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07/01/2019 09:36 - Atualizado em 07/01/2019 09:45

Como o uso do celular atrapalha desenvolvimento de autismo

 

A era digital trouxe diversos benefícios para a sociedade, desde a "aproximação" de pessoas distantes, seja para fins afetivos ou profissionais, seja pela agilidade de se resolver problemas e conseguir oportunidades no mercado, utilizando apenas aparelhos eletrônicos conectados a rede mundial de computadores. Na atualidade vivemos uma era em que as pessoas estão cada vez mais conectadas a esses aparelhos, abrindo um leque de críticas sobre os benefícios e malefícios dessa prática, principalmente crianças cada vez mais cedo já conhecem os aparelhos digitais e passam uma boa parte de seu tempo conectadas a eles, muitas vezes assistindo vídeos ou interagindo em jogos. Será que estamos promovendo uma sociedade cada vez mais alienada nos aparelhos e crianças com problemas cognitivo-comportamentais por causa deles?

Quando falamos de comportamento humano não devemos esquecer a base dessa ciência, a qual lança luz sobre aspectos bem intrínsecos a mentalidade humana. Primeiramente no aspecto filogenético, temos um organismo montado para economizar energia, com isso, atividades ligadas ao mínimo esforço com consequencias reforçadoras, serão naturalmente as mais atrativas para o engajamento humano, principalmente de crianças. Segundo, as pessoas se forem valorizadas ou ganharem um certo prestígio em estarem conectadas ao celular, com certeza a tendência é continuarem emitindo este comportamento, seja pelos elogios que recebe, por ser "uma criança esperta que sabe tudo de internet", ou até mesmo para fugir de atividades cansativas como fazer alguma tarefa que lhe foi direcionada, a este aspecto damos o nome de ontogênese. Por último, em termos de sociogênese, é inevitável considerar que estamos numa sociedade em que as pessoas estão mais conectadas nesses aparelhos e resolvem problemas através deles, dando um certo valor a esta atividade, uma sociedade onde para que as pessoas sejam "aceitas" e tenham autoestima, precisam estar conectadas a uma rede social, ou mesmo saber conceitos básicos de tecnologia, afinal, a atualidade exige isso. Esses parâmetros justificam em tese a frequencia com que as pessoas ficam conectadas a esses aparelhos, mas faz-se necessário trazermos o assunto para os malefícios que os mesmos trazem ao sujeito, seja quando utilizados por adultos ou crianças, tendo a presença ou não de algum transtorno ou comportamento disfuncional.

Os jogos eletrônicos, são bastante atrativos pois torna o jogador capaz de realizar tarefas, instiga a curiosidade, encoraja para desafios, fomenta a competição, dá sensação de poder para resolver/solucionar problemas. A questão é que isso fica apenas no campo virtual. O sujeito que pratica com frequencia essa atividade pode ser muito bom virtualmente, mas não estimula e exercita outras áreas do seu cérebro ligadas, por exemplo a socialização. Um quadro bastante característico do Transtorno do Espectro do Autismo. Ao tempo em que estimula funções executivas ligadas ao logo frontal, que vai desde o controle inibitório, planejamento, organização, memória operacional, processos atentivos, entre outros, a frequencia desse comportamento negligencia a prática na realidade do sujeito, uma vez que temos crianças que podem empilhar e encaixar muito inteligentemente peças geométricas no joguinho do aparelho celular, mas quando trazidas para a sua realidade não conseguem sequer organizar seu guarda-roupas.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) está dentro de uma classificação específica do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, em sua quinta edição (DSMV), chamada de Transtornos do neurodesenvolvimento. Os transtornos do neurodesenvolvimento são condições que se manifestam cedo no desenvolvimento, em geral antes da criança ingressar na escola, sendo caracterizados, segundo este manual, por déficits no desenvolvimento que acarretam prejuízos no funcionamento pessoal, social, acadêmico ou profissional. O TEA aparece com o código 84.0 no DSM-V e tem como características principais:

Deficiências persistentes na comunicação e interação social (limitação na reciprocidade social e emocional, limitação nos comportamentos de comunicação não verbal utilizados para interação social, limitação em iniciar, manter e entender relacionamentos, variando de dificuldades com adaptação de comportamento para se ajustar as diversas situações sociais).
Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades manifestadas pelo menos por dois dos seguintes aspectos observados ou pela história clínica (movimentos repetitivos e estereotipados no uso de objetos ou fala, insistência nas mesmas coisas, aderência inflexível às rotinas ou padrões ritualísticos de comportamentos verbais e não verbais, interesses restritos que são anormais naintensidade e foco, hiper ou hiporreativo a estímulos sensoriais do ambiente) DSMV, 2014, pg. 50).

Isso significa dizer que o quadro clínico do TEA, se manifesta basicamente com os sinais acima mencionados, mas pode variar de uma pessoa para outra, uma vez que o espectro vai desde o quadro leve até o severo, com presença ou não de todos os comportamentos característicos do Transtorno. Um comportamento prevalece em todos os quadros, o qual está ligado a interação social, seja por relacionar-se ao isolamento, onde o autista prefere brincar mais isoladamente do que com outras pessoas, até interação social de maneira não assertiva, tendo prejuízo nessa relação.

Os aparelhos digitais, quando utilizados com frequencia por pessoas com TEA, assemelham-se a vilões que não contribuem para o desenvolvimento social dessa criança, considerando que é nas relações sociais que amadurecemos funções neurológicas capazes de tornar o sujeito apto para viver assertivamente em sociedade, sabendo lidar com regras, promovendo empatia, construindo relações afetivas, dividindo tarefas. Amadurecemos na troca com o outro. Amadurecemos nas relações sociais. Crianças que passam maior tempo do dia conectadas ao celular, com certeza perdem habilidades sociais e atrasam seu desenvolvimento, principalmente quando se trata de pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo que precisam ser ainda mais estimuladas no aspecto de interação social.

Quando aplicamos a análise funcional no nosso dia a dia somos capazes de prever e controlar comportamentos, sejam eles advindos de crianças típicas ou não e perceber as nuances ambientais que interferem no desenvolvimento de nossos filhos nos torna capazes de ser engenheiros do comportamento, modificando hábitos, formando novas circuitarias neuronais e capacitando nossas crianças para enfrentarem as dificuldades no mundo que está a sua volta, lidando com frustrações, aprendendo a superar obstáculos e vencer desafios no mundo real.



Por Diego Marcos Vieira da Silva
Psicólogo Comportamental CRP 15/4764
 


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