12/07/2016 07:18 - Atualizado em 12/07/2016 07:24

A DURAÇÃO DE UM DISCURSO

 

                                                                                                              Por Everaldo Damião, advogado e jornalista 

                                         
        O padre Antônio Vieira (em Portugal era António Vieira), membro da Companhia de Jesus, é uma das figuras importantes da nossa história. Em primeiro plano, pelo seu domínio da língua portuguesa, que fez com que Fernando Pessoa lhe dedicasse um poema em seu único livro publicado em vida “Mensagem”, na parte dos poetas que anunciam o futuro, reconhecendo-o como o “Imperador da língua portuguesa”. Antônio Vieira nasceu em Lisboa (1608). Com 7 anos de idade chegou no Brasil. Sua família humilde, provavelmente descendente de índio ou negro, teve seu pai como funcionário de Tribunais de Justiça. Esse trabalho só foi possível graça ao casamento, já que o cargo fora lhe oferecido como dote. Na época que Antônio Vieira veio para o Brasil, este país era dividido em dois estados: o Estado do Brasil, com sede na Bahia, e o Estado do Grão-Pará e Maranhão. Como descendente de Português, vindo ou nascido nesta terra, Vieira foi educado no Colégio da Bahia (Collegio do Salvador da Bahia). Este Colégio Jesuíta, fundado em 1553 pelo padre Manuel da Nóbrega, foi à primeira instituição de Ensino Superior do Brasil. Possuía educação de qualidade, baseada no modelo humanista que privilegiava a educação clássica (leitura de gregos e romanos, com uso da retórica e o estímulo na competição intelectual).

Por alternar sua vida entre Brasil e Portugal, a obra de Antônio Vieira é considerada tanto literatura portuguesa quanto literatura brasileira. Sua produção literária é composta, na sua grande maioria, por “Sermões” que pregava aos índios e aos moradores da sua época.

O “Sermão” (que é o Discurso sobre tema religioso pregado em púlpito) era considerado um gênero literário, resultado de um esforço intelectual. O “Sermão” tinha como base o estudo da retórica (sobre a “Retórica” escreveu o filósofo Aristóteles, há mais de 2000 anos, que é “a arte de persuadir”). Na sua preparação, o padre jesuíta estudava a forma de exposição e a ordem dos seus argumentos. Na elocução (que é o ato de demonstrar uma opinião ou pensamento através da utilização de palavras) o Orador atentava para a função dos efeitos que o “Sermão” deveria obter. Na execução do “discurso” o pregador memorizava o texto, praticando o tom e a impostação da voz, a expressão corporal, o uso das mãos, a gestualidade e a posição do corpo. Cada gesto e cada postura era objeto de estudos sistemáticos como meio de falar melhor e corretamente, sem inibição nem exageros. Nenhum jesuíta, que tinha treinamento diário, deixava os estudos antes dos 34 anos de idade. Os “Sermões” eram proferidos nas igrejas e muito concorridos. O anúncio de um novo Pregador na Missa celebrada em determinado dia criava grande expectativa na comunidade. Em se falando de Padre Antônio Vieira, sabe-se que, além de seus sermões, Vieira também escreveu poesias, livros poéticos e centenas de cartas. Muito desse material literário ainda é inédito. Na concepção do Padre Antônio Vieira, o “discurso” tem que ter um estilo próprio, claro e conciso. Suas frases têm que ser semelhantes aos aforismos (provérbios, ditados, adágios), cheias de energia, empolgação e curiosidade.

O ato de comunicar é uma questão de estratégia. De acordo com linguista francês Patrick Charaudeau (1992), “comunicar” é um fenômeno mais complexo que simplesmente transmitir uma informação; é preciso considerar-se um dispositivo de comunicação no centro do qual se encontra o sujeito falante em relação ao interlocutor. O fator tempo é essencial se considerarmos o modo narrativo de organização do discurso a ser proposto. É essencial que o Orador acredite no que fala e não desvie sua atenção do tema. Também é preciso que o orador olhe e analise a platéia: como pensam e agem as pessoas que o escutam. As emoções cabem em um discurso, mas com certa discrição. Tanto o discurso oral quanto o discurso escrito tem que possuir sequencia lógica, que quer dizer a forma correta e acertada de raciocinar.

Mas, qual a duração de um discurso? Ensina-nos o Padre Antônio Vieira que “um discurso de 20 minutos é proporcional a experiência de vida de um homem de quarenta anos”. Porém é preciso que o Orador conheça a natureza humana e seus mistérios para poder fazer a diferença. É cansativo e enfadonho um discurso longo. Por isso afirmou o escritor José de Alencar: “Todo discurso deve ser como o vestido das mulheres; não tão curto, que nos escandalizem, nem tão comprido, que nos entristeçam”. Pensemos nisso! Por hoje é só.