24/08/2020 10:26

Bar do Paulo

 

Arapiraca, final dos anos 70, década dos anos 80, era uma cidade pujante, dinâmica, com uma juventude inquieta. A economia, baseada no “ouro verde”, movimentava todos os segmentos sociais. A cidade era alegre. O Clube dos fumicultores estava no auge. Eventos de artistas famosos. Bailes de formaturas. Casamentos da alta sociedade. Encontros políticos. Tudo era realizado no clube que era testemunha do movimento sócio político cultural de nossa urbe. O mural, naquele clube social, de Ismael Pereira, na narrativa estética da cultura fumageira, criado pelo artista famoso, também, testemunhava, o movimento da dinâmica sociedade de Arapiraca.

Neste ambiente efervescente, de uma sociedade inquieta, surge, ali na esquina da rua São Francisco, o famoso bar do Paulo. A juventude dourada corria àquele bar. O ambiente tornava-se pequeno. À noite ficava curta. Ocupavam-se as calçadas. O dono, o Paulo, era sorriso, compreensão, ouvido, generosidade.

Naquele bar, onde todos conversavam ao mesmo tempo. Paulo, com sua voz mansa, gestos educados, era dono e garçom, ouvinte atencioso, e tratava seus frequentadores chamando-os de filhos.

Paulo tinha todos os discos. Todos os cantores. Todos os ritmos. Atendia a todas as “tribos”. Ele comandava o som. Transmitia empatia. Era sorriso, compreensão, era o grande maestro da noite.

Às quartas feiras, movimento menor, sem a agitação saudável das sexta e sábado, ia ao seu bar para ouvir o Paulo e absorver sua sabedoria. Colocava uma música suave. Falava, antes, do intérprete e do compositor. Falávamos da vida. Enveredávamos pela literatura. À noite fluía. Saia de lá entorpecido pela bebida. Encantado pela música. Feliz pelo aprendizado.

No dia dos pais atendi um telefonema do Paulo que, com voz emocionada, falava comigo. Disse que leu um crônica minha que se referia a um poeta americano. Afirmei para ele que também me encontrava emocionado e que ele havia me proporcionado um grande presente. Mais uma vez aprendi com o Paulo.

A geração daquela época, saudável e inquieta, em busca do lazer e da compreensão do sentido da vida, encontrou naquele bar e na figura do Paulo, o ouvido que escutava, a fala que queria ouvir e a música que lhe acalmava o espírito.

Paulo é a simplicidade que encanta e a sensibilidade que comove. Seu bar e a sua figura fazem falta à geração atual. Naquela rua e esquina estão faltando o bar. Sinto falta da bulha alegre e daquela geração dourada. Daquela conversa e daquele aprendizado. Daquele frenesi e daquelas noitadas. Já não se fazem mais bar como aquele.


Por Geraldo Magela Pirauá - Procurador de Justiça
Fotos: Breno Airan