05/07/2019 20:35

Palavras não ficam presas

 

Eram duas da manhã. O telefone tocou. Meu tijolão acordava a vizinhança toda. Uma pessoa me pedia pra ir ao Presídio Desembargador Luis de Oliveira Sousa. Na época eu estava repórter/pauteiro/fotojornalista/editor (nas sextas) na sucursal de Arapiraca de O Jornal.

Na ligação pude ouvir ao fundo uns barulhos de bombas.

Pedi um tempo. Liguei pra meu fiel escudeiro Enivaldo Mendonça, o Valdo. Era taxista. Acordei Valdo.

- Bora no Presídio? Ta rolando rebelião!!

- Claro!!! Chego já aí!!

Em poucos minutos, Valdo parou o Uno de cor verde na porta da casa que eu havia alugado no bairro Alto do Cruzeiro, em Arapiraca. Um dos quartos, naquela época, funcionava como primeira sucursal da empresa no Agreste.

Seguimos até o Presídio. Mesmo à noite dava pra ver a fumaça. Aproximamos, desci do carro e pedi pra falar com a direção, que prontamente pediu pra que subisse numa escada. Daria acesso ao teto do presídio. Lá em cima...vi os colchões em chamas. Portões quebrados. Senti o cheiro da violência.

Os reeducandos começaram a querer falar comigo.

Fiquei preocupado. De imprensa só tinha eu. Tirei uma foto. A máquina fornecida pela empresa parou de funcionar. Eles queriam mais fotos. A máquina, uma saboneteira digital, não funcionava mais. Nem com reza.

Expliquei a situação. Eles, lá no chão, com espetos, rostos cobertos com camisa amarrada, entenderam, apesar do tumulto. Fizeram as reinvidicações. Anotei e desci. Desci pra casa.

De manhã já com a luz solar, voltei ao local. Encontrei outros colegas da informação.

Esperamos a ação dentro do Presidio. Entramos após autorização e registramos armas artesanais feitas pelos próprios reeducandos.

Confesso. Eu era velho frequentador de presídios em conflito.

O meu primeiro foi em 2001. Eu nem era diplomado, mas já era repórter da TV Educativa, em Maceió.

Havia chegado com duas matérias da rua. Fechei os textos, gravei e quando tava me preparando pra ir embora...

-Ta rolando rebelião no São Leonardo!!

Disse a produção.

Eu sabia o que era rebelião na época poque alguns dias antes havia acontecido uma sequência em vários presídios País afora.

Olhei pro relógio: 12h30. Tava dentro do meu horário. Pensei: não vão me mandar porque sou bobão.

Kkkkk

Mandaram!!

Lá no São Leonardo muita gente na porta. Policiais, repórteres. Superamos uma barreira feita para que familiares dos reeducandos não se aproximassem. Chegamos ao ponto em frente ao Presídio.

Fiquei pensando em como começar aquela matéria...fumaça saíam de algumas das várias janelas frontais do São Leonardo. Puxei o Secretário de segurança, Delegado Mário Pedro, para pegar informações. Ele me passou:

- Briga entre os reeducandos. Grupos rivais. Querem se matar.

Foi basicamente o que ele me dizia em entrevista quando vejo alguém acenando de dentro do prédio. O Secretário estava de costas para a confusão (questão de imagem pra matéria).

De longe vi algo sendo jogado. O que eu vi acenando era um braço, que havia sido cortado de um detento. Outro reeducando jogou o braço pela janela.

-Aquilo é um braço?

Indaguei atônito.

O Secretário se virou. Olhou pra trás. Estávamos de frente para o episódio, mas longe o suficiente pra não ter certeza. Eu não acreditava. Mário Pedro confirmou: era um braço.

Já disse que fiquei atônito, né?

Continuamos na porta do presídio.

O então Secretário de Ressocialização, atualmente presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas, Tutmés Airan, tinha sido avisado.

Estávamos a espera dele quando...

Uma cabeça foi jogada pela janela.

O reeducando tinha sido esquartejado. Briga de rivais.

Tutmés tomou as providências e fui convocado pra voltar a sede da TV Educativa, perto da entrada do Cepa, em Maceió.

Escrevi, gravei o texto. Ajudei a editar.

Foi pro jornal local e pra Rede Nacional.

Tem mais histórias de rebeliões.

Em ambos os casos que contei, o Estado conseguiu controlar. Perdas aconteceram. Lições pra melhorar a segurança.

Tem mais histórias de rebeliões e resoluções.
Quem quiser saber mais... Manda mensagem no @tonynho_medeiros ou Tony Medeiros (Face). Dependendo da curiosidade, faço outras postagens!!

Obs. Até hoje me pergunto: por que os presídios eram sempre ao lado das Universidades Federais de Alagoas?