17/07/2019 10:43 - Atualizado em 17/07/2019 11:47

O céu para o Anjo

 

O bebê tinha apenas sete meses de vida quando se afogou num balde com água, no Sertão alagoano. O líquido, tão escasso na região, foi a causa da morte de um inocente. Como por aqui é comum a gente medir altura usando os dedos das mãos na horizontal posso dizer que o balde armazenada em torno de cinco dedos de altura com água.

Recebi a missão de ir até Pão de Açúcar com a equipe. Ainda em Arapiraca, quando entrei no carro da reportagem, bateu uma tristeza que fez o coração esfriar e mudar o ritmo. Foi um dos trajetos mais longos que fiz na vida. Pensava como aquilo poderia ter acontecido, como estava a família, como teria sido a agonia do bebê dentro do balde.

Chegamos a comunidade na zona rural de Pão de Açúcar. A mãe estava incomunicável na casa de vizinha. A dor que ninguém vê, mas massacra, aperta o coração. É preciso ter estômago pra se aproximar da família. Ter sensibilidade para entender a dor que ecoa no estado de choque. No olhar distante, nas lembranças dos dias anteriores, da convivência tão cheia de planos, tão cheia de sorrisos...Tão curta. O sentimento de culpa, acionando a máquina do tempo para se teletransportar até momentos antes da fatalidade e tomar outra decisão para impedir a perda.

Tivemos acesso a casa onde aconteceu a tragédia. Segundo relatos, enquanto a criança dormia na cama, a mãe aproveitou e foi até a casa da vizinha, fazer uma visita rápida no domingo. Neste intervalo, o bebê acordou, conseguiu descer da cama e engatinhou até o balde que estava entre a sala e a cozinha da humilde casa sertaneja. O objeto chamou a atenção da criança, que caiu de cabeça pra baixo dentro do balde. Quando a mãe retornou pra casa...a cena era de terror.

Correria pra tentar salvar, pra tentar salvar, mas o bebê chegou ao hospital sem respirar, sem vida.

Olhar aquele cenário me fez ouvir a criança chorando. Era aquele choro desesperado que se ouve a léguas de distância.

Precisava da minha humanidade para conversar com familiares e vizinhos. Pessoas que acompanharam todo aquele tormento, que passavam por todo aquele tormento. Não foi simples. Não foi fácil. Saber se tem foto, alguma imagem da criança num dos momentos de convivência com a família nos últimos sete meses.

Ao contrário do que algumas pessoas pensam, o objetivo do Jornalismo não é sobrevoar a notícia trágica. É informar para que outras pessoas não passem a mesma situação. Explicar que o piscar dos olhos pode ser lento o suficiente para um bebê engatinhar de um cômodo a outro da casa. Contar a história é dolorido. Você se coloca no lugar, não tem como fingir que não tem espírito ou coração. É um envolvimento necessário para se deixar mais humano.

A cena da casa na margem da estrada...aquele silêncio ensurdecedor. Aquele rio de lágrimas naquela terra de pouca água. Lamentações, gente chegando de outros sítios, sem entender como aquilo teria acontecido. Aconteceu, e o céu recebeu mais um anjinho.

Sabe quando a gente escorrega nas lágrimas, mesmo quando estes pingos são enxutos nas palavras? Quando as pautas envolvem situações com crianças como vítimas o mundo desaba pra todos.