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04/03/2018 07:07 - Atualizado em 04/03/2018 07:11

CRB x CSA: famílias superam desconfiança e prometem festa

 

A partida entre CRB e CSA é, sem dúvida, o maior espetáculo do esporte alagoano. Os apaixonados pela rivalidade dentro de campo aguardam, ansiosos, o momento em que os times vão pisar o gramado do Rei Pelé, na tarde deste domingo. E nem os lamentáveis episódios envolvendo o clássico das multidões - o que resultou em recente punição para ambas as torcidas - têm ofuscado o brilho das arquibancadas.

Na véspera do jogo mais aguardado do ano, a Gazetaweb ouviu torcedores que, apesar do receio de se depararem com novos atos de violência, garantem não abrir mão de acompanhar à partida no estádio, ecoando as tradicionais cantigas e vestindo as cores do clube do coração.

Do outro lado, a reportagem também ouviu quem já viveu de perto a violência que emana das arquibancadas. É o caso do goleiro regatiano João Carlos, que, quando atuou pela Ponte Preta-SP, viu torcedores da Macaca invadiram o gramado para agredir os atletas do time campineiro, após a confirmação do rebaixamento para a Série B do Brasileiro.

Em Alagoas, o ápice da barbárie aconteceu na final do Estadual de 2016. Aos 46 minutos da segunda etapa, logo após o CRB marcar o gol da vitória, torcedores regatianos saltaram para o gramado e partiram em direção aos jogadores do CSA. Na sequência, um grupo de azulinos também invadiu o campo de jogo, fazendo do Trapichão um verdadeiro campo de guerra.

Dois homens, em estado grave, precisaram ser levados ao Hospital Geral do Estado (HGE), após terem sido covardemente espancados. Até um guarda-chuva da imprensa foi utilizada para agredir quem deveria ali estar apenas para torcer.

Por causa da confusão generalizada, ambos os clubes foram julgados e punidos pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). CSA e CRB foram multados em R$ 5 mil cada e perderam cinco e quatro mandos de campo, respectivamente.

Atendendo à punição, em 2017, pela primeira vez na história, o clássico ocorreu sem multidão alguma. Os times jogaram com portões fechados nas 6ª e 10ª rodadas. Já na fase hexagonal, foi a vez de o confronto acontecer com torcida única nas arquibancadas do Rei Pelé.

Na final da competição, as equipes voltaram a se enfrentar e, mais uma vez, com torcida única. Naquele ano, a segunda partida teve mando de campo do CSA, mas foi o CRB quem se sagrou novamente campeão, com os jogadores regatianos impedidos de comemorar o tricampeonato estadual diante de sua torcida.

De volta

Este ano, o clássico volta a ter as duas torcidas presentes ao Estádio Rei Pelé, como medida experimental. Portanto, a postura do torcedor neste domingo será o termômetro para os outros clássicos - CRB e CSA ainda podem se enfrentar mais quatro vezes em 2018.

E para garantir que todos possam ir e voltar de suas casas sem o registro de qualquer incidente, PM, Ministério Público Estadual e Federação Alagoana de Futebol (FAF) definiram o esquema de segurança nessa sexta-feira (02). Serão 265 militares a pé, 56 motorizados e 30 montados (cavalaria). Todos vão se juntar aos cerca de 70 seguranças particulares contratados pela FAF.

Ao todo, 15 mil ingressos foram colocados à venda, mas a expectativa de público é de 17 mil pessoas. Após a reunião, ficou acertado que a torcida do CSA, independentemente do resultado, terá de aguardar 40 minutos após o encerramento da partida, a fim de que a PM possa dispersar a torcida rival.

Ficou acordado também que crianças menores de dois anos não poderão entrar no Trapichão. Quanto aos menores de 18, estes deverão portar identificação e estar acompanhados do pai ou responsável.

Outro detalhe é que o setor das cadeiras especiais vai contar com torcida mista, com direito, inclusive, a usar a camisa do clube preferido.

Amor ao clube

Tamanho aparato policial, porém, ainda não seria capaz de transmitir a segurança esperada pelo verdadeiro torcedor. Por medo de entrar para a estatística da violência, a torcedora Gabrielly Mota, 18 anos, não vai ao Rei Pelé sem que esteja acompanhada do pai ou do irmão. Ela reforça que a atenção, inclusive, é redobra em dias de clássico.

"Se eu não estivesse acompanhada de meu pai ou meu irmão, não iria para nenhum jogo. Inclusive, já presenciei várias brigas próximas ao local onde costumo ficar, além do alvoroço que a polícia causa quando começa a agir", conta a regatiana que garante presença no Trapichão neste domingo, mesmo que "com um pé atrás".

Já o azulino Arthur Freitas, 26 anos, já transmite para a pequena Maria Sophia, de apenas 1 ano e 5 meses de vida, sua paixão pelo CSA. Antes do veto a crianças menores dois anos, Arthur conta que costumava levar sua filha ao Trapichão, mas nunca ao clássico, "e por questão óbvias". "Levo ela ao estádio desde os seis meses, mas não acho seguro levá-la em dia de clássico. Em um jogo como este, deve-se analisar os riscos. Portanto, não aconselho ninguém a assistir a uma partida dessas acompanhado de uma criança", disse Arthur.

No entanto, o azulino garante que isso não vai diminuir em nada o sentimento de sua filha pelo clube. Ele adianta que, quando crescer, Sophia vai acompanhar o time do Mutange também nos clássicos. "Hoje eu não penso nisso porque, atualmente, seria inviável. Prefiro esperar ela completar ao menos quatro anos", emendou.
Visão dentro das quatro linhas

Um dos reforços do CRB para esta temporada, o goleiro João Carlos sabe bem o que é passar por maus bocados em razão da rivalidade que atropela a razão. Em 2017, quando reserva de Aranha na Ponte Preta-SP, o arqueiro regatiano viveu uma situação angustiante após a derrota do time de Campinas para o Vitória, por 3x2, no Estádio Moisés Lucarelli. O resultado decretou o rebaixamento da Macaca para a segunda divisão nacional. Revoltados, torcedores invadiram o gramado para tentar agredir os jogadores.

Em meio à confusão, três policiais ficaram feridos e quatro pessoas foram detidas ainda no gramado do Majestoso. A Ponte acabou punida pelo STJD com a perda de cinco mandos de campo e multa de R$ 30 mil.
João Carlos lembra ter sido um dos últimos jogadores a deixar o campo de jogo. À Gazetaweb, afirmou já ter superado o drama, apesar de ainda recordar detalhes do ocorrido.

"Acho que traumático não seria a palavra correta. Na hora que explodiu aquele episódio e vimos a galera invadindo o gramado, nós [jogadores] tivemos a iniciativa de correr para o vestiário para nos proteger. Eu fui um dos últimos porque fiquei chamando o pessoal que ainda estava no campo. Infelizmente, são coisas lamentáveis que acontecem no nosso futebol", declarou.

Revelado nas categorias de base do Atlético-PR, o experiente goleiro de 29 anos diz que situações como esta são inaceitáveis. "Passei por várias situações durante o período [três anos] em que defendi a Ponte. Vi a torcida ir ao aeroporto, ao vestiário e até ao CT [Centro de Treinamento] para ameaçar nós jogadores. É um tipo de pressão que não aceito porque se trata de uma intimidação. Temos família, e essas pessoas podem descobrir onde nossos filhos estudam, por exemplo, o que nos deixa preocupados. Nós atletas também somos pais e trabalhadores. Queremos apenas cumprir a nossa missão e voltar para casa. Portanto, até quando nós jogadores vamos sofrer com isso? Onde tudo isso vai parar?", questionou.

Presente em praticamente todas as partidas do Galo em 2018 (só não atuou nos empates com Murici e CSE, pelo Campeonato Alagoano), João Carlos vem se destacando pela segurança embaixo dos três paus. Foram apenas 10 gols sofridos, somadas todas as competições que o Galo disputa neste início de temporada, o que levou a torcida regatiana a já apelidá-lo de "paredão". E o goleiro comemora o bom momento, ressaltando a importância do apoio do torcedor.

"O apoio da torcida é importantíssimo. Nós sempre tentamos fazer o nosso trabalho da melhor maneira possível. E quando o torcedor passa a nos acolher, isso nos transmite tranquilidade para que possamos alcançar nossos objetivos. Então, fico feliz pela acolhida, principalmente porque todos aqui no CRB estão se dedicando cada vez mais", reforçou.

Prestes a disputar o seu primeiro Clássico das Multidões, João Carlos conta que acompanhou, mesmo de longe, as cenas de violência na final do Alagoano de 2016. Para este domingo, o goleiro regatiano espera que o confronto aconteça apenas dentro das quatro linhas e que a paz prevaleça nas arquibancadas.

"O que aconteceu aqui em Maceió foi algo lamentável. Peço que o torcedor deixe o duelo para nós jogadores. Vamos nos enfrentar, mas tudo dentro do que o esporte permitir. Tenho certeza de que será um jogo muito pegado, mas com total respeito entre as equipes. Então, peço que as torcidas reflitam um pouco. Peço que todos compareçam apenas com o intuito de torcer. É dessa forma que teremos mais mulheres, crianças e famílias nas arquibancadas", finalizou.


Gazetaweb 


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