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16/05/2021 08:38 - Atualizado em 16/05/2021 08:44

'Crime que foi vítima Marques da Silva ainda é mistério, 64 anos depois' diz jornalista

Jornalista João Rocha foi testemunha ocular da história e cobriu o julgamento em Arapiraca em 1970 

Foi o crime mais intrigante que estremeceu Arapiraca e deixou o País perplexo. O desenrolar do episódio que tirou a vida do jovem médico de 33 anos, José Marques da Silva, e traumatizou o Estado, ainda hoje, após 64 anos, continua misterioso para a população que acompanhou toda a trama e sofreu as dores que, com a família da vítima, persiste sendo motivo de terríveis consequências, pois além de deixar viúva dona Maria Marques, uma esposa jovem de 33 anos, com três filhos para criar, essa tragédia deixou seus efeitos negativos sobre a história de Arapiraca e seus herdeiros.

O sangue do deputado José Marques da Silva, derramado na Praça Marques, às 21h30, daquele 07 de fevereiro de 1957, deixou, para sempre, o vácuo da ausência do líder político da antiga UDN (União Democrática Nacional).

A insana ânsia pelo poder, a inveja desenfreada de um grupo de adversários em uma selvagem batalha de vida ou morte contra Marques originaram um duelo nas disputas partidárias dos comandados por Luiz Pereira Lima e seu filho, deputado Claudenor Lima, para derrubar os udenistas da prefeitura, principal reduto adversário de Claudenor e seu pai.

CABANOS E CARAS PRETAS
Os motivos que causaram a guerra política entre a família Lima e os Lúcios eram a ganância pela prefeitura, que estava nas mãos de João Lúcio e as lideranças udenistas. A briga, no período de 1950 a 1964, existia entre os partidários da UDN, dos políticos do PSD (Partido Social Democrático), PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e PSP (Partido Social Progressista), de Luiz Pereira e Claudenor.

Os briguentos da UDN e do PSD se tornaram inimigos mortais. Quem estava no lado de Claudenor não se juntava aos Lúcios. A disputa se tornou tão acirrada que, depois de uma eleição, os vencedores soltavam bombas nas portas dos adversários, em determinadas ruas da cidade.

Quem era do PSD de Claudenor Lima tinha o apelido de "Cara Preta" e os filiados à UDN eram os "Cabanos". Cabano significa cavalo que tem as orelhas caídas e Cara Preta é uma gíria da época que quer dizer "cara de urso".

O JULGAMENTO
Eu fui o único jornalista presente ao julgamento de Claudenor Lima. Os debates entre acusação e defesa, bem como os depoimentos, ocorreram durante o dia e se prolongaram até a madrugada de 20 de julho de 1970.

Os acusados pela morte de Marques da Silva eram Luiz Cacheado, que deu os dois tiros que tiraram a vida do deputado, seu irmão Sebastião Cacheado e Lauro (Lau) Ferro, que vieram de Bom Conselho (PE), para cometer o crime como pistoleiro de aluguel. Também estavam envolvidos no processo os membros da família Barbosa, Valdomiro, Florisval e Djacy Barbosa.

No fim do julgamento, Claudenor foi absolvido. Luiz Cacheado, que atirou no deputado, pegou 20 anos de cadeia. Sebastião Cacheado e Lauro Ferro, que acompanharam o matador, pegou cada um oito anos de cadeia. Nair Fernandes, que se fingiu de doente para atrair o médico-deputado à sua casa, naquela fatídica noite, foi condenada a sete anos de reclusão. Os membros da família Barbosa e Lourenço de Almeida, que também fizeram parte da trama, foram absolvidos.

O julgamento foi presidido pelo juiz Antônio Lenine Pereira. José Costa atuou como advogado de defesa de Claudenor e o promotor Joubert Scala, atuou como representante do Ministério Público. A Câmara Municipal ficou super lotada e o público se espremia, num ambiente de muito calor. Eu fiz a cobertura do julgamento para a Rádio Gazeta AM, a pedido do diretor José Barbosa de Oliveira. Naquele dia, o juiz expulsou do recinto o companheiro do Jornal do Commercio, do Recife, Benedito Sampaio, que estava comigo.

Claudenor Lima era respeitado em todo o Nordeste. Foi deputado estadual por três mandatos, se elegendo em 1954, 1958 e 1962. Advogado com forte poder de persuasão e considerado imbatível nas eleições, o político perdeu o mandato e se refugiou em Goiás, apoiado por amigos.

Voltando a Alagoas, anos depois, concedeu entrevista de duas páginas ao Jornal do Commercio, criticando o governador da época Muniz Falcão, por ter perdido o pulso, atacando os udenistas e a polícia, como inimiga pessoal e mostrou cicatrizes de um tiro no peito disparado por policiais em tiroteio ocorrido em 1947, durante uma escaramuça com políticos de Valdomiro Barbosa, derrotado nas eleições para prefeito, pelo PTB, com a vitória de Luiz Pereira.

Claudenor morreu de causas naturais, em 1988, aos 59 anos.
Já Luiz Pereira Lima, que foi acusado como autor da morte de Marques da Silva, inocentando Claudenor, pelo advogado José Costa, morreu com 80 anos, em São Paulo, após ter deixado Alagoas com a tragédia da Praça Marques, para ser tratado de uma enfermidade, onde veio a óbito na década de 60.

O livro da foto, do amigo escritor e jornalista Roberto Gonçalves, mostra mais detalhes sobre o crime. Em breve será lançado uma segunda edição, dando continuidade ao assunto.


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