outras marcas.

Numa daquelas noites de junho, olhei da varanda do apartamento e vi muitas fogueiras montadas. Achei muito bacana. Fogo na madeira, festa. Só tinha 1 problema: fumaça. Em instantes a fumaça das fogueiras se juntou e, como se fosse desenho animado, parecia que tudo entrava no apartamento. Fechamos a porta de vidro, a cortinha, corri pro quarto. A fumaça me perseguia. Olhos lacrimejavam, tossia. Uma agonia!! As bombas poderosas explodiam e faziam os vidros tremerem. A experiência com junho não tava sendo salutar.

Alguns dias depois entramos em férias. Fomos passar um período na casa de meus avós maternos em Arapiraca.

A casa ficava as margens da rodovia AL 220, perto do trevo na saída de Arapiraca para Palmeira dos Índios e para o Sertão. A família iria se reunir para festejar. E eu? Bem, eu tava assustado!! Afinal...

Chovia naquela tarde. Meu irmão, eu e alguns primos fomos jogar bola num terreno baldio (onde hoje é um hotel). Atolávamos na areia molhada. Ríamos. Lama dos pés ao céu!!

Até que fomos chamados para ajudar a montar a fogueira. Começamos a carregar a madeira. Juntar, carregar, montar...A fogueira foi ganhando forma e altura. A maior parte da família ainda tava na Barraca e na Churrascaria do Côco Verde, que ficava do outro lado da rodovia. A turma tava trabalhando enquanto a gente, num daqueles dias de folga do serviço, fazia algazarra na porta da casa. Chovia muito. Banho de chuva, de lama...Fogueira pronta, hora do banho de verdade. E num piscar de olhos a família já estava reunida. Amigos que chegavam. Ouvi pela primeira vez Chiclete com Banana em ritmo de Forró. Ouvi Dominguinhos, Luiz Gonzaga. Músicas que ecoavam do contato da agulha com o bolachão. Casa iluminada, movimentada. Fogueira acesa. Traque, chuvinha, dança, sorrisos. A mesa da cozinha, bem grandona (pelo menos pra mim naquela época) com canjica, milho assado, mugunzá. O cheiro saiu do nariz e veio pra mente. Lembranças doces, salgadas, lembranças eternizadas que me fizeram mudar a visão sobre o São João.

Quando o Jornalismo entrou na minha vida passei a ver o lado lúdico e poético do mês preferido dos nordestinos. As lentes das câmeras já captaram tanto da essência do povo, dos enfeites, que hoje faço questão de ajudar a expressar a cultura popular.

Não curto fogueiras, nem bombas, nem fogos de artificio. Mas aprendi que junho de Santo Antônio, São João e São Pedro não é uma maldição como pensei quando as lágrimas escorriam por causa da fumaça. Tem as simbologias. Tem os significados. Tem o respeito a Fé. O problema nunca foi junho, muito menos os santos. Sempre tem quem nas bombas, na fumaça e no álcool.

Na próxima postagem contarei sobre a continuação do período junino ao longo dos últimos anos. A família tem uma linha de realeza!! Depois explico!!