Início » Blog » Bairro Jacarecanga une passado e presente, abrigando cenários históricos de Fortaleza
Fortaleza

Bairro Jacarecanga une passado e presente, abrigando cenários históricos de Fortaleza

bairro-jacarecanga-une-passado-e-presente,-abrigando-cenarios-historicos-de-fortaleza
Bairro Jacarecanga une passado e presente, abrigando cenários históricos de Fortaleza

Misturando arquitetura da Belle Époque com construções contemporâneas, o bairro Jacarecanga se consolidou ao longo do tempo como um dos espaços mais simbólicos da história de Fortaleza. Localizado na zona oeste da capital e pertencente à Regional 1, o bairro reúne casarões do início do século XX que resistem ao passar das décadas e dividem espaço com edificações modernas, compondo uma paisagem que conecta passado e presente.

 >>>Clique aqui para seguir o canal do GCMAIS no WhatsApp<<<

O Jacarecanga já foi considerado um dos bairros mais nobres da cidade e abrigou parte da elite fortalezense. Comerciantes, industriais, políticos e profissionais liberais escolheram a região para viver, principalmente entre as décadas de 1940 e 1960. A presença dessas famílias influenciou diretamente a arquitetura local, marcada por palacetes e residências inspiradas em estilos europeus, especialmente o Art Nouveau, muito associado à Belle Époque.

O bairro mudou de perfil com o passar das décadas

Para a socióloga e professora de sociologia Fernanda de Lemos Rocha, o bairro tem papel importante na memória histórica da capital cearense. Segundo ela, o bairro “é muito representativo historicamente, é um bairro que durante alguns anos, principalmente entre a década de 40 e 60, foi um bairro extremamente aristocrático, a elite cearense morava aqui e aqui havia vários casarões, instituições que eram muito representativas dessa elite”.

O nome Jacarecanga tem origem no tupi-guarani e significa “cabeça de jacaré”. No início, a área era formada por sítios, mas entre as décadas de 1920 e 1940 começou a se consolidar como um dos bairros mais valorizados da cidade. A região recebeu grandes residências e importantes instituições, refletindo o crescimento econômico de Fortaleza naquele período.

Um dos moradores que preserva memórias dessa época é o fotógrafo e servidor público federal Arlindo Barreto, que vive no bairro há mais de quatro décadas. A casa onde ele mora pertenceu ao ex-governador Virgílio Távora. “Eu moro na casa onde o ex-governador Virgílio Távora morou também, na casa que eu moro hoje, há 44 anos. É maravilhoso, né [morar nessa casa]. Sempre por causa da moradia, do local e da casa, que é uma casa histórica, muito bem feita, bem projetada.”

Ao longo dos anos, Arlindo acumulou lembranças marcantes do cotidiano do bairro. Ele recorda momentos simples que revelam o ambiente cultural da região: “Quando eu chegava na UFC, eu sempre ia passando aqui pra ir pra casa e uma senhora tocava um piano maravilhoso aqui na Jacarecanga. Então eu subia na mureta da casa dela pra ouvi-la, aquelas músicas maravilhosas que ela tocava.”

 >>>Siga o GCMAIS no Google Notícias<<<

Palacetes e construções elegantes integram o cenário do bairro Jacarecanga, em Fortaleza

Entre os símbolos arquitetônicos do bairro está um palacete construído entre 1924 e 1929 que pertenceu ao engenheiro e escritor Thomaz Pompeu Sobrinho. O prédio atualmente abriga a Escola de Artes e Ofícios que leva o nome do intelectual. Muitos dos casarões da região possuíam amplos salões de festas e reproduziam costumes europeus, em especial franceses, numa tentativa de aproximar o estilo de vida local ao padrão cultural da elite da época.

O professor de história Eduardo Andrade explica que o desenvolvimento do Jacarecanga está ligado ao crescimento econômico de Fortaleza no final do século XIX e início do século XX. “A Jacarecanga é um bairro que passa a se desenvolver muito a partir do crescimento econômico que Fortaleza vai ter no final do século XIX e no começo do século XX. E o bairro passa a ser ocupado por essas famílias mais ricas. Quando você tem um olhar mais apurado, mais atento aqui no bairro, você vai conseguir ainda localizar algumas construções, alguns prédios ainda que remontam àquela época. Infelizmente, muitos já se perderam nos processos de transformações ao longo do tempo, mas o que ainda se preservou você consegue perceber com a maior clareza de como era a riqueza que se dava aqui nessa região.”

Parte dessa prosperidade vinha do chamado “ouro branco”, como o algodão ficou conhecido durante o período em que impulsionou a economia local. De acordo com o historiador, a elite que habitava o bairro também buscava qualidade de vida e acesso ao que a cidade tinha de mais avançado na época. “Essa elite está muito preocupada com esse bem-estar, digamos assim. São eles que vão poder aproveitar e vivenciar o que Fortaleza tinha de melhor na época.”

Liceu: educação e desenvolvimento no bairro Jacarecanga, em Fortaleza

Outro importante marco histórico do bairro é o Liceu do Ceará, um dos primeiros colégios do Brasil e o primeiro do estado. A instituição completou 180 anos no ano passado. Até a década de 1930, o colégio não possuía sede fixa, passando a funcionar no Jacarecanga para atender principalmente à demanda educacional da elite que vivia na região.

Segundo Fernanda de Lemos Rocha, a instituição também marcou gerações de figuras importantes da sociedade cearense. “É considerado o primeiro colégio de estado do Ceará e o terceiro ou quarto do Brasil. Aqui ele também era uma escola extremamente elitizada, inicialmente, inclusive as personalidades que passaram pelo Liceu são muito representativas da sociedade cearense, políticos como o ex-governador Lúcio Alcântara, o Clóvis Bevilacqua, o Belchior, o próprio Bezerra de Menezes, enfim, pessoas que foram representativas.”

O crescimento do bairro ocorreu a partir da Praça Gustavo Barroso, conhecida como Praça do Liceu. Ao redor dela foram construídos palacetes, bangalôs e instituições públicas, como o Corpo de Bombeiros. Com o passar do tempo e a expansão da cidade, parte da elite começou a migrar para outras áreas de Fortaleza em busca de mais modernização urbana.

Mudanças sociais e preservação da história

De acordo com Fernanda de Lemos Rocha, esse movimento transformou o perfil social do bairro. “Eu acho que essa transição se deu principalmente por quê? Porque aqui realmente era um bairro mais residencial, um bairro tranquilo. Com o passar do tempo, o comércio, o próprio Centro da cidade ficou mais intenso e as elites procuravam mais modernização, outros lugares, e eles migraram. Migraram para o Benfica, depois para a grande Aldeota, e o bairro passa realmente a abrigar setores mais populares, camadas mais populares da nossa cidade.”

Atualmente, o Jacarecanga mantém características residenciais e forte presença do comércio. Mesmo com as transformações ao longo das décadas, o bairro preserva traços de convivência entre vizinhos que se conhecem há gerações, contribuindo para manter viva a história de uma região que integra a memória dos 300 anos de Fortaleza.

Leia também | Rodolfo Teófilo: do passado rural à ‘capital da saúde’ em Fortaleza

>>>Acompanhe o GCMAIS no YouTube<<<

Fonte: gcmais.com.br