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13/07/2021 07:55 - Atualizado em 13/07/2021 07:58

Dia Mundial do Rock: 13 de julho se tornou a data para celebrar o som das guitarras

 

A Etiópia vivia o mais grave episódio de fome de todo o século XX. Entre 1983 e 1985, cerca de 1,2 milhão de pessoas morreram na tragédia, causada por uma severa ausência de chuvas, o que dizimou colheitas inteiras, e longos anos de conflitos violentos entre grupos rebeldes e o governo do ditador Mengitsu Haile Mariam, o que deu margem a uma série de abusos de direitos humanos. Quase meio milhão de etíopes deixaram o país nesse período, e algo em torno de 200 mil crianças ficaram órfãs, segundo estimativas internacionais.

No dia 23 de outubro de 1984, a emissora britânica BBC exibiu um documentário sobre a crise no país africano. Além de mostrar imagens de multidões de etíopes famintos pedindo ajuda a organismos humanitários, o programa deu destaque à enfermeira anglo-suíça Claire Bertschinger, de 32 anos, que trabalhava para a Cruz Vermelha e tinha a dura tarefa de decidir quais crianças receberiam ajuda alimentar, entre as muitas outras doentes demais para serem salvas.

O documentário levou ilhares de espectadores a doar dinheiro para agências humanitárias. Sentado diante da TV em sua casa, o cantor irlandês Bob Geldof, cuja carreira se encontrava estagnada, também ficou chocado com as cenas de miséria. Líder de uma banda decadente chamada Boomtown Rats, ele ligou para o músico escocês Midge Ure, e os dois escreveram a canção beneficente "Do they know its christmas?" ("Eles sabem que é Natal?"), que, lançada em dezembro de 1984, ficou seis semanas no topo das paradas no Reino Unido.

Era o início de uma empreitada muito maior. Nos meses seguintes, Geldof se uniu a figuras como o cantor e produtor Boy George, da banda Culture Club, e ao empresário Bill Graham para fazer o festival Live Aid, com o objetivo de conscientizar o mundo sobre a crise na Etiópia e levantar recursos para amenizar o sofrimento do país. Realizado em 13 de julho de 1985, com shows no estádio Wembley, em Londres, Reino Unido, e no estádio John F. Kennedy, na Filadélfia, Estados Unidos, o evento é o motivo pelo qual o 13 de julho se tornou o Dia Mundial do Rock.

Uma lista impressionante dos nomes mais relevantes para a música pop naquela época participaram do projeto. As bandas Queen, The Who, Black Sabbath, Run DMC, Dire Straits, U2 e várias outras integraram o line up, que incluía também astros como Bob Dylan, Joan Baez, David Bowie, Paul Mccartney, Madonna, Sade, Elton John, Mick jagger e Eric Clapton. Aquela foi a primeira apresentação do antológico grupo Led Zeppelin desde 1980, quando o baterista John Bonham morreu.

Os planos para o Live Aid sempre foram ambiciosos, mas a ideia inicial era realizar um grande show na arena de Wembley. Porém, quando o projeto começou a decolar, Geldof e os outros produtores receberam tantos telefonemas de artistas gigantes querendo participar que eles decidiram promover o festival em Londres e na Filadélfia, simultaneamente, com tranmissão ao vivo para o mundo todo. Foram mais de 16 horas de concerto, com audiência estimada em 2 bilhões de pessoas de 38 países.

O Queen ficou 20 minutos no palco, mas a apresentação foi considerada o maior show de rock da História numa eleição entre artistas e executivos da indústria fonográfica, em 2005. Entre as seis músicas de seu set, estavam os hits "Bohemiam Rapsody", "We will rock you" e "We are the champions". O lendário vocalista Freddie Mercury foi a estrela da performance, liderando o público durante os refrães.

Phil Collins se apresentou no estádio Wembley, em Londres, embarcou num voo do avião supersônico Concorde e apareceu no estádio John F. Kennedy para tocar bateria com o Led Zeppelin. Maddona, que subiu ao palco em meio a uma polêmica gerada por fotos dela sem roupas feitas antes da fama, usou o espaço para desabafar: "Não vou tirar merda nenhuma hoje!". Quando uma corda da guitarra de Bob Dylan se arrebentou, Ronnie Wood, dos Rolling Stones, emprestou a sua para ele e ficou tocando "air guitar" para euforia do público. A Live Aid arrecadou cerca de US$ 125 milhões em doações, mas o projeto não ficou imune a ressalvas. Diferentes jornalistas avaliaram os shows como entediantes, e alguns deles criticaram a ausência de artistas africanos nos palcos.

Além disso, houve muitos questionamentos em relação à forma como os recursos foram destinados à Etiópia. Em vez de recorrer a grupos humanitários que atuavam no país, os organizadores estavam lidando diretamente com Mengitsu Haile Mariam. Organizações como o Médicos Sem Fronteiras chegaram a advertir que o ditador poderia desviar parte dos recursos para comprar armas a serem usadas contra rebeldes, o que agravaria ainda mais a situação local.

Hoje aos 68 anos, a enfermeira Claire Bertschinger, que emocionou milhões de pessoas ao aparecer no documentário que inspirou o Live Aid, é diretora de um projeto de enfermagem da Escola de Higiene & Medicina Tropical de Londres. Ela milita, entre outras coisas, pela igualdade da saúde feminina.

Um documento da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado em junho aponta que cerca de 350 mil moradores de Tigré, região etíope assolada por conflitos em novembro de 2020, lidam com uma escassez catastrófica de comida. Esse é o maior índice registrado pelo levantamento desde a crise de fome na Somália, em 2011. No total, cerca de 5,5 milhões de pessoas de Tigré, ou 61% da população local, estão vivendo sob insegurança alimentar.


Com O Globo 


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